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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

24
Out20

Outubro-Outono

Rita Pirolita
O mês de Outubro nos últimos anos tem-nos brindado com um Verão prolongado!
Com Outonos retardados não pensamos tanto no Natal, as castanhas assadas não sabem tão bem, custa decidir acender a lareira sem frio suficiente, as mantas ainda alojam naftalina, o musgo e os cogumelos não se deixam ver, arroz doce e aletria, raia, anho ou cabrito no forno, arroz de barro e batatas à consoada, filhoses gordurosas e Santa Claus seboso, ai que belo entupimento do miocárdio! 
Não fosse o mês do meu aniversário e tivesse eu signo de mandona-déspota, virava o mundo do avesso, punha tudo a viver nos trópicos quentes e húmidos, sem trabalhar nem furacões, os glaciares seriam intocáveis e longe da vista,  o frio nunca tocaria osso ou faria pele de galinha, só nos gorgumilos com uma piña colada, os churrascos de rua seriam imperativos, o surf e a praia, casamento todo o ano!  
30
Mai19

Vida bucólica

Rita Pirolita
 
A moda rastafari está muito disseminada pelos festivais e costa vicentina, local calmo de planícies e praias desertas onde apetece praticar o amor e não a guerra, ouvir reggae o dia todo, enrolar ganzas de meia em meia hora e fumá-las de quinze em quinze minutos.

Adultos jovens, vestem roupas largas e confortáveis de cores térreas e motivos da natureza, por mais que digam que lavam o cabelo e até acredito que o façam, não se penteiam, por isso sempre um grão de quinoa do almoço que resolve aninhar-se nos dreadlocks, look mais natural que este não nas redondezas.

Andam sempre em festivais, têm casa à beira mar, herança dos avós, onde passam a maioria do tempo em contemplação, ócio e tertúlias sobre chamon, não trabalham, não por falta de vontade mas porque todos sabemos que a taxa de desemprego no nosso país é muito elevada e no interior é um horror, campos abandonados e aldeias inteiras desertas!...
Quem paga isto tudo?

Estes meninos, muito crescidos para andarem de skate e a brincar aos pobrezinhos, não vivem de ganza, que até dá bué fome.

Ora bem, a casa para ser de graça alguém a teve que pagar e alguém a continua a manter, mais, quem paga a droga, a comida, o carro, a gasolina, os bilhetes dos festivais, a prancha e o fato de surf, o skate, as pulseiras de missangas, o didgeridoo original vindo da Austrália, os djembés do Brasil, a viola, o vinho, a cerveja, as bolsas e sandálias de couro de quem não come carne ou come às escondidas, mas lhe veste as peles...seus falsos vegans!, o cão de marca, o período que passam como ocupas com nuestros hermanos em Barcelona, a vida de quem clama por liberdade no contacto com a natureza enquando se agarram à ganza, ao vinho e à cerveja que nem lapas???

São os pais e as tias benzocas que vivem lá em Lisboa nas avenidas, que sustentam isto tudo e depois dizem às amigas que têm uns netos preciosos que estão a cuidar da casa de campo da família, fugiram do reboliço da cidade e foram à procura de uma vida mais calma e saudável, abdicaram dos bens materiais e dedicaram-se à permacultura...tudo por um mundo melhor!...A bem dizer, que seja deles e pago pelos outros.
12
Mai19

O Retiro

Rita Pirolita
Rentabilize o seu tempo, não faça nada, faça jejum, limpeza espiritual, durma em cima de tábuas, faça silêncio e ouça a sua alma respirar, tudo isto como se estivesse no conforto da sua casa e pela módica quantia de 500€ o fim-de-semana.   
 
Ainda bem que isto é caro e por isso só dirigido a pessoas que não têm dificuldades em sobreviver, o comum dos mortais com pouco dinheiro, dorme que nem uma pedra ou sofre de insónias, cansaço do trabalho e de aturar filhos, come com um orçamento apertado o que o obriga a uma ginástica mental capaz de atrasar o aparecimento de Alzheimer, acorda sem paciência para as filas de trânsito ou para aturar o patrão, não há tempo nem para invocar Buda ou dizer Namastê pela manhã mas lá vai lutando pelo tempo que encurte até à reforma.
 
Ele há pacotes de yoga+surf, para grávidas, para rir, suspenso, suspenso a beber cerveja, em cima da prancha de paddle, palestras de coaching espiritual, livros de auto-ajuda tão repetitivos e enfadonhos que concluímos que tudo se poderia resumir a um panfleto de uma página ou nem precisava de ter sido escrito. 
Tudo tem níveis de evolução com preços diferentes e quando somos virgens nestas andanças se não tivermos cuidado fazem-nos sentir burros, sobretudo com a pergunta 'o que andamos cá a fazer?' Acham que se andássemos cá a fazer alguma coisa de jeito já não tínhamos encontrado a resposta?...  

Qualquer tentativa de denunciar estas actividades por extursão nunca resultará porque só lá vai quem quer, como os bruxos e demais charlatães - "Traz até mim o teu dinheiro, assim ficas com menos para gastar em coisas que não te trazem felicidade e eu sei dar-lhe melhor destino."
Já todos sabemos o fim infeliz que muitas seitas tiveram e cujos mentores apenas queriam satisfazer os seus desejos mais doentios, numa tentativa de se iludirem e iludirem os seus seguidores de que tudo era em nome do bem e da salvação. 
 
Se isto é tão importante e natural porque não promovem encontros gratuítos, na India não há cá frescura, ninguém pode pagar e os gurus estão na rua a receber a comida que quem passa pode dar, emborcam arroz com caril até ao fim da vida, mantêm-se magros porque comem quando há e o jejum forçado abre portas à clarividência espiritual.
 
Sou muito boa a fazer nada, não passo fome com comida à frente, é uma ofensa para quem não tem o que comer, cada vez falo menos porque aprendi que só traz vantagens e quase sempre me falha a paciência para ouvir gente, durmo que nem um passarinho, respiro muito bem porque desde que nasci fui obrigada a fazê-lo e não desperdiço dinheiro, muito menos em promessas vãs

A felicidade é uma perspectiva e cada um com a sua, não se compra nem se ensina, quando pensas que és feliz...já foste!

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