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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

17
Nov20

Aniversário do moço

Rita Pirolita

É o dia do moço, o que eu lhe chamo, o seu nome nunca saberão, não ecoa nas letras dos meus textos, é insondável para quem me lê, outras coisas não serão, as que eu aqui ponho para vos dar a conhecer propositadamente, sou eu assim a chorar para fora sem que me vejam ou sintam o sal das minhas gotas de iris!

Do moço tenho pouco mais de uma década de conhecimento, quando fizermos, se fizermos, bodas daquele brilhante metal, já estaremos sem nos dar conta da companhia talvez. 

Expresso aqui o meu apreço por aturar a minha inquietação, a minha amizade por ser cúmplice, o meu gostar por ser bondoso, eu também sou algo assim para esses lados mas só a ele mostro, dos outros escondo, ele mostra, já não a muitos mas ainda cai onde não deve, a minha preocupação é protegê-lo e avisá-lo para que não lhe deixem mossa na bondade, para que não se transforme em revolta, ódio ou vingança, dizem que os escorpiões são dados a essas maleitas do feitio, que não se ponha a jeito, que se encolha nas palavras que eu cada vez mais faço de muda.

A força do meu abraço é o quanto eu gosto, eu tenho muita força e aperto muito, quase a estalar os ossos.

Se soubessem o quão gosto do moço? Ele sabe mas ainda não tudo, vai sabendo, conforme a vida me dá ganas para lhe mostrar o que ainda também não sei!

08
Ago20

Larry Nassar, sofre ou não?

Rita Pirolita
"Larry Nassar é condenado a 175 anos de prisão por abusos..."
E assim começam quase todas as noticias recentes, sobre este crime prolongado demais no tempo com nefasta cumplicidade de quem sabia e se manteve no silêncio!
Agora reflectindo a sério:
Acham que o detido encara a sentença com a severa culpa que todas as vitimas querem e desejam? 
Na cabeça do acusado e condenado, não ficará o castigo aquém da frieza presente nos crimes e nunca perto da intensidade de sofrimento das vitimas? 
O que interessa mais? 
Atenuar o sofrimento das vitimas directamente envolvidas e colaterais, aumentando o grau de vingança ao pensar no castigo aplicado ou saber até que ponto ele tem consciência da enorme dor que provocou, que o faça sofrer tanto de arrependimento que lhe apeteça desaparecer da face da terra?
Pelo pouco que sei e pela ausência de expressão que vi na leitura da sentença, estas são as pessoas que não têm vergonha, se não a tiveram quando praticaram os actos não a terão agora que estão impedidos de os perpetrar e apenas têm tempo de sobra para se entregar aos seus hediondos pensamentos, que nunca irão mudar nem sair-lhes da cabeça, só quando morrerem! 
Até lá, na prisão estarão protegidos mas não imunes a si próprios e à ira de outros!
20
Fev20

Balde do lixo

Rita Pirolita
Vou falar de um balde do lixo doméstico que caiu dentro de um contentor do lixo por minha culpa mas tudo acabou bem, apesar do mau cheiro!
Desde que me lembro de ter desenvolvido as minhas capacidades motoras em pleno que usava mais para correr, saltar e brincar, lá em casa já me incutiam a responsabilidade de tarefas, como limpar o pó todos os dias, sim, todos os santos dias, menos ao domingo, o que não custava muito num andar minúsculo de 2 assoalhadas.
Um quarto para os progenitores e uma sala que acumulava as funções de estar, jantar e à noite virava o meu quarto, com um sofá-cama forrado a bombazina verde-musgo, muito na moda, que abriu e fechou durante muitos anos, as vezes que foi preciso, no sono e na doença, cumprindo a sua função perfeitamente até ao fim do seu uso, que se deu com a mudança de casa e um quarto só para mim, mas só lá para a adolescência! 
Numa casa onde imperava a discórdia, destruição, gritos e violência ninguém se preocupava com educação ou compreensão, impunham-se regras para diluir a falta de respeito e iludir uma normalidade que nunca existiu. 
A obrigação de ajudar era uma forma de marcar autoridade por imposição maternal, quase como uma vingança e transferência de raiva, vinda de alguém que era tratada como gata borralheira e se queria sentir como a irrepreensível fada do lar, com poder no seu pequeno reino doméstico, já que a sua existência era todos os dias assombrada por discussões humilhantes e uma incompatibilidade visceral mantida à força, um amor doentio, obsessivo e destruidor, com resultados nefastos no futuro...para mim também! 
Os meus dias decorriam embuídos de uma inocência que de alguma forma me protegia do caos à minha volta e cujas memórias apenas mais tarde vieram a ser processadas, por uma cabeça que foi obrigada prematuramente a deixar de ser pueril. 
Nunca éramos desgraçados de quem alguém tivesse pena, não tínhamos onde nos queixar ou recolher, vínhamos ao mundo numa família que nos dava comida e nos punha na escola e só tínhamos que cumprir com o mínimo de obrigações, não fazer birras e se fosse caso disso levávamos dois tabefes que nos acertavam o passo, até à próxima choradeira típica de miúdos, por tudo ou por nada. 
A vizinha do prédio da frente batia na filha com colher de pau todos os dias, partia colheres a toda a hora no lombo da miúda e fartava-se de gritar com ela, eu como não levava tanto, encolhia-me como se as colheradas me estivessem a cair em cima do pêlo, como a dividir as dores em solidariedade para com a minha colega de escola que não esperava ver inteira no dia a seguir, mas lá aparecia ela sem ponta de queixa ou perda de peças, embora tivesse de certeza aquele rabo todo negro!  
Além da limpeza do pó e dos vidros, com vinagre e jornal amachucado que me deixava as mãos pretas mas os vidros imaculados também tinha a tarefa de ir despejar o balde do lixo, o que até gostava, visto que qualquer pretexto para andar com o cu na rua era bem vindo. 
Certa vez ao fim de um dia longo de verão lá fui despejar o lixo no contentor que ficava nem a 100 metros do meu prédio, era uma hora calma de fim de jantar, não se via vivalma e nem os pássaros se ouviam, derretidos na molenga dos ramos. 
Ao virar o balde para despejar aliviei demais as mãos e aquela porra escapuliu-se e foi parar ao fundo do contentor que ainda por cima estava vazio. 
Olhei incrédula para dentro daquele buraco mal cheiroso com paredes incrustadas de camadas de gordura e humidade fétida e não me dando por vencida nem ir a correr chamar a mãezinha que não era nada o meu género, investi em me desenrascar sozinha. 
Tentei esticar um braço ao máximo, depois os dois, depois aos saltinhos e depois de tanta tentativa infrutífera e a enxutar moscas com chapadas de raiva no ar, bichos da merda, que tinham tirado o fim do dia para me chatear e não tinham qualquer sentido de oportunidade ou condescendência com a minha difícil tarefa de salvar o balde do lixo de ficar no lixo, decidi empoleirar-me nas pegas laterais, qual mangusto chafurdeiro e com cuidado para não ir parar lá dentro e fazer companhia ao balde, empenhei-me no equilíbrio e de uma penada lá consegui alcançar o balde. 
Cheguei a casa como se nada fosse, calada que nem um rato, mas com os sovacos doridos e a tresandar a lixo. 
Não tive a pior infância do mundo, nem por lá perto, mas podia ter seguido caminhos piores e mesmo assim ainda bati em algumas portas erradas que me prontifiquei a fechar assim que desse com o erro e a retomar caminho que me parecia menos mau. 
Não tive muito tempo para brincar, a responsabilidade chamou-me logo a alinhar na vida muito cedo e agora olhando para trás, a minha sorte seria outra se me tivessem recolhido sem pena, qual cão de rua abandonado que amassem porque tinham para dar, sem se importarem com o meu curto mas já dolorido passado, traumas e medos e eu iria agradecer que para meu bem me dessem educação com um propósito e não o vazio imposto do "vais fazer porque sim, porque eu digo, posso e mando em ti!"
28
Jan20

Burros e ovelhas

Rita Pirolita
Muitos na ânsia de mostrar bondade tornam-se agressivos!
Na ânsia da compaixão mostram raiva, pensam combater injustiça com vingança, serão assim tão altruístas ao ajudar a manter a pobreza de ideias?
Ao ler os comentários sobre uma notícia de um menino que tinha sido posto de parte no colégio por ter Síndrome de Asperger, chegou mesmo a ser expulso da turma a pedido de muitos pais, por a sua condição estar a prejudicar o ritmo de ensino dos restantes alunos, veio-me isto à cabeça!
E aqueles que viveram num tempo onde estas diferenças não tinham ainda sido catalogadas e se esperavam resultados medianos para passar, as negativas eram selectivas e as excelentes notas eram discriminatórios.
Quem era usado como bom exemplo pelos professores cá fora era trucidado por malvadez.
Quem se esforça por ser melhor ou o é naturalmente, é uma ameaça e eleva a demanda de objectivos. 
Uns atrasam e outros apressam, será que os poucos restantes devem tentar acompanhar o ritmo da maioria ou devem ser ainda mais isolados para estimular ou rentabilizar o rendimento?
Os ostracizados não serão todos os que são diferentes mas não querem impor essa diferença a ninguém, apenas querem ter a liberdade de viver e explorar porque não se sentem diferentes, os outros é que os vêm assim? 
O ensino é uma tentativa de chamar a todos burros e empenhado em criar ovelhas desde sempre.
18
Out19

Pegada de dinossaura líder

Rita Pirolita
 
 
Eu fui uma dinossaura líder. Passo a esmiuçar a sentença.
 
Certo dia andava eu a saltitar numa tarde quente de verão, quando um trolha que andava a cimentar o passeio à volta do prédio me pediu para chegar perto dele e tirar o chinelo.
Eu, qual princesa morena, sem sapato de cristal, sem príncipe ou carruagem e com um enorme para a minha idade mas proporcional à altura, acedi ao pedido, aproximei-me, atirei o chinelo para o lado à rufiona e dispus o meu aos encantos das suas ásperas mãos, delicadamente pegou-me pelo tornozelo, levantou-me o do chão e com precisão pressionou-o contra o cimento fresco, eu não disse nada mas ele percebeu pelos meus olhos que aquele momento tinha sido de uma importância únicainolvidável para o resto da minha vida...
De facto aqui estou eu a lembrar-me desta passagem como se fosse ontem e se não esqueci até hoje não esquecerei até morrer!
Se ainda não deitaram o prédio abaixo ou não renovaram o passeio, a minha pegada continua por lá!... 
 
Noutro dia de verão, no mesmo sítio, ou melhor no pinhal onde brincávamos junto aos prédios, um cigano do outro lado do vale, do nada resolveu passar-me uma rasteira, não me lembro se antes lhe tinha feito alguma coisa, se calhar fiz, eu também não era boa de assoar, caí desamparada no chão, quando me levantei ainda atordoada comecei logo a correr atrás dele, ele ao tentar escapar da retaliação foi apanhado por 4 rapazes do meu grupo que o encostaram a um carro e agarrando-o pelos braços o puseram claramente à minha disposição para fazer o que me desse na cabeça, não pensei duas vezes, com a raiva que tinha desatei ao pontapé e à chapada mas passados 3 segundos pareceu-me que a vingança estava feita e a partir dali seria uma injustiça e cobardia continuar a bater em alguém que não se podia defender, assolou-me a pena, fiz sinal para os meus colegas o largarem e lá foi ele para casa a resmungar com promessas de mais violência na próxima vez que me encontrasse, que seria no dia a seguir na escola...
Não aconteceu mais nada entre mim e ele, parece que ficamos quites. 

Se na pegada me senti princesa aqui senti-me rainha controladora do povo, dominadora de massas e ideias, capaz de mobilizar ordes de seguidores para atingir os meus fins, qual wonder women com poderes extra-humanos.
 
Foi bom mas ainda bem que eu era apenas uma criança na pequenez do seu poder malévolo e naif!
Esta não seria de certeza uma pegada que eu gostaria de deixar no mundo.
 

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