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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

01
Fev20

Não percebem?...

Rita Pirolita
Não percebem que fui croma de escola, sempre posta de parte, a quem ninguém ligava por ter bons resultados sem grande esforço, apresentar trabalhos e falar de coisas que só os professores percebiam e me deitavam o olhar de pergunta telepática: 'Que estás aqui a fazer, num ensino redutor até para professores quanto mais para alunos, que não responde a quase nada do que perguntas, que te obriga a memorizar mentiras, que não satisfaz nem estimula a tua curiosidade, que te tenta amarrar o sonho a profundezas tristes e pesadas??? Que fazemos contigo? Não temos onde te pôr e para casa não te podemos mandar!'
Que não tinha ninguém com quem falar sobre Nietzsche, Carl Sagan, Salvador Dali, António Aleixo, Jorge de Sena, Haldous Huxley?...  
Não percebem que há muito desisti de procurar sabedoria  nos mais velhos e experientes? Só os maus exemplos de vida alheia me abriram os olhos.
Hoje sou o resultado de ter contrariado tudo o que vi e não gostei.
Não percebem que as minhas tentativas de diálogo são uma forma de evoluir e sobreviver neste marasmo de alienação, falta de ideias e tacanha argumentação?
Não percebem que fico profundamente triste quando calo alguém, não quero ganhar batalhas, quero-me tornar maior, se não for à vossa custa, lá terá que ser sozinha...
Não percebem que para chegar à conclusão que nada no mundo faz sentido, não precisava de ninguém nem ninguém de mim?...
02
Dez19

Vitima nunca

Rita Pirolita

A violência doméstica continua na ordem do dia. Vou falar dela pela perspectiva de quem já viu e viveu alguma coisa e está alerta para não repetir erros de outros ou deixar prolongar situações pouco agradáveis por comodismo.

Ao mesmo tempo que se alerta para a importância da queixa, o não sentir medo ou vergonha de expor a situação, por outro lado a sociedade empurra no sentido contrário, silenciando com criticas e rótulos quem sofre este tipo de violência tacanha, encurralando a vítima num beco de silêncio e solidão.

O agressor será sempre alguém sem escrúpulos que não tendo respeito por si também não sabe respeitar a integridade e espaço dos outros e cuja única forma de amar que conhece é doentia, agressiva, dominante e humilhante num desespero de esconder a sua própria insegurança e complexo de inferioridade. Atacar antes que o ataquem.

A vítima por outro lado, também ela mal amada ou nunca amada, sempre incrédula e descrente na felicidade, que não  se sente no direito de viver, que é demais para agarrar, que não merece e não lhe pertence. A dor e mal estar são constantes num comodismo quotidiano.

Assim se convencem que têm que aguentar o sofrimento como uma cruz que carregam, segredado a algumas pessoas para angariar defensores da sua causa de comiseração e queixume, única forma de ter alguma atenção e pena, como um animal ferido que sorve parcas e mesquinhas manifestações de carinho e preocupação dos outros, que estão mais interessados em saber o que se passa do que em denunciar a situação ou mesmo ajudar.

No fundo tanto o agressor como a vítima sofrem do mesmo mal, baixa auto-estima e desamor, um manifesta isso com ódio, o outro com medo e submissão. 
Se estas pessoas se cruzam na vida, a violência continua entre quatro paredes, com umas queixas aqui e ali, até um desfecho algumas vezes macabro.

Estas famílias direcionam toda a sua energia para o desentendimento e ficam assim alheados do resto, não conseguindo proteger os mais vulneráveis desta vivência. 
Os filhos ou vivem e acumulam revolta e ódio generalizados por todos os que se aproximarem deles ao longo da vida, encontrando a melhor oportunidade para exorcizar este ódio nas relações intimas que vão tendo e destruindo, ou conseguem quebrar este ciclo, nunca incólumes de todo mas com a sanidade e clarividência suficientes para mudarem o curso das suas vidas, não voltarem a cometer os erros de que foram vítimas e conseguirem relacionar-se com o mundo de uma forma integrada, de partilha do melhor e esquecimento do pior.

Agressor e vítima só coexistem se ambos derem espaço um ao outro. Sem vitimização da vitima, o agressor dilui-se e perde força.

Gente criada com carinho e dedicação tem meio caminho andado para a felicidade, gente criada com pouco e mau,  não deve desperdiçar muitas oportunidades para iluminar os cantos escuros da alma, que todos temos. 

 

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