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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

06
Ago20

Crowdfunding para pernil de porco

Rita Pirolita

Ideia de crowdfunding para quem passou a viver na rua, aqui vai! 
Explorem a imagem de sem-abrigo que passaram a ter e arrecadem pilim para pernil de porco, esqueçam as batatinhas, também só engordam e especialmente agora não podem andar sempre a comprar roupa nova. 
Acho que o tempo razoável serão no máximo 3 dias, mais que isso o pessoal desespera e saliva.
Quando conseguirem o vosso objectivo comam tudo à dentada sem se preocuparem em partilhar o resultado da ideia com quem ajudou. Deixem passar um tempo, para aí um mês ou dois para o pessoal se esquecer da marosca e voltem à carga com um menu sempre diferente. 
No inverno dá jeito uma boa vinhaça para aquecer, invistam numa carta de vinhos, boa ideia não? Dias de loucura!!!

Na longa espera entre boa comida e vinho voltem à sopa dos pobres e associações de caridade que nunca têm fins lucrativos e não ganham nadinha com a vossa miséria, tal como assistentes sociais, Santa Casa da Misericórdia, etc. 

Se não existirem coitadinhos em número considerável esses gajos ficam todos no desemprego e a vida já está tão difícil...

Esta ideia só tem uma desvantagem, os médicos inclusivé estão sempre a avisar, as dietas iô- fazem muito mal à saúde, mais do que ficar sem comer durante muitas horas ou até mesmo dias.
05
Ago20

Prozis, o novo Prozac

Rita Pirolita
Esta marca de suplementos, como tantas outras, agora também processa e muito, alguns alimentos que mais parecem comida para cão ou gato, sem desejar mal aos bichos! 

Eu gostava de saber o que vai na cabeça de quem consome ou vende a sua imagem para publicidade, por meia dúzia de patacos e de embalagens de pão, massa, proteínas e queimadores de gordura, como cafeína concentrada, alegando que está a promover um estilo de vida altamente saudável, aumentando o rendimento nos treinos e incrementando os resultados para conseguir um corpo fit em menos tempo?!

Gostava de ver alguma responsabilidade e coerência nos famosinhos que se entregam a estas divulgações errantes e erróneas! 

Será que muitas pessoas não se apercebem que se retirarmos tudo e mais alguma coisa a um pão se têm que adicionar produtos de substituição, altamente processados que não alimentam e só prejudicam?!...

Para que vamos consumir suplementos que nos obrigam a malhar mais para que não sejam criados depósitos no corpo que levam a intoxicações e desequilíbrios brutais?!...

Porque não ingerir comida real e que se veja e praticar exercício moderado e nada violento para o corpo, sujeito a choques que cheguem no dia-a-dia com trabalhos de muito esforço, más posições ou sedentarismo! 

Estes produtos são os reis da bipolaridade dissimulada, não engorda, faz exercício, come pouco, sê saudável, bonito e passa por inteligente, não come hidratos, consome proteína...

Uf que canseira para os viciáveis mais vale um Prozac de quando em vez, para os restantes saudáveis mortais, basta um bom copo de vinho, boa companhia, bom sexo, boa comida, uma boa conversa ou até um bom momento de reflexão que alivia muita coisa...tudo sem aditivos, conservantes ou substitutos!
22
Jul20

Cruzeiro dos cagões

Rita Pirolita
O moço tem uns primos novos ricos muito cagões, aqueles da melhor estirpe que costumam passar férias de cruzeiro pelo menos duas vezes por ano. 
Aqui pelo Canadá ninguém se visita com frequência, muito menos sem marcação ou em cima da hora, assumi que era o melhor comportamento a ter com esta gente que sempre que tem oportunidade e a que lhes dou é uma vez por ano e já é muito, lá exibem então aos pobres as fotos das férias. 
Eles de smoking, mandatory, bem como os miúdos tão pequenos e já vestidos de anões, esganados por gravatas ou laços, hirtos que nem pau de vassoura, elas nunca discretas, hirtas também, com aquelas cintas apertadíssimas de contenção de gordura que comprimem e arrumam a banha nos pulmões, fígado e estômago, para depois em efeito trompe-l'oeil aumentarem o volume dos pneus, disfarçados a tanto custo e falta de ar, com vestidos de cetim e lantejoula, as verdadeiras bolas de espelhos dos meus queridos anos 70.
Só tenho a dizer que não se denigre assim a imagem de tão original bola que nasceu antes destas porcas em pé! Adiante porque ver estas coisas põe-me doente!
As fotos são comentadas com orgulho da riqueza blink blink como a dizer nas entrelinhas, olhem para nós que passámos tanto sacrifício a poupar mas não somos mão-de-vaca, avarentos, somos mais espertos que os nossos avós, que andaram feitos parvos a poupar para nos deixar, até gozamos a vida, gostamos de ver a família feliz, enfiada num barco por duas semanas, mas depois queixam-se que para sairem do cruise all inclusive, nos portos de passagem e irem visitar qualquer coisa no autocarro do mijo, pagam uma pequena fortuna, ao ponto das excursões ficarem tão ou mais caras que o próprio cruzeiro em si, um balúrdio para estes somíticos, além do dinheiro que choram gasto nos recuerdos Made in China, acham sempre que sabem regatear preços e fizeram o melhor negócio da China ao comprar pechisbeque que nem em Paris as putas lhe pegam.
O que importa é que vêm anafadinhos e contentes, já que pagaram é encher a mula até à caganeira final, depois dizem que o balanço do barco dá uma certa indisposição! Pois, pois...
Devem pensar que os que organizam as viagens são parvos e não aproveitavam todas as ocasiões para sacar dinheiro a quem faz questão de exibir que tem!
E aqui entram outra vez no bolso dos pacóvios!
Eu juro que nunca presenciei isto porque nunca fui em nenhum cruzeiro muito menos com eles, é coisa que não me atrai, estar fechada num barco e não puder fugir, ou se fugir borda fora morro, às vezes é preferível a aturar certa gente mas adiante, estava eu a dizer que as primonas do moço relatam tudo com tanto entusiasmo e clareza que faço logo o filme na minha cabeça com banda sonora, figurantes e subtítulos para surdos! 
Já se chegaram a auto-intitular, connoisseurs de vinho e arte e quando disseram isto, arregalei os olhos e fiquei à espera da surpresa que aí viria, assim a frio, sem vaselina! 
Ora bem, então parece que lá pelo meio do cruzeiro andam uns senhores credivelmente bem vestidos, que devem ser os maiores charlatães do mar, os piratas ao lado destes seriam meninos de coro, mas elas são tão burras que nem se apercebem disso, a convencer os incautos ricos que têm a mania que são mais espertos que todos e ninguém lhes come as papas na tola, a comprar garrafas de vinho caras, dando-lhes umas dicas de degustação, como um workshop dissimulado de como enganar gente inculta e cagona em 5 minutos e até conseguem, porque as primas compram às caixas e andam a bebê-lo o ano todo quer apeteça ou não e a cada garrafa que abrem à nossa frente falam dos taninos, dos frutos silvestres, do chocolate e das aparas de carvalho como se aquilo nem fosse para beber de tão precioso e caro mas apenas para cheirar, voltar a tapar e esperar um mês que dará um bom vinagre! 
Ora tenham paciência, uma garrafa quando se enceta é para beber até ao fim e se for boa abre-se outra!
Atrás do vinho vem a arte, misturar os prazeres de Baco com a cultura é de uma finesse que se aproxima um pouco mais dos verdadeiros ricos eruditos, e lá caem os patos outra vez na lama ou serão os parentes? Bem, não interessa. 
Os quadros são vendidos como se fossem de artistas que já se sabe quase de certeza, dizem eles, vão ser famosos, portanto o vinho sendo o veículo de apreciação das coisas boas da vida, a arte será um investimento em potência que mais tarde se irá resumir a um mono pendurado na sala à espera que valorize e com sorte até combina com as cortinas e acaba por ficar, só para não se renderem à frustração de terem sido enganados e terem que ficar com uma coisa que nem faz bolos ou bons assados!
Esta gente até em algum momento pode passar fome mas têm que ter um palácio tão grande que nem um burro consegue olhar para ele de alto a baixo, uma frota de carros que gasta mais que 10 camiões TIR, cantar no duche árias de ópera que desconhecem mas os mais ricos assim fazem nos filmes, não há cá banhos de imersão, não que estejam preocupados com o desperdício de água mas apenas e só, para poupar e amealhar ainda mais. 
Dividem a família por voos diferentes para em caso de acidente a fortuna não se dar toda por perdida, mais uma vez tal como fazem os multi-milionários! 
Devem-se sentir bem nos papéis que criam e tão bem desempenham! Eu por mim nem compro bilhete, até pago para não ver, se for preciso!
 
Escrevi muito outra vez para concluir apenas que sem grande esforço, aos cagões se vende toda a merda desde que seja grande e cara! 

PS - Já sei, vão dizer que sou uma gozona e não perdoo uma mas haviam de conhecer a minha sogra, é muito pior, antes de dar um tombo em plena rua, já se está a rir da figura que vai fazer, eu ainda fico ali agarrada aos joelhos e depois é que desato à gargalhada, para aliviar a dor, mas ela nem dá tempo, puxa logo da melhor profilaxia do mundo, o riso!
19
Jul20

TinTin e o Templo do Sol

Rita Pirolita
Ando a rever as aventuras de TinTin, desta vez os episódios estão dobrados e não têm legendas, não podendo ouvir o sonante francês em versão original que seria uma recordação mais fidedigna. 
O moço disse que os desenhos animados na altura, eram mais despretensiosos, embora seja uma palavra cara demais para a faixa etária de quem via estes bonecos de TV, assenta muito bem esta definição! 
Na altura, para além de ser criança vivia numa época definida por valores, tradições, atitudes e modas um pouco diferentes e verifico o quão tudo mudou, não forçosamente para melhor.
O Capitão Haddock dos mil trovões estava sempre mal disposto, fumava cachimbo, bebia alcool, às vezes demais até ficar grogue, isto tudo à frente de crianças e passado num só episódio, o Templo do Sol. 
Já não me lembrava destas coisas que nunca me fizeram confusão nenhuma, mesmo quando as vi pela primeira vez no écran a preto e branco lá de casa.  
Nessa altura muitos homens fumavam cachimbo, fumava-se em todo o lado, até na televisão em entrevistas, directos ou mesmo noticiários, em locais públicos e o meu pai em casa também fazia bem de chaminé. 
Antes de entrar para a primária já eu ia sozinha, sem medo que me raptassem, ao café da minha rua buscar doses de caracóis com muitos oregãos e garrafas de litro, não de 7 e meio, de cerveja ou vinho branco ou tinto à pressão. 
O café cheirava a petiscos, cerveja entranhada no balcão de madeira, que a ASAE ainda nem sonhava em existir e fumo, muito fumo que pairava por cima das cabeças e de um chão repleto de cascas de amendoim e tremoços, beatas, pastilhas Pirata ou Gorila e mais que viesse colado aos sapatos das dezenas de pessoas que passavam por ali todos os dias para beber um copo à pressa depois do trabalho e antes de jantar, assim as mulheres não chateavam muito, ou fazendo sala e ficando noite dentro, esparramados nas cadeiras de pau desconfortáveis que nem sepos ou encostados a segurar o balcão, para não cairem eles e o balcão! 
Todo este filme se passava em frente à minha futura escola primária! 
Ninguém ficava ofendido com esta promiscuidade e eu muito menos fiquei traumatizada, achava piada àquele ambiente confuso de tasca, com barulho de fundo de apitos de jogo da bola! 
Aos fins-de-semana e mais por altura do bom tempo, todos se sentavam na esplanada de olho em nós que brincávamos nos passeios ou no meio da estrada de uma rua sem saída, que era só das gentes daquele bairro do Feijó. 
22
Jun20

Mormo e húmido

Rita Pirolita
De jantar em jantar lá vou reencontrando amigos envelhecidos e mudados e conhecendo melhor, conhecidos de conhecidos a quem me dera muitas vezes não ter conhecido!

Num jantar que se deu, nada espontâneo, marcadíssimo, com hora de entrada e sem hora de saída, lá aparecemos com vinho e bolinhos de côco. 

Alguém se fez princesa com ar a condizer mas sem qualquer condição de o ser, abancou peida, fez-se de desentendida do trabalho que dá receber e esperou a toda a hora ser servida.

Entre tudo o que estava bom, nada estava mau e conversou-se até altas horas, até às despedidas tudo correu em morno lume de discussão. 

O príncipe da princesa era fanhoso que doía, passei o jantar todo a desentender o que dizia, por falta de vontade e desinteresse natural, que pessoas sem vales ou curvas na alma me provocam, rectas de sono que me dão! 

A princesa disse todas as barbaridades que lhe brotaram do tutano, convencida da sua realeza, vivida em reino de casinhas para alugar na capital! 

Desfilaram a sua vida desimportante, duas gentes acasaladas, não querendo eu saber de quem nasceram, era importante não perpetuarem continuação, e assim eram sem filhos, dedicavam-se a uma vida de jejum e dieta, sem carbes, para ele de pele esverdeada, o glúten era veneno, para ela de cara vermelha de quem tem coração que vai rebentar a qualquer momento, uma dieta com 60% de gordura, era coisa de experimentar, porque naquela pobre cabeça, não entupia veias, pelo contrário, oleava tudo!

 

Estive o jantar todo a dedicar-me às pessoas que me diziam mais um pouco que os principescos sapos e quando já estava no limite de começar a lançar caralhadas para pegar fogo de uma vez ao palácio, saí-me com a desculpa meia verdadeira, das saudades do cão que tinha deixado em casa, duas ruas abaixo. 

Despedi-me com vontade nenhuma de voltar a tocar bochechas mormas e húmidas, aos que gosto dei abraço apertado de até breve!

 
01
Abr20

No aconchego da família

Rita Pirolita
É tão bom sentir o aconchego dos jantares de família aos fins-de-semana ou em dias de celebração, quando os presentes são mais que muitos num lar farto de bonança, bafejado por harmonia e tão iluminado que até as bochechas afogueadas dos petizes reluzem. 
Calorosos ajuntamentos que acabam sempre na sonolência de discussões imberbes onde não se degladia razão. 
Estar à lareira embrulhada em ronhice de gato a beber um bom vinho e ter ainda melhor companhia, mesa ambrosia, crianças a brincar, a correr e a gargalhar.
Os cães lá fora ladram aos pássaros numa azafama própria de quatro patas e os felinos meio domésticos, meio abandonados, são cúmplices de vigília. 
Saber que mesmo depois de adultos quando estamos de maleita, chateados ou magoados a mãe nos aconchega, o pai nos defende de ataques e investidas e os irmão ficam do nosso lado em total conluio cigano. 
Ter a certeza que nunca vamos ficar na rua ou passar fome, não o merecemos, somos boas pessoas, só nos deram amor e cuidaram com carinho extremoso, não fazemos mal a ninguém, não precisamos de dilacerar a nossa alma em acontecimentos viscerais, tudo é doce e suave, até a morte dos mais velhos é chorada com admiração e mantida viva a memória da herança de exemplos altruístas, de compaixão e união indestrutível.
As lágrimas e os soluços são sustentáveis na partilha, já os sorrisos são distribuídos por todos em doses generosas quase a ficar sem ar de tamanho júbilo.
A casa de família é conservada por todos e cuidada como ninho perfeito do amor desinteressado, as férias são sempre em grupo numeroso no meio de dádiva e alegre confusão.
As mais pequenas discussões são resolvidas em nome e respeito pelos mais velhos que ainda vão estando mas também pelos que já partiram e rondam na garantia do equilíbrio, para proteger das incautas e fugazes desavenças e roturas.
Em alguns domingos vai-se à igreja cumprir tradição, arejar a perfeição e agradecer por tamanha harmonia que só poderá vir de bafejo divino.
Os nascimentos são celebrados efusivamente como continuação de tanta bondade que impera no seio de todos.
Esta podia ser eu, bem gostava que fosse mas não, nunca tive nada disto e imagino que a maioria de vocês também não e deduzo isto só para não me sentir tão só nesta minha estranha forma de vida mas se a vossa é melhor, aproveitem ou tivessem aproveitado.
21
Mar20

Millennials, centennials e snow flakes

Rita Pirolita
Mais um jantar de amigos de conquilha coberta de coentros e acidosa laranja amarela, tarte de côco em bocadas tropicais, vinho tinto mostoso e verde picante, cerveja luposa no goto e ao gosto de cada um e de todos! 
Noites quentes de calafrio tardio, cão satisfeito a rondar a mesa em tentadas infrustradas de petisco fácil. 
Por cada olhar canino tão convincente, que parte corações, iriamos até ao fim do mundo buscar um osso de roer, mesmo que não precisasse e estivesse a rebentar de obesidade, não é o caso ainda mas com tanta insistência não demorará a chegar ao estado de intumescida salsicha com pernas!
Ar feliz em casa de mar, cheiro a fumeiro e cacimba de lua, as conversas saem parvas com ruidosas gargalhadas sem vizinhos para queixa, as falas tornam-se sérias por breves segundos, a minha tentativa forçada de tirar nabos da pucara para escrever este texto sai frustrada com perguntas tão corriqueiras que nem as reconheço como minhas, armada em psicóloga da fava bruxosa ou terapeuta de banha cobreira que recorre a métodos brumosos para obter respostas. Ainda bem que a tentativa não tem resposta que a alimente, em pouco tempo percebo que nem a noite nem o convívio são de forças medidas, nunca serão, shame on me!...
As ideias e deduções seguintes são imaginação despretenciosa de como se foi confirmando ao que hoje se chegou!
O tema que desse fruto, esperava eu, seria a desgastada caixa de Pandora que revive como Fénix, homens e mulheres que de tão reprodutiva coelhice, nunca se extinguirão a não ser por força maior catastrófica de natureza desalmada e impiedosa com a pequenez sexual.
As mulheres são mais inteligentes? 
Para mim que o sou, não... 
Os homens que planam na pragmância levam a vida com mais esperteza e contemplativo esforço! 
As mulheres são difíceis de aturar e não se aturam a elas! Engalfinham problemas para inventarem soluções, baralham-se e voltam a dar-se!
São primorosas picuinhas de introspecção dilatada, porque uterinam as crias? 
Os homens acomodam-se em atitude de vida que está bem assim na constança do ócio, as mulheres esbracejam e sangram energia em gritos de protesto, não foram à guerra mas querem arranjar uma sua!
Dos primórdios os homens não engravidam, um só espalha crias em úteros abertos e receptivos que depois de fecundados, se a cepa pegar e o enxerto não desmaiar, tão depressa não estarão disponíveis para nova aventura. 
Os olhos fêmeos brilham de atracção ao melhor exemplar testeróneo que garanta cria forte e sobrevivente, não uma semente definhosa, que não desponte da terra, nem lhes cresça para dentro bem fundo e arreganhe em orla de gordura sangrenta.  
Degladiam a procriação pelo macho mais dotado que lhes dê varão, usam dos métodos mais escabrosos e escondidos de traição às restantes fêmeas pela primazia da escolha, a evitarem a segunda-mão no leito que cabe às mais ousadas e tratadas com menos requinte e respeito. 
Fémea usada e engravidada não é surpreendida na virgindade nem tem novidade, macho experiente tem procura para envolver, dominar e sustentar.
Abespinham-se com piropos e criam leis que os condenam, quando os machos querem é espalhar semente ao vento, debaixo de humidade moliqueira ou apenas dar música de acasalamento em competição garbosa e marialva.
O choque é de vontades e aumenta o fosso, quando os seres que se julgam civilizados ainda lutam para serem instintosos, como se vestíssemos um macaco com fato Hermenegildo Zegna e o largássemos a engatar macacas numa discoteca, cheias de perfume a lixiviar as feromonas, o símio fica baralhado e acaba por se lenganhar no fácil sem consequência, engancha o esporádico de prazer fugidio, sem prolongamento genético! 
Ela pensa da altivez da eleita e escolhida mas ele é que se entrega à escolha, em torpor e libertino desleixo.
Elas já não são domésticas nem falsas submissas, apaixonam-se por cartões de crédito não podem por isso reclamar muito crédito, vivem e largam o momento.
A estabilidade dos millennials e centennials está na mudança supersónica, snow flakes que morrem ao focinhar chão! 
Nos jantares que nunca chegam ao fim, forçamos o cansaço a fazer despedidas, de barriga cheia e alma regada, o cão adoptado de rua e lixo espraia-se nas pernas de um macho rendido a sofá fundo e morno de lareira!        
26
Nov19

Sardinhada

Rita Pirolita
Agora que me sento em cadeira confortável e dia tépido que os últimos foram de canícula e abafamento de cancro do pulmão, vou descrever uma noite ambrósia de sardinhas, as verdadeiras protagonistas!

A prática do benemérito patrono do jantar no segundo dia de Outubro trouxe sardinhas na brasa, como o nome diz e obriga na sua correcteza em vez de peixe alinhado em grelha intermediária queima directamente em brasa nobre, composta apenas por pinhas bravas amansadas pelo poder da queimadura, crepitantes e fazedoras de um calor dispensável em noites de mais de 30º mas que mantêm o seu encanto incandescente, no escuro da noite de lua quase cheia e maré-baixa quase até ao fundo do horizonte como de um escorredouro de mar se tratasse, a deixar  descoberta a conquilha que escapa pela submersão quase constante de tantos donos de calcanhares que a querem comer sem a deixar crescer o suficiente para fazer rechonchudice que encha a boca numa explosão de sémen oceânico.

As pinhas crepitam e enchem o rosto de febre e luz, minguam e espalham, fazem-se à cama para receber a escamosa prata que em menos de 5 minutos se recolhe em gordura de ómega suculento, se faz transportar ao pão para ser despida da pele e comida aos lombos, a chupar os dedos que no leito da noite se vão esfregar em corpos e lençóis com a sua cheirosa morte devorada em prazer pelo menos até à manhã seguinte.

Rega-se com vinho, sangria, cerveja ou kombucha que a noite não está para escolhas difíceis e sim para libertinagem. 

Panos suspensos de yoga experimentado a medo que a idade e o peso nos tiram a leveza dos gestos e nos pesa a experiência da transcendente alma que pese talvez apenas um milésimo de grama. 

Assim se reconhece a sabedoria que vem em tempo tardio e corpo a mirrar, quando já não é precisa e se viesse em idade jovem tiraria a beleza dos momentos adolescentes que de drama a beleza têm em comum o encanto fadoso e desconsolo suicidário de parecerem intermináveis. 

Na idade do nosso tempo só o eterno é perdurável e a esperança no encanto acaba des-sonhada na morte!

Fala-se de motivação, seitas, descompressão de vértebras e alinhamento de chacras, todos sabemos ao que estamos, o simples e puro prazer de viver, comer um animal com olhos e sem orelhas ou pescoço que à meia hora se contorcia em rede rodeada de cães rafeiros e pescadores rudes modernos cobertos de camisolas NIKE, Lacoste ou TommyHilfiger. 

A dureza vestida de PRADA.

As conversas acidentam-se em ponte caída de quando em vez que nós os seres humanos teimamos vezes demais em não deixar fluir mas o tempo está aí sem pena ou compaixão, o dito já foi e o monólogo vira diálogo lançado ou picado, silêncio de dúvida ou ideia tardia calada a pensar na resposta contorcida no argumento enquanto a sardinha se revolve nas papilas intumescidas de saliva.

Todos nos rendemos ao simples alimento pela noite dentro que tanto nos dá energia para pensar e falar como nos atordoa os sentidos em sabor deleitoso...e companhia certa, aquela que está, a que não está nem errada é.

As melgas teimam na bicada de alguns e livram outros de tão pequeno ferimento que tanto incómodo causa.

A noite termina mas não acaba, não desce na temperatura, o convívio esmorece com o torpor da digestão, à sonolência da adiantada hora junta-se a moleza do mar como de dia trabalhoso no campo se tratasse, terminado em felicidade cansada e estômago recomposto por comida de fogo ancestral. 

Terminamos em abraços de despedida, dizeres de até amanhã e caloroso amor de alimento.

Destes momentos não guardo nada tal como guardo tudo sem ocupar espaço no tempo ou na alma.    
18
Out19

Encontros gourmet

Rita Pirolita
 


Hoje em dia já não sei como se processam os primeiros encontros de pessoas adultasnem sempre maduras e responsáveis…isso não interessa!
Vou arriscar imaginar um primeiro jantar nos dias de hoje de um casal que pode ser hetero, homo…isso também não interessa!

Para impressionar, combina-se jantar num restaurante gourmet com Chef de nome francês, se não tiver estrelas Michelin tanto melhor, tem a mesma qualidade ou até é melhor e poupas 5 euros na conta final, sempre dá para o pequeno almoço!

Tens pratos do tamanho de folhas de nenúfar e talheres que não vais usar
Prepara-te para usar a visão e o olfato durante 5 segundos e o paladar durante 3.

O Chef vem à mesa quando vais a meio da refeição, ou seja passado um segundo, dizer que tudo é feito com produtos frescos e muito amor, mentira! 
A comida é enlatada ou já está preparada desde o dia anterior, metida no frigorífico à espera de pacóvios como vocês para jantar. Digo isto com conhecimento de causa, há alguns anos atrás, um amigo meu trabalhava numa das pizzerias mais caras de Lisboa, o estranho é que ele não percebia nada de cozinha e era precisamente onde estava... tinha que tirar as lasagnas do Lidl do congelador e parti-las ao meio para fazer 2 doses!  Assim também eu!

A equipa maravilha está ali para os servir e proporcionar experiências inesquecíveis, quando os únicos no restaurante são o empregado e o Chef.

Além de pouca comida não podes rapar o prato, parece mal, por isso conta comer dois terços do que foi servido, se tiveres azar a única ervilha do prato que tentas apanhar com o garfo sai disparada e aterra na mesa ao lado porque está crua!...

Com pouco no estômago fica-se bêbedo com dois copos de vinho comprado no Aldi e que no restaurante custam tanto como 30 garrafas.

Estes jantares demoram pouco tempo, não mancham a roupa e deixam o estômago e a carteira vazios.

 

Pagas, não arrotas porque é má educação e não acabaste de comer como gente.  
Podes esquecer o nome do restaurante sem sentimentos de culpa, não é daqueles sítios que se recomendem ao melhor amigo, para inimigos.

Na saída, sorriso 33 de quem foi enganado uma vez e não volta a cair na esparrela.

Como não se vai repetir esta experiência inolvidável, não vais sofrer de má nutrição, alguma fraqueza é certo mas animaditos pelo vinho, não risco de flatulência que interfira com o sexo e que parece sempre mal num primeiro encontro, passam assim por seres que não se peidam em situação alguma até ao fim da vida.

Confesso que a refeição que mais me encheu a alma até hoje foi um pão alentejano e uma lata de atum a dividir com o moço, dentro do carro, a ver o pôr-do-sol algures na costa alentejana.  

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