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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

15
Dez19

Ressonar

Rita Pirolita

Será o grito do guerreiro quando vai à caça? Ou o sinal nocturno para informar a família que não faça barulho porque ele faz por todos e já está no mundo dos sonhos a criar pesadelos e dores de cabeça aos outros?

Eu sei do que falo porque vivo com um ressonador profissional que faz vibratos, roncos, falsetes e assobios, até parece que lhe pagam horas nocturnas a triplicar tal é o afinco.

Já experimentei ir deitar-me antes do festival começar, na ilusão de que em 10 minutos estarei a dormir que nem uma pedra mas se vou muito cedo para a cama também não tenho sono, fico irritada por não adormecer e lá apanho na mesma com o filme.

Já me passou pela cabeça usar uma almofada mas ele ainda é jovem, daria logo conta e eu ainda acordava com um olho negro, acusada de tentativa de homicídio premeditado com forte motivação e ele acusado de violência doméstica involuntária em estado de sonambulismo.

Eu só quero manter a sanidade mental com as horas de sono necessárias para descansar a beleza, a técnica da almofada não me faria mais rica, só resulta com velhos que tenham heranças de jeito para deixar, o que infelizmente não é o caso.

A única técnica que me restou e que tenho usado é dar leves pontapés, que passam a fortes quando já não consigo dormir faz uma hora, muita paciência tenho eu, o moçoilo acorda sobressaltado a perguntar 'o que foi?' Que não estava a dormir por isso é mentira que estava a ressonar que nem um porco e eu passo por muito má porque o acordo por nada, apenas por capricho e prazer de o ver sofrer tanto como eu que estou a tentar adormecer já faz uma eternidade.

Quando já estou farta de dar pontapés e abanos passo ao plano B, chamar alto pelo nome ao que ele reage com sobressalto e susto valente. Tudo resulta por 10 segundos de silêncio apenas!...

Duvido que me habitue a ouvir alguém ressonar ao meu lado todas as noites mas também não tenho outro quarto para dormir, por isso vou usando a técnica do susto com o risco porém de um dia o moço acordar gago, já viram se isso acontece? Se já assim me dá cabo da cabeça imaginem um gago a ressonar? 
Bons sonhos e até amanhã!

02
Dez19

Vitima nunca

Rita Pirolita

A violência doméstica continua na ordem do dia. Vou falar dela pela perspectiva de quem já viu e viveu alguma coisa e está alerta para não repetir erros de outros ou deixar prolongar situações pouco agradáveis por comodismo.

Ao mesmo tempo que se alerta para a importância da queixa, o não sentir medo ou vergonha de expor a situação, por outro lado a sociedade empurra no sentido contrário, silenciando com criticas e rótulos quem sofre este tipo de violência tacanha, encurralando a vítima num beco de silêncio e solidão.

O agressor será sempre alguém sem escrúpulos que não tendo respeito por si também não sabe respeitar a integridade e espaço dos outros e cuja única forma de amar que conhece é doentia, agressiva, dominante e humilhante num desespero de esconder a sua própria insegurança e complexo de inferioridade. Atacar antes que o ataquem.

A vítima por outro lado, também ela mal amada ou nunca amada, sempre incrédula e descrente na felicidade, que não  se sente no direito de viver, que é demais para agarrar, que não merece e não lhe pertence. A dor e mal estar são constantes num comodismo quotidiano.

Assim se convencem que têm que aguentar o sofrimento como uma cruz que carregam, segredado a algumas pessoas para angariar defensores da sua causa de comiseração e queixume, única forma de ter alguma atenção e pena, como um animal ferido que sorve parcas e mesquinhas manifestações de carinho e preocupação dos outros, que estão mais interessados em saber o que se passa do que em denunciar a situação ou mesmo ajudar.

No fundo tanto o agressor como a vítima sofrem do mesmo mal, baixa auto-estima e desamor, um manifesta isso com ódio, o outro com medo e submissão. 
Se estas pessoas se cruzam na vida, a violência continua entre quatro paredes, com umas queixas aqui e ali, até um desfecho algumas vezes macabro.

Estas famílias direcionam toda a sua energia para o desentendimento e ficam assim alheados do resto, não conseguindo proteger os mais vulneráveis desta vivência. 
Os filhos ou vivem e acumulam revolta e ódio generalizados por todos os que se aproximarem deles ao longo da vida, encontrando a melhor oportunidade para exorcizar este ódio nas relações intimas que vão tendo e destruindo, ou conseguem quebrar este ciclo, nunca incólumes de todo mas com a sanidade e clarividência suficientes para mudarem o curso das suas vidas, não voltarem a cometer os erros de que foram vítimas e conseguirem relacionar-se com o mundo de uma forma integrada, de partilha do melhor e esquecimento do pior.

Agressor e vítima só coexistem se ambos derem espaço um ao outro. Sem vitimização da vitima, o agressor dilui-se e perde força.

Gente criada com carinho e dedicação tem meio caminho andado para a felicidade, gente criada com pouco e mau,  não deve desperdiçar muitas oportunidades para iluminar os cantos escuros da alma, que todos temos. 

 

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