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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

15
Jul20

All that jazz

Rita Pirolita
Fui a um festival de jazz, há que tempos não me rendia ao ritual de sair de casa para ir a um espectáculo destes. 
O género continua bom e recomenda-se, o público mostra-se apenas com pequenas alterações. 
Estava cheio, para ai metade com bilhetes oferecidos, não interessa, estavam lá e não era para ouvir Xutos ou U2, antes isso.
Um átrio de auditório cheio de gente magrinha que fuma ganzas ao fim da tarde, depois de jantar nos dias úteis e põe em dia o atraso aos fins-de-semana. Homens quarentões de cabelo branco, entre o estilo surfista de ondas baixas e eruditos de vinis, quarentonas entre o estilo freak comunista e nerd direitista. 
Lá entrei de forma o mais discreta que me foi possível, devido à minha altura não consigo passar despercebida, fico assim ridícula como o elefante atrás do poste, não me apetece andar a cumprimentar gente que não vejo faz tempo, para me darem más notícias já basta o que se passa no mundo, casem, tenham filhos, divorciem-se, sejam felizes mas não me chateiem com informação desnecessária das vossas normais vidas. Já sei, já sei que sou muito esquisitinha, mas porra já posso, conquistei idade para isso!
Entrada ordeira na boca do auditório, como pede um show deste gabarito, gente calma e intelectual da treta!
Sento-me à espera que baixem as luzes e me dêem o que vim ver, antes não me livro de ouvir os comentários de três estarolas que se sentam atrás de mim e da sogrinha, o moço não veio, estava com dor de cabeça. As graçolas dos cromos rebentam não em tom muito baixo, "olha o Presidente da Câmara e a Vice, olha o antigo presidente também veio, ele tem todo o direito a estar aqui, foi ele que trouxe o festival ao concelho, o novo não fez nada, mas são parecidos, devem ser família, isto é tudo cunhas e os lugares ali à frente são tudo bilhetes oferecidos, ninguém comprou nada." 
Eu não paguei bilhete mas estes tontos atrás de mim também deram espectáculo gratuito! 
Entram os artistas no seu conhecido estilo simples, de blusas sem gola e calça de ganga, tudo descontraído como a música sem pauta, improvisada que segue ao sabor do ambiente. 
Passado um pouco fecho os olhos e num momento mais melódico e compassado até acabo por adormecer, sabem que o jazz entranha-se, é tão orgânico que não incomoda nem invade, não magoa o ouvido e entra nas veias, estou eu nesta nuvem melódica quando de repente sou acordada pelo abanar do meu assento qual tremor de terra, a senhora ao meu lado numa de mostrar a excitação de quem aprecia muito jazz, bate a perninha em jeito de síndrome do baterista, olho para ela com insistência, mesmo no escurinho, percebeu que estava a incomodar uma fila inteira e não tive mais abanos até ao fim, não preciso que me embalem faz muito tempo. 
Sinto os instrumentos em cada solo de cada quatro do quarteto. O baterista com toque de samba treslouca-se em dada altura, o pianista tilinta as teclas como copos de cristal a ponto de partirem, o saxofone denuncia o sopro em notas muito baixas e pouco puxadas e por fim o violão, grave, gutural, redondo, quente e acolhedor, my favorite! 
Os músicos fecham os olhos em palco, abanam as cabeças em helicóptero e o baterista contorce-se como se o rabo entrasse em curto-circuito!
Embora aprecie jazz de elevador, estes não foram maus, tiveram um entusiasmo ordeiro, foram aplaudidos q.b. no final, sairam de cena e voltaram a entrar para tocar mais uma em forma de oferta mecânica. 
A sogrinha cheia de calor na confusão da saída e antes de se levantar para debanda caseira, aproveitou para tirar as mini-meias da sabrina e em gesto discreto e sorriso denunciador enfiou com elas dentro da mala. 
Hoje de manhã fomos ao café matinal e para pagar, em plena esplanada, saiu um par de meias da noite anterior! 
All that jazz, catchim pum!

 

17
Dez19

1000 vezes 'mais boa'!

Rita Pirolita

Num raro dia de caminhada não forçada, assim sou eu, feita de vontades e poucos sacrifícios, ia já eu com meia hora no lombo, quando passa por mim a correr à profissional da coisa, com alto impacto de calcanhares no chão que até a terra estremecia, uma p*ta duma gaja com um corpo daqueles, que quando cheguei a casa, a melhor maneira que encontrei para descrever ao moço a boazuda, foi fazer a comparação, estás a ver a porca em pé da Mónica Lewinsky e a Heidi Klum, a ex mulher daquele cantor que tem uma voz do caraças, tão preto que tem reflexos azulados como os besouros e tem um corpo do outro mundo, já me estou a desviar, bem, esquece a Mónica Lewinsky, esta gaja que passou por mim seria a Heidi Klum, numa versão de jogo de computador tipo Lara Kroft ou seja 1000 vezes melhor e 25 anos mais nova que eu. Nem eu com a idade dela, tinha a ilusão ou a vontade de trabalhar para ter aquelas formas.

Esta miúda era um pouco mais baixa que eu mas com tudo proporcional, desde a altura das pernas, o tamanho dos gémeos e dos glúteos e penso que também das mamas, não a vi de frente mas posso dizer que tinha um cabelo liso e sem volume nenhum, de um loiro surfista até meio das costas, como eu sempre sonhei ter e nunca terei, porque tenho um cabelo seco, crespo e com muito volume, tenho que usar 50 mil óleos para o hidratar e mesmo assim está sempre uma bela merda.
Por acaso se Deus existisse e viesse à terra fazer milagres, ou se encontrasse uma lâmpada com um génio lá dentro que me concedesse um desejo, gastava logo o pedido com um cabelo Pantene, daqueles que nem é oleoso nem seco, brilhante que até fere as vistas, tão liso que acordas sempre penteada e quando tomas banho não precisas de escovas lólóló, nem ferros mimimi, nem sequer um simples secador, ou seja, estás sempre impecável e nem te lembras que tens o cabelo mais invejado das proximidades e arredores.

Vejamos, voltando à vaca fria que passou por mim, nem um milímetro de carne a tremer na sua corrida estrondosa, curvas todas no sítio e qb para uma mulher, sem parecer a azeitada da Ana Malhoa.

Esta miúda a correr desta maneira, daqui a um ano está com os joelhos feitos num oito, tem que ser operada, ficar imobilizada e não poder treinar durante muito tempo e vai engordar que nem uma porca ou daqui a 2 ou 3 anos tem o primeiro filho e fica que nem um barril desdentado ou ainda com a proteína que toma f*de o fígado, rins e coração e fica arrumada! 
Das duas três ou desejo que lhe aconteça tudo isto ou desejo que seja muito feliz, porque é uma criatura que vai envelhecer como todas as outras mas talvez melhor e mais tarde.

Se o Universo enviou este ser para se cruzar comigo e fazer pirraça, para me mergulhar numa depressão profunda ou pelo contrário para me incentivar a ser cada dia uma gaja 'mais melhor boa' mas que nem em sonhos ficarei por lá perto, porque já não tenho idade nem tempo de vida para tal, não resultou, porque assim que cheguei a casa enfiei os cornos no congelador e devorei um corneto sem bolacha mole que eu odeio e com bolacha crocante como eu adoro.

Esta loira curvilínea pode morrer amanhã, coisa que eu gostava que não acontecesse já, apenas porque quero que o moço tenha a oportunidade de a ver, nas raras vezes que vai caminhar comigo, só para não me chamar de mentirosa, depois disso pode morrer, ela e outras que tais.

Na sua ainda curta vida, este ser existiu melhor e lavou mais vistas que 20 mulheres em 100 anos. 

Mas se há coisa que me mete mais raiva que isto, é ver alguém a conduzir o carro que eu gostava de ter.

 

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