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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

10
Ago19

No reino do campismo

Rita Pirolita
Como já perceberam por anteriores encontros literários marcados aqui mesmo, sem hora ou dia, sou ferrenha adepta e praticante de campismo de tenda à medida.  
 
Embora com o avançar da idade esteja seriamente a pensar em comprar uma tenda grande, onde possa andar de pé sem parecer um caracol com reumático ou mesmo em comprar uma autocaravana ou em último caso e quando o esqueleto pedir, um alvéolo num parque de campismo, com uma requintada casa de madeira, com a entrada forrada a oleado, pedaços de mármore, ou tijolos de cimento a fazer canteiros e caminhos de jardim encantado com cogumelos e gnomos em barro, em 2 metros quadrados de cubículo, que ainda leva com um churrasco de tijolo a um canto e mesa e bancos de cimento para esfoliar joelhos, rabo e pernas, bem no centro. 
Não resta assim espaço para circular, ou estás sentado e comes ou desandas para o bar ou para a praia que dentro do pré-fabricado, se não houver ar condicionado, morres abafado que nem peixe fora de água.
 
O campismo de tenda, é considerado na sua maioria a versão pobre de férias, de quem não tem dinheiro para ter casa à beira-mar ou usufruir do pretensioso turismo rural, com pequeno almoço e arzinho condicionado. 
No meu caso, não tenho casa no Alentejo mas gosto de barraquice e até já gostei mais, não fossem as costas ficarem todas encarquilhadas e já não conseguir dormir em colchões de 3 mm, porque já não consigo apanhar bebedeiras de festival que me anestesiem a dor. 
 
O moço já começou a levar cadeiras de praia, porque já lhe custa comer sentado à japonês, num simples oleado estendido no chão, cheio de formigas, resina e caruma. 
Começou também a levar redes mosquiteiras, porque está cada vez mais convencido que o seu sangue atrai mais picadas que o meu, já lhe disse que passe a vegetariano mas ele está-se a borrifar e continua a dar-lhe nas feveras, no piano e no belo chouriço assado. 
 
Cada vez menos me preocupo com as pendurezas na hora de me ver livre da lycra, na minha praia de nudismo preferida, que não vou dizer qual, para não me incomodarem com pedidos de autógrafos e fotos indiscretas. Este corpo não vai para melhor mas também não está mal quase nos 50. 

Casqueiro alentejano que embaça e o vinho para empurrar já não pode ser aquele de pacote para temperar. 
Nunca deixarei de gostar de montar a barraca, o meu corpo é que já não acompanha muito esses gostos libertinos e esgrouviados. 
 
Chegou o momento de começar a pensar na casa com rodas, com WC e duche e uma cama virada para o mundo com vista para as estrelas!
 
Este será o passo que antecede a reforma no alvéolo, ao bom estilo retornado, que faz de cada Verão um encontro da grande família, que são os veraneantes deste tipo de casota. 

Irei passar a primeira semana da primavera, a lavar as cortinas com folhos, super inflamáveis, que se encheram de humidade durante o Inverno, a ajeitar as flores de plástico nos canteiros da entrada, mijadas pelos gatos que se reproduzem aos magotes sempre que há abrigo e comida. 
O moço passará as tardes no churrasco, já que um dos seus prazeres é comer e mexer no fogo. 
Eu passarei algum tempo no meu pequeno-enorme jardim virado ao pôr-do-sol, a limpar a relva de plástico de baixa manutenção e a dar banho ao cão. 
Vamos arrastando os ossos até ao bar ou à piscina, porque a praia já cansa muito...
Assim passarão os dias, num qualquer parque da costa alentejana.
03
Mai19

Testemunhas de Jeová

Rita Pirolita
Já fui interpelada na rua por pares de velhotas com a revista 'Despertai!' na mão.
Eu nunca entregaria uma revista com este nome logo pela manhã ou à tarde na altura da sesta, com medo de agressões!
Já fui abordada por miúdos novos que também andam aos pares, falam numa língua de outra dimensão, em nome da Igreja Adventista do Sétimo Dia. 
Nunca convidam para tomar uma jola na esplanada da tasca, que por mim não tem que ser forçosamente no sétimo dia, aliás para esse tipo de coisas não há dia nem hora marcada.
Estes mancebos são todos loiros, de olhos azuis e da mesma altura! Serão todos filhos da mesma mãe? 
Se forem, não devem ter possibilidades económicas para renovar o guarda-roupa e os fatos passam de geração em geração!
As velhotas lá por andarem aos pares não pertencem ao mesmo grupo dos mancebos mas que andam todos a falar do mesmo, disso não tenho dúvidas!
Por serem tantas só me leva a crer que a partir do desaparecimento do Jeová, que já foi há muito tempo, foram todas compradas, não estiveram lá, não viram nada, têm que inventar tudo e a K7 nunca falha!
Nunca abro a porta às Testemunhas mas certo dia descuidei-me e abri a porta de casa atarantada, num acto desesperado de fazer tudo ao mesmo tempo, agarrar e acalmar a cadela que não parava de ladrar com o som da campainha e assim evitar que fugisse porta fora. O meu pet estava apenas a cumprir a sua missão e muito bem!
Deparei com um casal, também em missão mas não sabiam ladrar, faziam-se acompanhar de uma miúda para aí de 10 anos, possivelmente já em formação para futura espalhadora da palavra ou como estratégia de marketing. 
Isto não é exploração de trabalho infantil? 
Nesta igreja deve ser tudo abençoado em nome do tal. 
Com muito esforço, este casal de ar simpático e submisso, tentou falar da sua missão porta a porta...a espalhar não sei o quê...e que vinha aí o dia do Julgamento...
Não dei muita atenção porque não tinha problemas com a justiça, nem tinha deixado nenhuma multa por pagar. 
Amigos do Jeová, esse dia vai demorar colhões de anos a acontecer, com o enorme rol de testemunhas que têm para ouvir até ao dia do Apocalipse! 
Descansem, não são os únicos, os tribunais em Portugal sofrem do mesmo problema!
Aceitei a revista e fechei a porta, depois virei-me para a peluda e tive uma conversa em canês muito séria, 'tinha passado o tempo todo a ladrar e não deixou ouvir o que aquele simpático casal tinha para dizer.' Será que o raio da bicha viu o Diabo??? 
Acredito que os cães vêm coisas que nós não vemos, nem que estejam mesmo à frente dos nossos olhos e sejam do tamanho de um palácio…nós somos os burros a olhar.
A revista usei para forrar o caixote do lixo!
Também podiam oferecer mais serviços, tal como entrega expresso de marmitas ao domicilio com opções vegetarianas...
Realmente Portugal é um bom exemplo de respeito pela religião, costumes e culturas diferentes.
Os chineses não pagam casa porque comem e dormem nas lojas e para poupar mais ainda não se deixam morrer, pelo menos em território português.
Nunca ninguém no meio da rua se atirou à testa de uma monhé  para raspar a pinta e ver se tinha prémio?!
Por acaso adoro comida Indiana, é muito condimentada e tem imensas opções vegetarianas, o que me levou a crer que a maioria dos indianos não comiam carne. 
Certo dia essa crença foi posta em causa, precisamente quando fui almoçar com um amigo indiano que já vivia há muitos anos em Portugal. 
Contou-me que já tinha sido dono de um restaurante no Porto, o que não deixava dúvidas pela sua compleição física dilatada. Nesse restaurante além de outras coisas também servia carne e quando a família vinha da Índia visitá-lo tinha que os fazer acreditar que carne por aqueles lados, nem vê-la nem cheirá-la
Saímos do restaurante até as cuecas cheiravam a caril, o meu amigo apenas tinha no papo uma sopinha, não sei se foi para me impressionar...mas não se devem julgar as pessoas apenas pelo aspecto!
Buda também era vegetariano e olha o corpinho que deitava, se calhar comia da gaveta como os algarvios!
 

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