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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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20
Nov19

Patilhas e Ventoinha

Rita Pirolita
Faço algumas viagens saudosistas ao passado, marcadas por sensações, cheiros e sobretudo por músicas de anúncios e vozes da rádio.

Andou lá por casa um rádio portátil que comia quatro pilhas por semana, já tinha caído ao chão e mantinha-se agregado por fita adesiva de tecido, sobreviveu anos a fio com algum sebo da transpiração entranhado em todas as suas ranhuras, já ouvia dizer, 'não limpes muito que as coisas estragam-se.'

A televisão era ainda a preto e branco, em final diário de emissão presenteava-nos com o hino nacional com a bandeira portuguesa de fundo, qual canção de alvorada, logo de seguida vinha a mira técnica e um piiiiiiiiiiiiii que furava os ouvidos e nos levava a desligar logo a caixa mágica, sempre protegida por um filtro que desconfio fazia mais mal que bem aos olhos, também não havia tele-vendas toda a noite para estragar as vistas, à noite dormia-se.
 
Quanto àdio, lembro-me tão bem do anúncio do Boca Doce que tinha a mesma canção na versão televisiva com avô e neta mas sem dúvida o destaque ia para os reis da investigação, muito melhores que o Sherlock Holmes e eram eles, Patilhas e Ventoinha!
Portas que rangiam, passos apressados, pezinhos de que não se ouviam na rádio, só imaginávamos. 
Não me lembro especificamente de história nenhuma, lembro-me de uma voz masculina vulgar e outra também masculina mas de cana rachada, quase a tocar o tom de palhaço. Não me lembro qual era de quem mas não as esquecerei nunca.

Bonnie & Clyde nunca lá puseram os pés, Patilhas e Ventoinha teriam dado cabo do coiro aos meliantes armados em amantes escaldantes, eram logo escorraçados.
Naquela altura não havia cá poucas vergonhas, "só debaixo do pano" com Ney Matogrosso.
Termino assim esta viagem de memórias, com emissão pela noite dentro do Oceano Pacífico, em voz segredada...
 
 
18
Mai19

Não tiveram culpa

Rita Pirolita



 
Os nossos pais não tinham culpa!...

De nos barrarem com Nivea que não tinha nenhum factor de protecção, era o que havia e aquela camada branca alguma coisa tapava, quanto mais não fosse os poros.
Passávamos o dia inteiro na praia, ainda não sabíamos que a camada de ozono estava esburacada.

Usaram kilos de sulfamidas e pó-de-talco e pararam depois de serem divulgadas as suas propriedades cancerígenas.

Descobri que as bolinhas de mercúrio não se conseguem apanhar, eu queria confirmar que era um metal pesado, sempre que partíamos um termómetro levávamos raspanete porque eram caros como a porra. 

Empanturravam-nos de comida até não podermos mais nem com um grão de arroz, bebé que nascesse com 4 kilos é que era saudável, gordura era formosura e não havia bullying de roupa ou ténis de marca. 
Eramos todos brancos, pretos e ciganos metidos numa escola pública à porrada no recreio ou na rua. Era o salve-se quem puder, não haviam privilegiados nem coitadinhos.

Atascavam-nos de Sugus, Tulicreme, pão e massa, a desafiar a diabetes e concorrer a celíacos do ano, bebíamos leite gordo e comíamos manteiga pura para estimular a figadeira.

Não bebíamos leite achocolatado mas sim chocolate com leite, Milo, Toddy, Ovomaltine ou Suchard Express mais quatro colherinhas de açúcar em cima.


Até muito tarde, só conheci um tipo de queijo, o flamengo, com a típica casca de cera vermelha que tantas vezes comi e nunca caguei velas daquela cor.

Se nos batiam, era porque merecíamos e se nos queixávamos da professora ainda levávamos mais.

Se acne havia, esperávamos que passasse com a idade, a mesma coisa para as botas ortopédicas, os óculos com pala ou aparelhos nos dentes.

Partir cabeças e ossos, levar pontos e esfolar joelhos...Gente com mais de 40 anos que não tenha mazelas e cicatrizes que doem com a mudança de tempo, não foram crianças felizes.  

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