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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Jul20

Fungagá da bicharada!

Rita Pirolita
 
E pronto os animaizinhos de estimação lá vão puder ir a restaurantes designados para o devido efeito, com os seus donos extremosos e pimpões! Ou nem tanto assim?...
Não acredito que existam restaurantes a aderir, correndo o risco, se isto está tão mau como dizem, de ainda perderem mais clientela. 
Até os próprios visados, sem pôr em causa a estima que têm pelos seus companheiros de estimação, dizem que em casa é um conto e no restaurante o transtorno pode ser enorme, não só relativo a pessoas, bem como à interacção animal. 
Se levar o papagaio, o gato da mesa ao lado vai achar graça? Muita de certeza. 
Se levar a cadela com cio, o cão da mesa ao lado vai achar tanta graça que lhe salta para a espinha à frente de todos e arfa durante meia hora, debaixo de olhares repreensivos pela falta de controlo sobre os instintos patudos? 
Uma piton atira-se ao piriquito, ao hamster ou ao coelho anão? Com muita gana de certeza! 
Não estaremos a obrigar os animais a satisfazer e a andar a reboque dos nossos caprichos egoístas e prazeres que queremos sejam deles também, reflectir as nossas frustrações e desejos em seres vivos que também têm personalidade e sentimentos mas vêem o mundo de uma forma tão diferente da nossa? Isto não será também falta de respeito? Se não nos podemos pôr no lugar deles pelo menos que não lhes retiremos liberdade de serem o que são, animais de estimação, companhia e carinho! 
Não os deveriamos humanizar, isso é ultrajar a sua condição animal! 
É que um cão por exemplo, não tem noção do prazer que dá ir a um restaurante, sitio de e criado para humanos, talvez seja mais feliz a correr num parque ou na praia, a cheirar o cu aos outros cães!?
Já existe um restaurante em Portugal, que eu tenha conhecimento, se calhar existem mais e ainda bem, onde pode deixar o seu animal de estimação em segurança num espaço exterior.
Não seria um exemplo a seguir? Não sendo a solução a usar por hábito mas esporadicamente por necessidade, só mesmo em caso de não ter ninguém com quem deixar os animais?
Não era melhor preocuparem-se mais com a higiene na preparação das refeições e não introduzir mais factores que tronam mais difícil a manutenção da mesma? 
Misturar comida com animais que não distinguem locais para fazer as necessidades, coçar-se ou largar pêlo e penas, difíceis por isso de controlar, dando aso a alergias, manifestações de fobias e incómodos de torcer nariz, assemelha-se mais a um Fungagá da Bicharada!
Ah afinal tem que ir tudo à trela ou só são permitidos animais de trela? Estarão incluídos furões, crocodilos, porcos vietnamitas, cabras anãs?...
Se os donos não são todos civilizados, como teremos a garantia de os animais serem educados como deve ser? 
Além de que, pelo pouco que sei, as reacções imprevistas de personalidade e comportamento verificam-se em todos os seres vivos!?... 
Não era melhor preocuparem-se com os casos de roubo, corrupção, mentira e desgoverno que grassa no país? 
Com o caso das adopções ilegais da IURD? 
Com os casos de pedofilia na Igreja e fora dela?
Com os direitos e defesa dos idosos e criminalização dos maus tratos e abandono?
Com os direitos dos animais?
Acabarem com as touradas e tortura generalizada de animais na indústria alimentar?
Com o tráfico humano, a violência, a guerra, a fome, as alterações climáticas, a falta de água, a destruição das florestas, a poluição?...Somos uns selvagens que nem de nós sabemos cuidar, quanto mais ter ou legislar animais de estimação.
Como querem que algum Deus que existisse nos levasse em conta e tivesse respeito por nós?! Mas que a Arca de Noé foi a primeira ideia de startup de um restaurante que aceita animais, aí isso foi!  

14
Jul20

Tudo igual

Rita Pirolita
Se me fizerem a mais que gasta pergunta, onde estavas no 25 de Abril de 74? 

Eu respondo que apesar de um par de anos por essa altura me lembro da minha mãe feita barata tonta a arrepiar sapatos no soalho de tacos grossos, alguns levantados, rádio ligado a medo e logo desligado a seguir, vezes sem conta por receio que a revolta entrasse à boleia das ondas hertzianas. O meu pai agarrado à nicotina a ressacar por falta de SGFiltro, a pensar ir a Cacilhas comprar tabaco por que tudo tinha fechado e Cacilhas era o buraco mais sujo que garantidamente estaria aberto mesmo em dia de revoluções irrepetíveis.

Eu devia andar por ali a cirandar e de vez em quando lá a minha mãe me agarrava que não sabendo o que pensar de tal situação muito menos saberia o que fazer com mais uma à sua responsabilidade, ainda sem idade para entender a revolução iria ser sua filha forçada, parida no Estado Novo e abandonada aos que destruiam, não comiam nem deixavam comer, fugidos os ricos voltaram depois da Reforma Agrária para pegar no poder que deixaram em suspenso.

De uma pobreza extrema como ervas daninhas cresciam num jardim inculto crianças ranhosas, agora obrigadas a ir à escola ou literadas à distância de uma inovadora tele-escola!

De divórcios em barda ficou a capital cheia, mini-saias, cabelos oxigenados e fumadoras, licenças de isqueiro para o catano e soutiens para o galheiro. 

Estagnação e miséria continuaram no interior e zonas rurais ali mesmo aos pés da cidade, as viúvas continuariam de negro como as ciganas, até ao fim da vida, as sopeiras sofreram empurrão para casar e se arrumarem com o mais composto e de posses que aparecesse.

Comunistas convictos que viviam sem televisão ou carro a reboque dos comunistas mandatários e capitalistas, a AD e a APU conviviam nas paredes de qualquer bairro, os cartazes dos vários partidos, demais, acumulavam-se em camadas de cola-ranho a pincel, em luta que contínua do povo que jamais será vencido, lado a lado com anúncios de touradas.

Idas a Fátima, por mais sacrifício que se fizesse tirar pão da boca para dar aos santos de pedestal e ao cura ainda respeitado, violador de todas as regras de uma vida com parcimónia teatral, abuso descarado nos prazeres da comezaina e beberrice e mais escondido o salivar por carnes fêmeas e bezerras!

Todos a trabalhar e a reclamar para ganharem tanto como o patrão, greves e sindicatos, cooperativas desfalcadas, políticos oportunistas. 

Que todos tenham direito a pão, saúde e ensino, o trabalho dignifica, não aos escravos do campo que nos dão a comida, cursados em classe média começaram a ter e saber demais, nem todos podem ser ricos, é melhor que sejam mais os pobres, amofinados e controlados, sem casa grande de ostentar, enfiados e arrumados em drogas e quezílias. 

O progresso travado traz libertinagem, falsa liberdade e servilismo.

Deixamos sempre passar tempo demais para nos esquecermos que quase tudo está igual.
02
Mai19

Samouco

Rita Pirolita
Com o pretexto de almoçarada na zona ribeirinha, ali para os lados do Samouco, restou a inclinação para fazer asneira da grossa, dificuldade em dar com os sítios, em acertar com um local de jeito, nem que fosse para tomar um café e dificuldade novamente em sair dos mesmos sítios, que depois de revistos me deixaram...

Um amargo de boca, um cheiro distinto por zonas, a porco, vaca, cavalo e lixo que não se podia, poluição que baste de Famel Zundapp, cartazes de tourada a cair de tanta cola sobreposta, desgraça, abandono e desleixo, prédios inacabados da crise, gente velha a atravessar estradas a passo de caracol, lojas fechadas, casas caídas, desordem continuada na construção, entremeada por bairros sociais, os mais organizados e habitados, ruas cortadas, armazéns abandonados, uma praça de touros digna da mais perigosa fronteira mexicana, um terminal de barcos onde nem Judas perderia as botas!

Estes locais quase de uma só rua, calmos e saloios, depressa se transformaram num fim de mundo poeirento, sem gosto, apagado e sem carisma.

Enfim, naquela manhã nada profícua e muito assaloiada, vi coisas que cheguem para mais um ano de vistas lavadas noutros sítios.

Fiquei triste por esta gente abandonada e definhenta por arrabaldes e baldios.

Cheguei à conclusão que há dias que mais vale não sair de casa e não há melhor lugar para almoçar que no conforto do nosso doce lar!... 

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