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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

09
Ago20

Feministas ferozes

Rita Pirolita
Às feministas ferozes que actuam por ódio aos homens denunciando casos de assédio impossíveis de provar, por estarem cheios de teias de aranha...os homens também são alvo de assédio e pressão em sustentar mulheres que se fazem à riqueza material numa de se rodearem do bom e do melhor em troca de beleza e bom desempenho sexual. Isto não é seduzir, é conseguir o que se deseja dê lá por onde der, sem olhar a meios e aproveitar-se do galanteio para extorquir pessoas que também se põem a jeito e não são parte inocente da coisa!
Que os adultos mesmo que supostamente responsáveis queiram dar a entender que não sabem o que andam a fazer é uma coisa mas como poderão crianças que já não são assim tão inocentes mas também ainda não criaram a capacidade de se defenderem de investidas ferozes e humilhantes de abutres impiedosos, não se deixarem molestar?... 
Será que de repente se esquivaram todos de lutar por causas verdadeiras, esqueceram os abusos levados a cabo por pedófilos disfarçados de padres durante décadas, estupros concretizados e não só sugeridos de milhares de crianças, mulheres mortas por violência doméstica, excisão feminina, violações em massa em locais de guerra tanto de homens como de mulheres e muito mais que ficaria aqui um dia inteiro...
Esses miúdos deram origem a pais traumatizados e calados por vergonha e ameaças, em nome de um Deus que a existir nem devia ser invocado pela boca de muitos. 
09
Ago20

Que vergonha eu tenho

Rita Pirolita

 

 
Ainda sobre 2017...
A GNR, que deduzo para evitar a sua extinção é lhe dado funções de Protecção Civil, anda a evacuar à força aldeias inteiras para ninguém importante ser responsabilizado por mais mortes dentro de casas ou carros. 
Podem contribuir mais um pouco para o bem comunitário e evitar os roubos das casas que ficaram para trás, se os ladrões lá chegam as forças para os impedir também e prender os charlatães que se andam a fazer passar por Assistentes Sociais para enganar gente desesperada. 
Os oportunistas chegam mais rápido que a ajuda. 
Ao fim de 4 dias de inferno, durante os quais até vieram  constatar com toda a certeza, que tinham identificado a árvore precisa que tinha levado com o relâmpago em cima, só agora o presidente da Liga dos Bombeiros torna pública a sua suspeita de ter havido mão criminosa e amanhã até  poderá acrescentar, que talvez tenha sido ateado em vários pontos diferentes em pouco espaço de tempo, dificultando a vida aos bombeiros no seu combate.
Um sinal claro da urgência de sacudir a culpa do capote, enquanto vários responsáveis fogem de se queimar.
Quem desculpa que um sistema de comunicação de incêndios, o tal SIRESP, onde se gastaram milhões dos contribuintes, não funcione como e quando deve? Não deve ser culpado, porque foi tão caro por ser o último grito em comunicação deste tipo...
O modo de recepção destes sistemas não pode ser tão vulnerável à saturação da rede ou destruição para a qual quer alertar.
Na realidade não leva água aos incêndios, isso tem que ser força humana e aviões, que volta e meia caem ou não!
O IPMA já veio dizer que os seus próprios meios de detecção de fenómenos atmosféricos, apesar de serem os mais avançados, sofrem todos por defeito, de um erro de precisão do local e atraso no tempo. 
Trovoada seca, altas temperaturas, pequenos tornados, pouca humidade, chuva que evapora antes de tocar o solo...
Garanto que até acredito que o fogo tivesse origem natural mas custa-me tanto ouvir todos os dias, os verdadeiros responsáveis a desfazerem-se em discursos de culpa alheia, para baralhar as opiniões e fugir à responsabilização pessoal e política de tanto abandono e mortes evitáveis.
Tantos programas, entrevistas e declarações de políticos e responsáveis de grupos que não deviam ser politizados, em jeito de rescaldo de uma catástrofe que ainda se está a abater??? Para espalhar o ruído e a confusão antes que se descubra a verdade??? 
Que vergonha eu tenho de também ter deixado que isto acontecesse ao meu país e à minha gente!
Que vergonha eu tenho de quem tem a maior culpa, não assumir e continuar à solta, a mentir!
Que pena eu tenho de não acreditar num Deus que faça justiça e deixe a culpa morrer sempre solteira e desculpem-me, de um Inferno que queime os culpados!
09
Ago20

Estou confusa

Rita Pirolita
Nesta fase de grande mudança física e emocional estou confusa como estava na adolescência. 
A menopausa é uma merda e para agravar o mau estar, somos bombardeadas todos os dias com exigências de manter um corpo bonito a qualquer custo e agora até os homens se quiseram meter ao barulho sem ninguém os ter chamado. 
Detesto exercício fisico, rotinas e obrigações, gosto de me mexer muito, não obedecer a imposições e ter a liberdade de ser feliz na parte que me toca fazer por isso.
Não entendo o sacrifício e malefício que são necessários fazer o corpo passar, com dietas de limões e folhas de alface de manhã à noite, choques elétricos, queimadores de gordura, injecções de gordura, bisturi tira gordura, bisturi põe silicone...depois todos dizem que sem esforço nada se consegue e que o sacrifício é proporcional aos bons resultados. 
Que mal fiz eu para continuar a ouvir sentenças bíblicas relacionadas com pecado e vergonha para descobrir o Santo Graal da aparência perfeita à custa de tudo menos ser saudável. 
Cirurgiões que deixam a sua assinatura na obra, fazendo o mesmo tipo de lábios ou mamas em todas as parvas que lá vão. Miúdas de 20 anos que já parecem ter 40 e se vestem como trabalhadoras do sexo reformadas, mulheres que parecem homens de tão musculadas, ratos do ginásio que não se parecem com nada que seja humano. 
Já ninguém ingere comida, todos sobrevivem com batidos e selfies no espelho do ginásio. 
Eu não sou nenhuma Miss mas esta gente faz-me sentir que sou normal, feliz e gostada, no fundo eu existo, já esta gente não sei se pensam quanto mais existirem.
05
Ago20

Quer perder peso? Não me pergunte como!

Rita Pirolita
 
 
 
Porque temos que ter vergonha ou quase pedir permissão para ganhar quilos, comer mal e sermos sedentárias?
Por acaso não aprecio fritos, gorduras, carne, ovos, chocolate e por ai fora mas às vezes com tanta dica de comida saudável dá-me vontade de comer hambúrgueres todos os dias, nem que depois os vomite no minuto a seguir.  
Não gosto de ginásios, bicicleta, correr, Cross Fit, musculação, jogos, o mais que consigo fazer com o mínimo de prazer é caminhar e a horas decentes ou seja nem às 5 da manhã nem às 11 da noite e se estiverem as condições atmosféricas ideais para o fazer, não chover, não estar muito vento, não fazer muito frio ou muito calor, não ter a barriga cheia ou estar com muita fome... 
Ora bem apesar de tudo o que vou aqui relatar o sedentarismo não é recomendável mas é muito bom, por isso é que ninguém algum dia fez o mínimo de esforço para estar esparramado no sofá.
Andei kilometros durante 4 meses, 2 horas por dia sem nenhum dia de folga, desta vez sem ser picuinhas com o tempo que fazia. 
Comi como sempre faço desde há mais de 20 anos, vegetais, fruta e cereais, sem molhos nem fritos que tenho a sorte de não gostar e de me fazerem uma azia que nem imaginam. 
Enquanto me esforcei nesta rotina verifiquei que com o exercício a fome aumentou e comecei a pôr em causa se não tinha que praticar mais exercício para gastar calorias, num crescendo imparável que parece que vamos rebentar, mais fome, mais comida, mais calorias para queimar!
O moço, fofo e reconfortante disse-me que não emagreci nem engordei mas estava de certeza mais saudável. 
Se não vemos resultados para quê o SACRIFÍCIO?
o me convidem para esta tortura mais que medieval. 
Sou uma defensora da liberdade de estar, prazer, conforto, ócio e contemplação! 
Se um dia chegar ao ponto de não gostar de me ver com vestidos mais justos, uso mais folgados, vou parecer um saco de batatas? Isso não sei mas em vez de comida não vou começar a comer vestidos, por isso não importa o tamanho que têm!  
Não escrevi isto para desanimar ninguém mas as gajas elegantes que vejo e com as quais a maioria das mulheres se tenta comparar são muito mais novas, têm uma vida boa, com tempo para fazer exercício seguido 'de muito perto' por um PT giraço, compram carradas de coisas para emagrecer e secar o corpo incluindo cocaína, não comem, fazem sacrifícios do outro mundo a enfardar limões logo pela manhã, enchem o Instagram de imagens de pequenos almoços saudáveis com sementes mas nunca filmam a cara de cu ao comerem aquilo todas as manhãs e fazem plásticas e lipoaspirações a toda a hora...assim também eu!
Sempre fui dona de uma genética fantástica e um bom metabolismo mas nem por sombras me acho a última bolacha do pacote mas também ninguém no mundo chega aos 80 anos sem envelhecer, sem rugas, refegos e coisas descaídas!
A conclusão que tiro de tudo isto é que as dondocas que andam obcecadas por perder peso podiam esperar por uma gripe de caixão à cova combinada com uma intoxicação alimentar que levaria prái 20 quilos numa semana, estaria resolvido o dilema dos kilos a mais, sentadas no sofá à espera de uma gripalhada com diarreia.
04
Ago20

Cavalgadura

Rita Pirolita
Até eu que sou uma cavalgadura pouco dada a lamechices românticas me emociono ao ouvir a canção do Salvador Sobral e até dou comigo a cantarolar.
Mas que seria da minha evolução sem saltitar de vergonha em vergonha???
Aqui deixo a minha versão da melodia do Salvador repleta de mau gosto e ruindade como só eu sei ter.

Versão original, linda como só ela própria!

AMAR PELOS DOIS
Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi para te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada para dar
Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender
Se o teu coração não quiser ceder
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois

A minha versão, desprezível como a porra!

AMAR UM MAS NÃO DOIS
Se ninguém perguntar por mim
Diz mesmo assim, que fui passear
Antes estive acolí  
Cansada, agora estou acolá
Meu bem, peço que te apresses
Peço que vás e não voltes a correr
Eu sei que não estou sozinha
Talvez 
à pressa possas desaparecer
Se o teu coração ceder
Nao bater, vais morrer
Faz planos para depois
O meu coração aguenta um mas não dois!
25
Jul20

Amigos velhos que nunca serão velhos amigos

Rita Pirolita
Já pensaram quando forem velhos e por acaso ou muito de propósito vos deixarem sós, como vai ser? 
Se não tiverem filhos o mais provável é que fiquem sozinhos, se os tiverem também sós ficam! Se tiverem irmãos, tios, sobrinhos também ninguém vos vai ligar, cada um tem a sua vidinha, querem ver-vos pelas costas para deitarem mão à herança!
Eu não tenho família nem tive oportunidade de conservar amigos por ter emigrado, também desde os tempos de escola sempre me puseram de parte porque me achavam uma croma que tirava boas notas até a educação física, era girinha mas se abrisse a boca ninguém tinha estaleca para dar luta porque não percebiam nada, nem liam nada do que eu lia. 
Sempre toda a gente me achou um nariz empinado e eu apenas era incompreendida e não dava muita confiança, entrei assim num ciclo de pescadinha de rabo na boca, não me ligavam porque achavam que eu não queria falar com ninguém e até tinham uma certa razão, vendo bem até foi benéfico, não aturei muita gente burra no meu percurso, funcionou como selecção natural!
Mas agora pensem, voltando à velharia...
Se escolhermos uma pessoa para nos cuidar, que não dentro do âmbito familiar ou com qualquer outro tipo de ligação, quererá manter-nos vivos o mais tempo possível para continuar a receber o ordenado, já que na herança não mete as unhas, a não ser que seja um grande cromo patife, também os há que se aproveitam da demência dos mais fracos, alguns velhos merecem por serem tão velhacos e maus para a família! 
Além de que não temos tanta vergonha de alguém que não conhecemos, nos limpar o cu ou mexer nas mamas. 
Pensem quando estão nos hospitais, as enfermeiras e médicos mexem-nos nos buracos todos, rapam pintelhos e nós nem chus nem mus!
Ao longo da vida quantos amigos se perdem e nos desiludem, não sobrevivem às vicissitudes, às separações, mudanças de local?...
Quantos sobram que sejam bons, verdadeiros e estejam ao nosso lado até àquela altura sensível, em que vamos precisar quanto mais não seja de uma companhia que não nos frite os miolos e tenha mais paciência que nós próprios para nos aturarmos? 
Não existe ninguém assim tão altruísta, se calhar é melhor ter um cão ou em caso de já ter, não se livrar dele!
Não será mais sensato poupar para mais tarde pagar um ordenado justo a quem trate de nós com alguma dignidade e cuidado, em vez de gastar em jantaradas para manter amizades que ao mínimo pedido de ajuda dão de frosques por também já estarem tão decrépitos e aziados com a vida como nós?
25
Jul20

A descrição da discrição!

Rita Pirolita
Não nos conhecíamos há muito, ele era meu chefe temporário em trabalho a recibo verde numa qualquer empresa de organização de eventos, animação, actividades outdoor, desportos radicais, reuniões, jantares de convívio, aniversários de empresas...
Um pouco mais velho que eu mas não muito, na casa dos 30!
Após um trabalho numa boleia até casa que durou um bom par de horas, com ele a conduzir e eu como única companhia, a conversa surgiu do nada, descabida, fora de contexto, iniciada por ele! Atenção, pode ser imprópria para os mais susceptíveis. 
Foram precisos nervos de aço, língua afiada qb, acutilante e certeira e depois rendição ao silêncio, que é o maior aliado da razão e bom senso nestas situações! 
Ele - Tens que começar a rever a tua postura, não te podes destacar mais que as outras colegas, tens que ter a noção que estás a trabalhar em equipa e ninguém pode ter protagonismo!
Penso nesta resposta mas  calo-me e guardo para mim:
Eu - Estás a falar até parece que tenho a mania que sou boa ou melhor que todos os restantes mortais?!...
Não tenho manias e não consigo perceber quem fica afrontado com a simples existência de pessoas que têm uma postura e personalidade que é naturalmente mais carismática, aliás, todos os contratados para este tipo de funções são escolhidos a dedo pela sua peculiaridade, não fazemos por mal nem é intencional, nascemos assim. 
Desculpem lá os que se insurgem connosco mas não podemos anular a nossa existência e não estou nada interessada em suicidar a minha alma! 
Embora tenha muito a corrigir ao longo da vida, isto não é de certeza um problema. 
Sendo assim, muitos de nós teríamos que morrer de vergonha para nascer outra vez?...E eu não fiz mal a ninguém!
E lá continuei... 
Eu - Mas em que sentido é que me destaco dos outros e faço questão de mostrar que sou diferente? (pergunto eu a fazer-me de parva)
Ele - A tua forma de falar, os teus gestos, a tua postura corporal, a tua espontaneidade, tens muito que treinar e aprender para pareceres mais profissional e integrada no trabalho, no fundo vestir a camisola da empresa!
Eu a pensar e a conter-me mas a deitar fumo pelas orelhas, que felizmente não se via: 
Ah então ele é isso, a minha pessoa incomoda-te porque tu sendo um porco mimado não me podes dominar, vês em mim uma rebelde que pode desafiar o teu autoritarismo. 
Quando se é tão inseguro, ataca-se antes que nos ataquem e quase tudo é uma ameaça e alvo de inveja corrosiva! Trabalhando numa empresa que no fundo vende festa, celebrações e boa disposição, tenho que ser um tronco de escritório, caladinha, com boas maneiras e fazer com ar submisso tudo aquilo que me mandam, andar com um sorriso e boa disposição, mas não muito, não interagir com o cliente, apenas estou ali para o servir e fazer sentir que no fundo não saiu do escritório e aquele vai ser um dia de merda como outro qualquer?...
Será isso o que queres? Não acredito!
Eu - Mas no fundo estás a fazer observações à minha personalidade, ao que me distingue de todos os outros e aos outros de mim, todos somos diferentes, além de que nunca houve queixas acerca do meu trabalho, fui sempre educada e bem disposta, fiz sempre o que achei necessário, umas vezes a mando outras por iniciativa própria, sempre fui desenrascada, a escassez de tempo e meios muitas vezes assim o exigem! 
Sempre fiz tudo para facilitar o saudável decurso do trabalho em equipa, sem me pendurar no esforço de ninguém, sem preguiça e sempre com a genica que me é característica!
Ele - Podes ser tu mas tens que ser mais discreta, não podes atrair demasiada atenção para a tua pessoa. Vou fazer-te uma confidência e dar-te 'O exemplo'!
E veio a confissão que eu não esperava, completamente fora de contexto e que na minha perspectiva não devia ser abordada, por eu apenas trabalhar com esta pessoa e não ter o mínimo interesse em saber da sua vida intima, que deveria manter-se privada. 
Para quem apreciava recato e discrição esta sua conversa foi um desastre que eu não precisava de saber! 
Lá continuou a enterrar-se, até à pazada final que o asfixiou!
Ele - Eu sou casado há muitos anos e tenho dois filhos, como tu sabes! (juro que a este ponto fiquei assustada e a pensar que este gajo me ia violar para me amaciar o pêlo e domesticar? Mas não e lá continuou...) 
Gosto imenso da minha família e nunca abdicarei desta estabilidade mas mantenho há algum tempo uma relação extra-conjugal, muito discreta, com uma pessoa muito discreta, tão mas tão discreta que até te vou dizer quem é porque tu nunca adivinharias!
Eu - Mas eu não quero saber e não estou a ver onde queres chegar com estas inconfidências!
Ele - (sem ligar nenhuma ao meu nojo perante tal conversa, em tom de sermão que vinha da boquinha menos discreta à face da terra naquele momento).
É a 'Maria Tal', que trabalha no escritório da agência onde estás inscrita!
Visualizei a pessoa em questão, de aspecto franzino, borbulhenta que nem adolescente, de olhar vazio e voz apagada mas com direito há existência como qualquer uma. Nunca me passou pela cabeça julgar esta miúda, fosse pelo aspecto, fosse pela relação que tinha com este palerma, até cheguei a ter pena dela que com aquele ar inocente pudesse estar a alimentar esperanças de vir a ter uma relação menos escondida e mais 'indiscreta', embora já soubesse desde há muito que as pessoas não são tão inocentes como parecem e quem se envolve nestas andanças sabe sempre ao que vai, vem, traz e leva!
Apenas me relacionava profissionalmente com ela e essa era a única parte que me interessava e muito, visto ser ela que processava os pagamentos do nosso trabalho e sempre correu bem, como era de esperar entre pessoas sensatas!
E lá continuou, orgulhoso de me ter feito uma confissão só para dar um exemplo. 
Pensei eu, se me contas isto com esta facilidade já toda a gente deve saber e qualquer dia chega aos ouvidos da tua mulher e tens a vida virada do avesso mas isso são grandes pormenores que não me interessam e a este ponto dispensava saber e não ter ouvido tudo o que me disseste desde que entrei neste carro! 
Foi esta falta de consciência e de sentido de oportunidade, de calar aquela matraca que me chocou, não tanto o facto de andarem embrulhados ou a enganar terceiros, são adultos que se entendam!
A minha indignação e espanto foram impedidos de sair cá para fora em forma de insulto, pela chegada a casa.
Entregue sã e salva depois de uma viagem com este maluco que me descreveu como ser discreta sem discrição nenhuma, comer e calar, andar assustada, escondida a um canto, sem estrebuchar, no fundo sem que ninguém até dê conta que respiro para viver, que desde que se faça tudo pela calada é a forma mais requintada de enganar e viver bem com isso, numa vanglória nada discreta dos feitos! 
Aprendi mais nesta viagem com aquilo que me queriam fazer desaprender! 
Isto passou-se de facto! Eu sou maluca mas não tenho capacidade nenhuma para inventar histórias tão rocambolescas, com tão alto calibre de mesquinhez!  
02
Dez19

Vitima nunca

Rita Pirolita

A violência doméstica continua na ordem do dia. Vou falar dela pela perspectiva de quem já viu e viveu alguma coisa e está alerta para não repetir erros de outros ou deixar prolongar situações pouco agradáveis por comodismo.

Ao mesmo tempo que se alerta para a importância da queixa, o não sentir medo ou vergonha de expor a situação, por outro lado a sociedade empurra no sentido contrário, silenciando com criticas e rótulos quem sofre este tipo de violência tacanha, encurralando a vítima num beco de silêncio e solidão.

O agressor será sempre alguém sem escrúpulos que não tendo respeito por si também não sabe respeitar a integridade e espaço dos outros e cuja única forma de amar que conhece é doentia, agressiva, dominante e humilhante num desespero de esconder a sua própria insegurança e complexo de inferioridade. Atacar antes que o ataquem.

A vítima por outro lado, também ela mal amada ou nunca amada, sempre incrédula e descrente na felicidade, que não  se sente no direito de viver, que é demais para agarrar, que não merece e não lhe pertence. A dor e mal estar são constantes num comodismo quotidiano.

Assim se convencem que têm que aguentar o sofrimento como uma cruz que carregam, segredado a algumas pessoas para angariar defensores da sua causa de comiseração e queixume, única forma de ter alguma atenção e pena, como um animal ferido que sorve parcas e mesquinhas manifestações de carinho e preocupação dos outros, que estão mais interessados em saber o que se passa do que em denunciar a situação ou mesmo ajudar.

No fundo tanto o agressor como a vítima sofrem do mesmo mal, baixa auto-estima e desamor, um manifesta isso com ódio, o outro com medo e submissão. 
Se estas pessoas se cruzam na vida, a violência continua entre quatro paredes, com umas queixas aqui e ali, até um desfecho algumas vezes macabro.

Estas famílias direcionam toda a sua energia para o desentendimento e ficam assim alheados do resto, não conseguindo proteger os mais vulneráveis desta vivência. 
Os filhos ou vivem e acumulam revolta e ódio generalizados por todos os que se aproximarem deles ao longo da vida, encontrando a melhor oportunidade para exorcizar este ódio nas relações intimas que vão tendo e destruindo, ou conseguem quebrar este ciclo, nunca incólumes de todo mas com a sanidade e clarividência suficientes para mudarem o curso das suas vidas, não voltarem a cometer os erros de que foram vítimas e conseguirem relacionar-se com o mundo de uma forma integrada, de partilha do melhor e esquecimento do pior.

Agressor e vítima só coexistem se ambos derem espaço um ao outro. Sem vitimização da vitima, o agressor dilui-se e perde força.

Gente criada com carinho e dedicação tem meio caminho andado para a felicidade, gente criada com pouco e mau,  não deve desperdiçar muitas oportunidades para iluminar os cantos escuros da alma, que todos temos. 

 

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