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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

09
Ago20

Pensamentos à solta

Rita Pirolita
 
 
Se Deus existisse ia ter uma enorme dificuldade em explicar que vivemos no mesmo planeta e temos a mesma origem!  
Gostava de acreditar em Deus, OVNIS e promessas.
Vejo o mundo a preto e branco para que a minha alma descanse da falsa cor!
A inocência alimenta o sonho e anula a maldade!
Faz por nunca apresentares os teus mamilos ao teu umbigo!
Humanidade desgraçada que ainda não percebeu que o barco é o mesmo e está a afundar! Acordem!!! 
Estou chocada comigo, porque consigo jantar em frente à TV e ver corpos rebentados, sangue e terror, sem que isso me tire a fome.
Portugal está à espera de ser corrido da UE, podíamos agir com dignidade e sair pelo nosso pé de cabeça levantada!
Descobri conhecidos que muito não via e apenas reconheço por foto, porque o perfil que inventaram nas redes sociais é o oposto daquilo que lhes conheço e as pessoas não mudam, o mais que podem é refinar com a idade! São todos pais babados, dedicados à meditação e a espalhar amor, bondade e ajuda a cãezinhos abandonados, caramba sinto-me a única pessoa reles neste planeta, rodeada de gente imperfeita na vida real, os únicos humanos exemplares estão atrás de um écran.
06
Ago20

Touros e homens de cernelha

Rita Pirolita
 
 

 


Aviso já que quando vou tirar sangue dá-me logo o fanico, só consigo estar deitada a olhar para o tecto!
Deixei de gostar de carne faz mais de 20 anos.
Odeio cenas de sofrimento e agressão, então em animais que não se podem defender ainda pior!...
Os caçadores para exibirem a sua pontaria e pensam eles, grande bravura, continuam a matar animais que nada podem contra uma arma de fogo.
Agem como se ainda vivessem numa sociedade dependente da caça para sobreviver ou talvez com medo de ataques de animais como por exemplo o coelho, que lhes pode ir ao cu em segundos sem darem por nada, o pato esse malandro que ainda não aprendeu a juntar o bico de forma a fazer broches como deve ser e as perdizes, essas matreiras que caminham rastejantes e quando menos se espera atiram-se à bicada aos tomates dos pobres caçadores!
No seguimento da escrita inevitável seria falar de touradas!
De quem é a bravura? Do homem?...Não parece!
Vejamos…
Primeiro pica-se o touro para que entre em arena a espumar, furioso da vida e capaz de levar tudo à frente, depois aparece um gajo vestido de bailarino paneleiro que de cima do seu cavalo espeta bandarilhas no lombo do animal que está lá em baixo, num gesto convictamente cagão.
Numa dança do gato e do rato, sendo que o homem é pior que um rato, o touro se espetasse um corno no cu do homem era o que fazia melhor mas vai-se esvaindo em sangue e fraqueza.
Começa o processo de amaciar a carne, prepará-la para um grupo que entra a seguir ao cavalo, todos em fila pirilau e com os tomates tão apertados que o sangue nem lhes deve chegar ao cérebro, com o uso frequente desta indumentária, de tanto aperto provavelmente terão dificuldade em conceber filhos, não se perde nada!
Atiça-se o animal cansado e anémico mas que resiste que nem um verdadeiro colosso, sem imaginar o seu fim corre na direcção de uns seres tão pequenos que têm que gesticular e grunhir alto para se fazerem notar e numa derradeira cornada tenta mandar tudo para o alho mais velho. Não bastando encornar uns quantos, ainda lhe agarram a cauda num mix de merda e areia para o fazer parar! 
No final temos uma plateia de veias temporais inchadas e sequiosas de mais sangue mas o festim acabou e os seres das calças apertadas deviam ser castigados com choques electricos por terem sido uns cobardolas!
Deste culto fazem parte cavalgaduras elegantes quando novos de gestos taberneiros que são muito cobiçados pelas tias-fêmeas por causa da sua riqueza, herdades herdadas e alguns têm mesmo goela para o fado. 
04
Ago20

Esquecida de mim

Rita Pirolita
Tenho uma curiosidade muito controlada e moderada de saber quem me lê mas muita curiosidade desmedida em saber o que sente quem me lê. 
Se são altos, pobres, de olhos azuis ou ruivos, reformados, novos, de meia-idade...Pouco me importa, a alma não é gorda ou magra mas pode ser cheia, vazia ou preenchida e o coração sem querer será sempre uma bomba de sangue, quente e viscoso! 
Quem me gosta, quem me desgosta e se desilude, como é esse processo de arregalar os olhos em frente a um texto do meu blog no écran de cada um? 
Arregalam os olhos de surpresa ou semicerram de raiva, incompreensão, confusão ou indignação? 
Sou assaz social se não me exigirem que o seja por muito tempo ou por imposição, sempre sem compromisso mas se me esquecerem numa ilha deserta de gente nunca mais dou sinais de vida, facilmente me entretenho e me distraio com o mundo que me rodeia, por mais pequeno que seja vejo sempre pormenores diferentes sem limite de imaginação. 
Desenho um mar, pinto um céu ou escrevo, escrevo muito sobre tudo e nada como agora que estou para aqui sem a certeza de querer interagir com os que me lêem ou na senda de apenas os agitar?...
Muitas vezes tento estancar esta sangria de ideias, este turbilhão de inspiração que me desinquieta sobremaneira que não me larga nem deixa em paz.
Se quiserem dizer alguma coisa não escrevam cartas nem façam sinais de fumo é mais prático depositarem na caixa de comentários abaixo...
Se não já sabem...estou na ilha esquecida de vós e às vezes de mim!
24
Jul20

A margherita primeiro, depois logo se vê...

Rita Pirolita
Em dia de Verão calor envolvente de manta transparente, caminhava eu e o moço por rua calma de meia-tarde quando muito perto de nós, senhora de meia-idade acompanhada de amiga de idade-meia tropeça em protuberância cimentada no passeio, desequilibra-se e cai de fronha em terra batida de relva rapada, rebola que nem tartaruga, levanta meio corpo e de sorriso escarrapachado frisa com alguma malícia e expedita rapidez, que está bem e ainda não foi desta que se juntou aos anjos mas que viu algumas estrelas e passarinhos, lá isso viu, apenas um pequeno corte no sobrolho dá à luz uma linhazinha de sangue que nem é suficiente para escorrer!  

A amiga petrificada e lenta na reacção de ajudar no amparo da queda que já se tinha consumado, no pós-traumatismo também não tentou ajuda, já que era o Estica a tentar levantar o Bucha mas para entreter disse-lhe que era melhor ir ao hospital em vez de irem ao bar para onde se dirigiam nessa tarde, ao que a acidentada respondeu prontamente que apesar do costume ser cair quando se sai do bar e não a caminho tinha fortes intenções de não arrepiar caminho e ir beber a agendada margherita que tão bem calhava com o calor que embora não sendo tropical se fazia sentir agradavelmente naquele dia.

Depois de refrescante bebida logo se via se o ferimento era de monta, que pedisse suturação em clinica ou hospital!

Não há queda que desvie uma verdadeira lady do seu percurso em busca de tal hedonismo! 

A esta altura tínhamos uma senhora anafada muito bem disposta sentada na escassa relva de sobrolho deitado abaixo, uma amiga esterlicada e atrapalhada a sorrir timidamente, nós os dois e mais alguém que se tinha aproximado a prestar ajuda, ali estávamos divertidos com a conversa a aguardar que sua excelência galhofeira se levantasse para confirmar se caminhava direita pelo menos até ao virar da esquina, o bar era já ali!

Um brinde aos caminhos que se cruzaram e voltaram a descruzar nesse tépido dia!
17
Jul20

Contos da Estrelinha Serigaita - A primeira e única anestesia da minha vida!

Rita Pirolita
Espero mesmo que seja a última porque não gostei nada da sensação.
Querido médico...até podia começar assim a minha carta mas já não se enviam missivas, além de que o meu pediatra já era um homem antigo na altura que eu era um rebento de repolho, por isso já deve andar a brincar com os anjos-enfermeiros faz muito tempo. 
Era este homem que exerceu também na minha década de nascimento nos 70's da Revolução que corria todos os bebés gordos a dieta-limão, contra todas as reclamações, indignação e desobediência das mães que tinham trabalhado tanto e tido tantas dores para ter um rebento de 4 quilos ou mais, careca e intumescido, bebé de anúncio de papas Cerelac ou Pensal, admirado por todos e que pensavam transpirava saúde, na época da gordura é formosura.
Eu já naquela altura era o seu modelo de referência a manter, comprida e magrinha mas a dever muito à beleza, depois melhorou!
Este pediatra também tinha outras pancadas típicas da época e uma delas era curar os sintomas de sinusite por mais leves que fossem, com uma operação às amígdalas e adenóides, devia ser mais barato aos pares e já que estávamos ali de boca aberta o nariz fica logo acima, eu apenas andava com ele entupido de vez em quando, agora olhando para trás devia ser uma coisa normalíssima na altura, tanto como agora, mesmo assim não me livrei da porra da corriqueira operação! 
A prevenção grassava e desgraçava por aqueles tempos e antes que se morresse disto ou daquilo, livravam-se logo das peças potencialmente problemáticas. 
Se vai ser obeso, tiramos-lhe já o estômago ou cozemos a boca, ou fazemos as duas coisas pelo preço de uma e meia, se vai ficar perneta tiramos-lhe já as duas pernas, assim em vez de muletas anda sentadinho na cadeira de rodas. 
Era assim a vida naquele tempo com tristeza de chorar a rir!
Lá levei com a dose dupla de me arrancarem coisas do corpo que até parece tinham crescido por excesso. 
Não deixo de recordar que uns anos mais tarde esta operação caiu em desuso e por mais dores, inflamações e amigdalites que um puto tivesse já não operavam, o moço já não foi portanto vitima da mundana obsessão cirúrgica e como nasceu 4 anos depois já não lhe tiraram os tintins da garganta. 
Vá lá que nos deixaram a todos o badalo central, vulga campainha.
Ora bem, o dia da minha única operação até hoje ficou marcado na memória, da baixeza dos meus 7 anitos lembro-me de uma sala com cadeiras de dentista em redor onde vários miúdos como eu estavam sentados ansiosamente à espera do talhante, uns choravam porque não sabiam o que ia acontecer e eu também não sabia mas não chorei, feita mula que era nunca dava parte de fraca. 
Só me lembro de uma enfermeira se aproximar de máscara em riste, um cheiro a borracha de lápis e depois apaguei! 
Acordei na mesma sala mas já deitada com uma choradeira à minha volta de todos os que tinham ido à faca e quando tentei falar com a minha mãe que estava mesmo ali à espera que eu acordasse da anestesia a única coisa que me saiu da boca foi um litro de sangue e depois fiquei caladinha sem ir à escola, enfiada em casa a comer gelados, iogurtes e a tomar leite gelado por uma eternidade massacrante e digo isto porque na altura eu odiava coisas doces e os gelados então eram uma verdadeira tortura de enjoo, tanto que a minha mãe nunca me conseguiu dar leite porque punha sempre açúcar, modas daquele tempo, vá lá que não levei com a aguardente na chupeta, um dia distraiu-se não pôs nada no leite e desde aí bebi sempre tudo até ao fim! Não foi no entanto por causa daqueles dias que passei a apreciar assim tanto coisas lambareiras!
Depois da operação as coisas voltaram ao normal mas nas férias de verão levava com doses de uma semana nas termas de água enxofrada que cheirava a ovos podres, no meio dos velhos com reumático e salas de 'descompressão' para evitar choques de temperatura.
Tudo isto recomendado pelo senhor doutor que me tentou curar de uma sinusite que nunca vi mais gorda na minha vida!
01
Mar20

Pó e mais pó

Rita Pirolita

Já por aqui muito falei de limpeza e do meu vício mais a tocar o doentio, da comichice que me faz a falta dela, facilitada se tiver apenas o essencial, sem psichés supérfluos criados apenas para encher recantos e dar joelhadas.

Sou obcecada com limpeza ao ponto de começar a ressacar se não tiver tempo para limpar a mais pequena sujidade que este meu olho clínico prescrutar. 

Relaxem, por enquanto só amofino o meu ser sem prejudicar mais ninguém que não esta palerma que sou!

Sempre fui muito organizada em espaços meus, com os dos outros só se me pagarem muito bem para limpar merda alheia e mesmo assim se for aquele tipo de merda que seja tão grande que me desagrada, típica de gente porca, desleixada e preguiçosa, nem lhe toco e viro logo a cara, quem a deixou acumular que morra enterrado nela!

Existe num entanto uma sujidade a que chamo limpa!

Lembro-me por exemplo de estar na casa dos meus avós quando era miúda e apesar de a minha avó andar sempre a limpar e nós próprios termos cuidado, havia um pó que insistia em fazer parte dos móveis rústicos, não aquelas imitações enfiadas em apartamentos de cidade, na senda da foleirada pegada, típica de mau gosto novo rico que pensa honrar as origens, misturado com douradas patas de leão Luis XV, nada disso, eram móveis escuros, robustos que não vergavam mas rangiam no silêncio, a contorcerem-se com o frio da noite, feitos para levar coisas pesadas lá dentro, toalhas de linho ou renda, centenas de pratos desirmanados, terrinas...onde se passássemos um dedo que fosse, se notavam logo as sete camadas de pó que se tinham instalado, mesmo que se tivesse limpo há 5 minutos! 

Este pó sempre me pareceu e continua a parecer, o único tipo de sujeira que não me põe os cabelos em pó...pé.
Uma camada saudável de poeira, é sinal que estamos no campo, longe da fuligem peganhenta dos carros e do pó doentio e fino das persianas.  

No campo o pó é denso e flutuante, tem alma de fada e espessura de alquimista, quase conta histórias, dá para desenhar corações e flores, faz-se notar, tem presença e vem sempre para ficar como se fosse o fantasma bom da casa que nem alergias consegue provocar, quanto mais sustos.

Quando passamos a correr e ele se alvoraça, levanta e volta a pousar como se cada partícula soubesse o lugar onde se acomodar, para bem se distribuir e espraiar, fazendo o seu trabalho de não deixar nada a descoberto, nu e sem protecção. 

Nunca ouviram dizer que limpar demais às vezes estraga? Este pó prazeroso dá vida e conserva, não deixa que as coisas se esvaziem da sua identidade.

O pó dos quartos é de colchões de palha, uma espécie de fuligem sem fogo, libertada quando os ajeitamos, faz cócegas no nariz, tudo passa assim que nos atiramos para o fofo restolho dos pauzinhos macerados!

O pó da cozinha está assente em chão de terra batida, já vidrado em alguns sítios de tanto uso e rega diária, para domar o pó que acumulado, vai fazendo um chão calcado, quase verdadeiro, terra batida impedida de dar flores, da mesma espécie da horta, mas amaciada todos os dias sem sementes a germinar e sim pés a pisar, em correria, sangue de cabidela derramado, compota, manteiga, pingos de azeite, gordura de sardinha, e assim vai sorvendo tudo o que lhe deixamos cair em cima, ficando alisado e cor de burro quando foge. 

Nos vidros das janelas pontilhados de pequenas bolhas, imperfeição de século passado, o pó deixa-se ficar agarrado em forma de lágrimas escorridas, gotas de chuva secas, quando o sol beija, um pó de ouro envaidece o vidro tosco! 

A lareira negra na impossibilidade de ser limpa em alvura, é varrida, deixando emanar o cheiro do fumeiro, ramos de louro e presunto assente no beiral, cabemos todos lá dentro, junto aos potes de ferro de três patas que cheiram a sopa, escuros como piche, encerram em si a protecção de gordura, sem ela vai-se o gosto mais gourmet do mundo, o sabor a vida, comida de gente que trabalha, que come por fome, prazer e necessidade, para se saciar e repor energias da estucha da vinha, do pomar e da eira. 

Panelas de alumínio gastas de tão areadas, com fundo quase a romper em rendilhado, tachos de ferro, pesados que nem chumbo, pratos, canecas e cafeteiras de esmalte, leves que nem penas, picotados de ferrugem, copos de fundo grosso, tingidos de cor vinho...  

Os candeeiros altos não se limpam, também se resumem a lâmpadas bojudas, penduradas em fio preto descarnado, nem nas teias se mexe que de tão finas passam pelos intervalos do pó, além de augurarem dinheiro.
Os gatos borralheiros saltitam e aninham-se ora no quente da fuligem, ora no 'pó-de-arroz' espanta aranha da batata.
As parras e uvas parecem peludas de pó branco e macio.

Os cães, as galinhas, os coelhos e o nosso cabelo, trazem fina película de cheiro a pó, agarradinho como um casaco invisível.  

Nunca deram pelo cheiro do pó? Aquele que não é forte mas também não se deixa ignorar, que faz comichão e espirros mas não mata alérgicos nem asmáticos e muito menos se levanta se ninguém o alvoraçar?!...

Além de nós, só o vento o remexe e os nossos olhos o consideram!

12
Fev20

Quem não?

Rita Pirolita
Quem não? 

Sentiu desprezo portas dentro, viu compaixão cega e ajuda oferecida a quem não merecia, abuso de laços de sangue, desrespeito, humilhação e domínio em troca da comida que vai à mesa.
A qualquer movimento dizem que não fazes mais que a tua obrigação que não precisam de saber se simplesmente estás bem, se precisas de alguma coisa mas apesar de não prestares para nada e não mereceres, até te dão os Parabéns todos os anos e telefonam pelo Natal em jeito de missão cumprida. 
Os filhos têm a obrigação de se preocupar com os pais, de lhes obedecer e nunca pôr em causa os seus infalíveis métodos de educação, uma chapada nunca fez mal a ninguém e a violência preenche o dia-a-dia à falta de melhor, num lar sombrio que baste. 
Quando sais de casa não há olhar para trás, não há lugar a lágrimas de saudade que te enfraqueçam.
Ao mínimo pedido de ajuda em passageira dificuldade, vão-te fazer amargar cada palavra de apoio e cada tostão será cobrado, não socumbes por orgulho e segues sem amparo. 
Podia ser eu, a continuar o mesmo tipo de vida mas não, sou eu a contrariar, a evitar percurso tão errante e vicioso. 
Se tivesse rodeada de simples cuidado e bondade seria hoje mais assertiva, livre e menos defensiva.  
Neste caminho que vou correndo, a fugir de gente que me atinja com malvadez e desamor, quem me fez nascer desistiu de viver por cansaço de tanto desleixo e frieza miserável...
Quem ficou tem no meu olhar a acusação e o julgamento da culpa que não sente, com quem tenho que conviver por pena e que pensava eu me fizesse mais forte e melhor, mas apenas me aumenta o nojo.  Não sinto previlégio no sofrimento, não quero ver pena nos olhares, não me é permitida saudade ou luto nem queixa por injustiça, apenas aceitação de uma vontade doente que se cumpriu e me venceu.
30
Nov19

Contos da Estrelinha Serigaita - Nascimento

Rita Pirolita

se·ri·gai·ta 
(origem duvidosa)

substantivo feminino
1. [Informal]  Mulher ou rapariga ladinaespevitada ou respondona.
2. [Informal, Depreciativo]  Mulher magrageralmente pretensiosa ou irrequieta.
3. [Ornitologia]  Ave trepadora.
  
O nascimento da serigaita estrelada deu-se em espaço de repasto aberto ao público, pertença de avós maternos que viviam por cima do negócio que atraia do Porto gente para o arroz de lampreia, cobra pintalgada de ventosa de rocha em água doce. 

Por trás dos montes, nasceu em Outubro/Outono, noite dentro, tumultos de parteira, esperanto de dias, que o feto feito não queria sair e já veio com horas somadas em dias de atraso, em altura de máquinas que não olhavam entranhas, sabia-se do sexo pelo nariz da mãe, luminosidade da pele ou forma da barriga e pouco mais, as mais bonitas, as dos rapazes. 
Mãe prenhe de 6 meses, parecia que sofria de ervilha plantada no ventre, aos nove e mais, parecia não grávida completa ainda. 
Mesmo em atraso, a saída forçada com ferros fez estragos em couro cabeludo molinho, cheia de sangue placento e sangue seu que jorrava da cabeça, tenazes que lhe arrancaram cabelo com raiz, deixando cicatriz com feitio de América do Sul de pernas para o ar, uma pêra ainda pendurada na árvore, pele macia que expandiu com o crescimento, ainda que farta cabeleira nunca deixasse perceber a violenta marca da saída por entre pernas para o mundo.
 
Gritos de dor de parto e aflição de morte à nascença, calma imposta pela parteira, que é muito experiente e conhece as profundezas do mistério fêmeo sem surpresa. 
A ferida mostra-se inofensiva, sem ameaça de a mandar para o outro mundo sem antes dar o primeiro choro. 
A magreza e feieza da menina não saiem com o banho, virá a beleza para lá dos 18.

Composta, já sem choro regressa à capital, onde pela primeira vez o pai a vê, não queria ele rapariga, queria rapaz para a bola...
19
Mai19

Emigra tuga

Rita Pirolita

 

 
Não vou falar do Jean Pierre que estava sentado na cadeira em francês, depois caiu e partiu a cabeça em português vernáculo, falarei antes da imagem que o emigrante tuga cultivou e que povoa o nosso imaginário num misto de nostalgia e piroseira.
Na altura do Salazar quem conseguia escapar da miséria para o estrangeiro, deixava para trás muitas bocas para alimentar com o 25 de Abril continuaram a emigrar mas deixaram de fazer tanta filharada

Agora que vejo imagens desses tempos pergunto?  
O que levaria esta gente a abandonar uma casa modesta com um pedaço de terra, único sustento da família e ir viver para os bidonville, arrabaldes de cidades com barracas, esgotos a céu aberto, lama, doenças, fome?...
Como não havia internet, estas pessoas de certeza que foram todas ao engano
Alguns sonharam tanto e trabalharam ainda mais que por lá ficaram, nunca quiseram abandonar o resultado de tanto suor e sangue, afogados em saudade até ao fim da vida.
Esta vaga de emigrantes que se deram tão bem ou tão mal, nunca foram a um café ou jantar fora, para poupar para a construção da casa de 'vacanças' na terrinha, havia de tudo para todos os gostos no catálogo 'Le plu bele Mesons ao Portugal', casarões, palacetes, chalets e até mesmo miseráveis imitações de 'chatôs' com ameias feitas em tijolo colocado na vertical. Tré joli!... 

Vinham em Agosto.
Aparatosamente chegavam em Mercedes para que toda a gente pensasse que faziam vida de reis lá pelas 'estranjas' o resto do ano, era esta a marca de carro preferida dos putanheiros e patos bravos no Portugal mas os emigras não andavam a par das modas no país de origem. Ninguém podia saber que tinham suado a estopinhas para pagar o aluguer da 'vuatura', interessava sim que viessem carregadas de 'suvenires', falava-se alto numa mistura de mau português e pior francês, os da terra arregalavam os olhos com tanta coisa reluzente e gestos esbanjadores dos familiares 'francius'.
Eram convidados para petiscar em todas as casas da aldeia, todos queriam saber como era lá nas 'franças' e pelo meio os 'francius' sabiam das beatices da aldeia, casamentos, homicídios, adultérios, óbitos, zangas, escândalos...
As noites quentes de verão eram passadas em alegre convívio nas casas dos tugas emigras.
Todos aproveitavam para fazer uma visita guiada à 'meson' que se destacava na aldeia por não ter nada de típico. 
Algumas pareciam casas de banho viradas do avesso, com revestimento exterior em azulejo brilhante com motivos florais berrantes, eu percebo, como tinham o meu querido mês de Agosto para gozar, não vinham com paciência nem tempo para andar a pintar as paredes todos os anos, se é piroso, foleiro e horrível, isso não interessa nada para o caso, é prático e pronto!
Ora, ia eu na visita guiada aos interiores, os sofás mantinham o plástico de fábrica, as flores de plástico estavam na mesma linha do azulejo, sempre hirtas, firmes e de baixa manutenção
Terminada a visita aos 50 'chambres' da 'villa', voltava-se a fechar as 'fenétres' e 'portons' para manter o  e cheiro a humidade bolorenta do mausoléu e iam todos petiscar para o anexo, onde efectivamente dormiam, comiam e cagavam. 
Sentavam-se em sofás piores que aqueles reservados aos cães e eram felizes até ao final do mês, numa folia alucinante de beijos, abraços, bebedeira e bailarico.
Iam embora com o Mercedes carregadinho de chouriças e presunto, na entrega da máquina, não sei se tinham agravamento no seguro de aluguer por causa do cheiro impregnado da carniça portuguesa.  
Ao fim de muitos e longos anos, quando estavam cansados de dar o litro nas 'estranjas' faziam as malas, traziam uma boa 'retrete' e morriam de ataque cardíaco com a emoção de finalmente habitarem o 'chatô' do reino perdido e longínquo

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