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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

01
Abr20

Quizzzzzzz

Rita Pirolita
Se me perguntarem qual a minha cor preferida?...

Turquesa-mar quase sempre, laranja muitas vezes, verde, roxo com verde pistachio, vermelho com fuskia, tantas vezes o preto e branco.

Que carro gostaria de ter?...

Não precisar!

E viver numa mansão?

Antes o aconchego

Numa Ilha?

Sem sair

Casar?

Nunca

Ter filhos?

Muito menos

Um filme denso?

Esplendor na relva

Romântico?

Detesto o género

Musical?

Idem

Destino preferido para viajar?

Em mim 

Para viver?

O isolamento

Partilhar?

O simples 

Não complicar?

O simples 

Trabalho?

Que forma estranha de vida

Felicidade?

Sempre, sem pensar

Pobreza? 

Nunca, nem saber o que é

Ir à Lua?

E voltar

Contemplar?

Sem parar 

Aceitar?

O que é 

Não reclamar?

Do que não é

A natureza? 

Das coisas

O Universo?

Avança

E eu descanso...
28
Jun19

Passarão de lata

Rita Pirolita
Gosto muito de viajar e até hoje não me posso queixar, já fui a muitos sítios e muitos deles distantes o suficiente para ter que me meter na barriga de um passarão de lata, para chegar ao destino tão desejado o mais rápido possível. 
Andar lá em cima a fazer de conta que voamos melhor que os pássaros não me agrada muito, precisamente por não ser natural e sim mecânico e por isso passível de falhas tão graves que quando a coisa corre mal, muito poucos restam para contar como foi, mas o desejo de visitar mundo é tão grande que esse medo só surge em lembrança leve o suficiente para não criar pânico, antes de tirar os pés do chão, depois é só dormir e comer o que dão, porque não há livro de reclamações e não se pode sair porta fora e ir ao restaurante do outro lado da rua, por isso seja o que venha é bom e dormir é a única solução para que o tempo passe mais rápido. 
Muitas vezes antes de descolar já estou cheia de sono, desconfio que põem qualquer coisa no ar que só me afecta a mim e uns quantos, porque não vejo muita gente com esta soneira e descontração. 
Depois de levantar voo, asseguro-me que acompanho a manobra até a coisa estabilizar lá em cima, como se a minha supervisão de co-piloto de classe muito económica evitasse qualquer falha, volto a dormir e só acordo com o cheiro de comida no ar.
Deito um olho aos programas disponíveis, sempre na esperança de não adormecer passados 10 minutos de um filme, que me levou 20 a escolher. 
A maioria das vezes suspiro de alívio por não ir enchouriçada entre dois gordos e outras dou pulos de alegria se der para me deitar em três bancos corridos, porque o metro quadrado aéreo é muito caro e gente comprida como eu sujeita-se à  tortura da cadeira. 
Depois de instalada é só dormir e babar que nem uma camela até escorrer para o pescoço, de boca escancarada, parece que morri há uma semana e já estou dura que nem uma carcaça. 
Só acordo uma última vez na descida para o paraíso, aliás são as únicas vezes que se pode dizer que descemos para o paraíso porque a última vez que se sobe é fatal, derradeira e não precisa de reserva.
01
Mai19

Cogumelos, lavanda e amoras

Rita Pirolita
 
Ter uma vida acolhedora, conforto, família, ser senhora de lar, ter filhos que amo todos os dias de um lenhador que me acolhe em braços firmes, viver no campo, ter pássaros a comer à minha mão, um lagarto que me aparece dia sim dia não e nunca se deixa apanhar, ser normal na alegria, no sofrimento, na perda, na morte e na doença, deixar-me chorar e rir nos momentos que me apetece, sem culpa ou arrependimento. 
Não sentir necessidade de sair e viajar porque o mundo está na minha casa e faço breves passeios ao pinhal ou à praia, mesmo ali à mão de semear, em forma de piquenique ou simples apanha de cogumelos, lavanda ou amoras.
Tudo é tépido e caseiro, debaixo das minhas unhas cheira a cebola e alho, o corpo a louro, o cabelo a fumo de lenha, os vestidos são de flores desbotadas mas não murchas, o fim dos longos dias quentes de verão são de um silêncio morno e envolvente com cheiro de pão-de-ló domingueiro no ar.
O outono cai pesado nas folhas, o Inverno mal-vindo, prova ser necessário com as chuvas, para que a Primavera se imponha com multiplicação desenfreada e mais tarde se deixe queimar e mirrar pela canícula do Verão.
As manhãs raiam ao som de galo acordado por ele próprio, os dias corremusculados de calma e compassados de preguiça, as noites são de paixão, jantares regados de vinho morno e aconchegados com ginja ou ponche quente.
E se depois de tudo isto não sentisse nada de especial, queria dizer que era uma mulher feliz com uma vida normal sem saber? 
É que agora e desde sempre, sinto desconforto e inquietação constante de alma, queria descansar um pouco da vida sem ter que morrer ainda, fazer um curto intervalo neste filme. 

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