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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

15
Jul20

A vida humana selvagem

Rita Pirolita
A evolução humana é mais vergonhosa que encantadora e a tentativa de regresso às origens é apesar de tudo desastrosa e destrambelhada, os parques de campismo são o laboratório perfeito para comprovar teses e constatar factos, a muito custo credíveis mas que no entanto nos poupam da exigente necessidade de recorrer a experiências trabalhosas ou bombásticas, basta estar e olhar e todo um mundo de primatas desfila em competições de estupidez, má educação, barulho à capela e lixo até ao céu.

Para começar parece que todos os campistas jovens fugiram de casa dos pais ou se forem mais velhos mais se assemelham a um bando de divorciados que não quiseram trazer nem um garfo a menos na divisão dos haveres.

Trazem carros cheios até mais não caber, malas de viagem com rodinhas de um tamanho que muitos agradeciam ter para fugir de um qualquer ditador, da pobreza ou da miséria e perseguição. 

Querem dormir ao ar livre com o colchão de casa, a almofada e respectiva fronha também fazem parte do pacote e até dá jeito na praia, querem fazer comida no fogo mas já não caçam nem pescam e não sobrevivem sem um assador em tijolo ou cimento, acendalhas, carvão, fósforos ou isqueiro, abanador, uma grelha para o peixe e outra para a carne, para não misturar sabores, frigoríficos e arcas, talheres e pratos de casa, detergente e esfregão da loiça, aspirador portátil para tenda e carro...e para mim já tudo tinha perdido a piada e mais valia ficar em casa!

Todos se esquecem que mesmo uma grande tenda não tem paredes duplas, depois de uma boa discussão quase a puxar pancada segue-se a sinfonia do ressono e do peido. 

Eles fazem a barba como se fossem trabalhar, põem gel, perfume e desodorizante, elas vão de depilação feita que garante virilhas, sovaco e buço em ardência no primeiro banho de mar, unhas de gel feitas há 1 dia atrás para durarem mais em tempo de lazer, se não partirem logo uma ou duas no início das férias, raizes pintadas ou descoloradas na tentativa de passarem por loiras ou ruivas naturais negligé, agora está muito na moda o rosa, azul ou cinza, tudo tons naturais de nascença! Levam maquilhagem, secadores e placas de alisar a trunfa, lavam roupa à mão mas fica uma bela merda, mais valia ficarem quietas. 

Todos precisam de gente por perto para existir, afirmam-se pelo incómodo que causam, exibem os chatos drones que qualquer pé rapado agora tem, passeiam o bikini mais reduzido, o corpo mais jovem e fit, se fossem todos largados num ermo não tinham razão de ser na vida, não faziam tanto estardalhaço nem andavam com tanta cagança. 

Enquanto eles cagam no poliban, elas deixam pensos higiénicos pelo chão com a cabidela virada para cima e quando a fila para o duche dos primatas machos iguala a das fêmeas, não quer dizer que o mundo aceitou de vez a igualdade sexual mas sim que está cada vez mais à deriva. 

Dependem de sopas instantâneas para não gastar dinheiro mas depois vão comprar sacos de gelo para pôr na "coola" para refrescar a cerveja e os iogurtes da criançada. 

Apanham bebedeiras e fazem barulho ao despique, ouvem-se urros de guerra, antes fossem vozes de burro ao céu, parecem animais enjaulados há decadas com ordem de soltura, não sabem o que fazer a tanta libertinagem condicionada por cabeças que não dão mais.  

Vomitam à entrada das próprias tendas e deixam ficar a fermentar até ao fim da estadia, a única erva que conhecem é a que fumam porque a outra que pisam é primitiva demais e por isso encarregam-se de atapetar tudo com copos de plástico de uma vulgar marca de cerveja. 

Deixam um rasto de destruição e lixo e quando chegam a casa não se lembram do que não souberam gozar e por isso todos os anos há mais do mesmo, numa constante ausência de evolução que talvez quiçá represente regressão!
10
Ago19

No reino do campismo

Rita Pirolita
Como já perceberam por anteriores encontros literários marcados aqui mesmo, sem hora ou dia, sou ferrenha adepta e praticante de campismo de tenda à medida.  
 
Embora com o avançar da idade esteja seriamente a pensar em comprar uma tenda grande, onde possa andar de pé sem parecer um caracol com reumático ou mesmo em comprar uma autocaravana ou em último caso e quando o esqueleto pedir, um alvéolo num parque de campismo, com uma requintada casa de madeira, com a entrada forrada a oleado, pedaços de mármore, ou tijolos de cimento a fazer canteiros e caminhos de jardim encantado com cogumelos e gnomos em barro, em 2 metros quadrados de cubículo, que ainda leva com um churrasco de tijolo a um canto e mesa e bancos de cimento para esfoliar joelhos, rabo e pernas, bem no centro. 
Não resta assim espaço para circular, ou estás sentado e comes ou desandas para o bar ou para a praia que dentro do pré-fabricado, se não houver ar condicionado, morres abafado que nem peixe fora de água.
 
O campismo de tenda, é considerado na sua maioria a versão pobre de férias, de quem não tem dinheiro para ter casa à beira-mar ou usufruir do pretensioso turismo rural, com pequeno almoço e arzinho condicionado. 
No meu caso, não tenho casa no Alentejo mas gosto de barraquice e até já gostei mais, não fossem as costas ficarem todas encarquilhadas e já não conseguir dormir em colchões de 3 mm, porque já não consigo apanhar bebedeiras de festival que me anestesiem a dor. 
 
O moço já começou a levar cadeiras de praia, porque já lhe custa comer sentado à japonês, num simples oleado estendido no chão, cheio de formigas, resina e caruma. 
Começou também a levar redes mosquiteiras, porque está cada vez mais convencido que o seu sangue atrai mais picadas que o meu, já lhe disse que passe a vegetariano mas ele está-se a borrifar e continua a dar-lhe nas feveras, no piano e no belo chouriço assado. 
 
Cada vez menos me preocupo com as pendurezas na hora de me ver livre da lycra, na minha praia de nudismo preferida, que não vou dizer qual, para não me incomodarem com pedidos de autógrafos e fotos indiscretas. Este corpo não vai para melhor mas também não está mal quase nos 50. 

Casqueiro alentejano que embaça e o vinho para empurrar já não pode ser aquele de pacote para temperar. 
Nunca deixarei de gostar de montar a barraca, o meu corpo é que já não acompanha muito esses gostos libertinos e esgrouviados. 
 
Chegou o momento de começar a pensar na casa com rodas, com WC e duche e uma cama virada para o mundo com vista para as estrelas!
 
Este será o passo que antecede a reforma no alvéolo, ao bom estilo retornado, que faz de cada Verão um encontro da grande família, que são os veraneantes deste tipo de casota. 

Irei passar a primeira semana da primavera, a lavar as cortinas com folhos, super inflamáveis, que se encheram de humidade durante o Inverno, a ajeitar as flores de plástico nos canteiros da entrada, mijadas pelos gatos que se reproduzem aos magotes sempre que há abrigo e comida. 
O moço passará as tardes no churrasco, já que um dos seus prazeres é comer e mexer no fogo. 
Eu passarei algum tempo no meu pequeno-enorme jardim virado ao pôr-do-sol, a limpar a relva de plástico de baixa manutenção e a dar banho ao cão. 
Vamos arrastando os ossos até ao bar ou à piscina, porque a praia já cansa muito...
Assim passarão os dias, num qualquer parque da costa alentejana.
02
Mai19

Campistas

Rita Pirolita
Os campistas são bizarros, normais ou anormais, previsíveis, excitados, prazerosos, descontraídos ou contraídos e vão sendo outras coisas mais...  
Os 'tios' que antes de jantar aparecem de banhinho tomado, com ar de donos do parque de campismo, com a madame a reboque de braço enganchado, para o moscatel ou whisky com muito gelo. 
Homens de porte de titans, agarram ao colo com ligeireza lulus franceses de 2 quilos, de orelhas borboleta, olhos esbugalhados e ladrar irritante. 
Avós babados ou pais chiques e betos, fazem-se acompanhar de cão de marca, de língua azul, com 50 camadas de pêlo, preparado para dormir no congelador. Se a raça sofre muito com o calor, porque não vivemos na Sibéria e se está preparada para puxar trenós mas não é muito amistosa com crianças, pessoas em geral e apartamentos ou varandas são autenticas prisões...nada disso interessa, o que interessa é que o preço do cão mostra a riqueza de bolso e a pobreza de espírito.
Tratam os filhos por você Martim 'práqui' ou você Matilde 'práli'.
 Gente da barraca que nunca conseguirá tirar a barraquice de dentro de si...estão no sítio certo para armar barraca. 
Os que abraçam o balcão do bar, debruçam o peito e encostam a barriga com delicadeza, como quem vai tomar balanço e saltar à barra, mas afinal só querem fazer figura de engraçadinhos, tudo isto para pedirem 2 cafés porque já jantaram na caravana, ela de pochete debaixo do braço, cabelo curto de baixa manutenção à camafeu, em pescoço de galinha marreca, ele de calção, sapato de vela e barriga descaida de grávida em fim de tempo. Depois do café levam as chávenas vazias até ao balcão, como a mostrar aos outros o bom comportamento a imitar, pagam o serviço mas até dão uma mãozinha e deixam a mesa limpa para o próximo casal maravilha de jarretas. 
Os que conhecem todos e mais alguns, os que conhecem alguns de muitos e os que não conhecem ninguém, nem sabem do que falo porque não fazem campismo, como os festivaleiros radicais de trazer por casa, que dizem que  aparecem no parque de tenda em riste mas depois não assumem a dependência do comodismo e não põem lá os cotos. 
Os que lavam roupa e estendem sem pudor as peças intimas, os que guardam tudo e depois logo lavam em casa. Os que lavam louça de alguidar, com detergente e esfregão e os que comem enlatados e sandes. 
Os que com mais de 50 anos ainda se aventuram a conhecer Portugal em bicicleta e pedalam debaixo da canícula pós almoço. 
Aqueles que já passam dos 40, ainda não tocaram os 50 e insistem em tendas à medida, onde se entra quase em voo e de onde se sai a rebolar como baleia encalhada em águas rasas...quanto mais pensar em pedalar, dar cabo dos glúteos, gémeos, nalgas e outros apêndices afins. 
Mulheres de meia idade que se passeiam desnudadas em praias naturistas como se tivessem 16 anos, a engatar surfistas de abdominais definidos, ombros largos, olhos verdes e cabelo queimado, a curtir música techno e a fumar ganzas como se não houvesse amanhã.
Sarrabecos que se vestem à noite como se tivessem chegado de uma importante partida de golfe, com a sua dama loira de voz grossa que fuma Marlboro, não Ventil, tabaco de pobre, pequeno e mirrado, que não fica elegante entre dedos o tempo suficiente para espalhar dondoquice.
Os que vêm o jogo da bola de fim-de-semana e barafustam como se o caso fosse grave e talvez situação de fim do mundo, com bitaites na fila da frente, sempre a virar a cabeça para trás, à procura de aprovação em adeptos desconhecidos.
Os dias acabam em tendas pequenas ou grandes, bungalows, caravanas, carrinhas pão-de-forma, abrigos, tipis ou ao relento, em noites quentes e bem regadas com cerveja ou bebidas fluorescentes de discoteca da aldeia! 
  

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