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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

20
Jul20

Não sou de recados

Rita Pirolita
Não sou de mandar recados, seria uma trabalheira falar em casos particulares e um dos confortáveis usos da escrita também é este, uma só pessoa dizer a muitas o que pensa e cada um daí tirar o que lhe aprouver e deitar fora o que não gostar ou magoar.  
Sou rude e directa mas aceito que para os mais sensíveis ou mesmo susceptíveis poderei parecer agressiva e zangada.
Sou sarcástica, ácida e treino a lucidez todos os dias e acreditem que mesmo escrevendo sobre coisas sérias, estou com um sorriso nas fuças, imaginem-me assim em frente ao écran do computador e estarão a ver a realidade mas reconheço que devo dizer muita coisa que muitos não querem ouvir ou fogem de pensar e por isso ainda me chamam de arrogante. 
Não sou de andar a caçar elogios, digo o que penso e por isso alguns chamam-me de vaidosa de tão segura! Inveja? Talvez mas não é minha, é de mim, não me detém nem arrepia, quem a tem que lide com ela, que a guarde nas catacumbas da alma sem luz a ver se definha. 
Só peço que poucos ignorantes me cruzem caminho e por ignorantes neste preciso caso, considero aqueles que se apoderam das certezas incertas da vida, os que estão seguros que os amigos são para toda a vida, os filhos também e a família, fazem planos para viver a reforma sem antes ir gozando o dia-a-dia, dizem não querer agradar a ninguém mas depois mexem-se apenas por competição, para provar aos outros o que valem e para manter amigos de companhia, já deviam saber que a competição mata a originalidade e assente nas premissas erradas, puxa pelo pior de nós, exigem satisfações, dão constantes palpites sobre vida alheia e assim vivem a vida dos outros tão ou mais vazia que a sua, cobiçam felicidade, viagens e ausência de rugas, estão sempre mal por estarem sós ou mal acompanhados, não suportam o ruído da sua própria alma, se aprendessem a amar a sincera solidão, ouviriam ecos de melodia.   
Não sou eu que vos digo todas estas coisas, é a vida que o diz através de mim, por isso qualquer nome que me queiram chamar, chamem primeiro à porca madrasta finita que nos vai moldando, fazendo sonhar e tropeçar na realidade e a cuja morte leva sempre a melhor e não se esqueçam de supor menos e rir mais enquanto é tempo.
Não se deitem a adivinhar, atirem-se de cabeça!
14
Jul20

Nem de lá nem de cá

Rita Pirolita
Costumo deleitar olhar e alma com televisão made in Madeira ou Açores.
Magazines culturais, de costumes, de festas e eventos religiosos. 
Sambas importados não e muito menos meninas de traço rude e cabelo oxigenado das américas do norte e latinas, essas se dispensam pela distância de hábitos e desfile de modas de além-mar, de lantejoula ou cetim agarrados a curvas em demasia, por isso deixo já de falar delas, mesmo fazendo parte da paisagem no verão das ilhas!
As notícias são de lá e por lá ficam, dadas com timidez cândida, sem contaminação, só a eles pertencem, só a eles dizem respeito com todo o respeito pelas do mundo. 
Se vivem sem guerra, longe da desgraça mundial, porque não evitarem o contágio?!
Existe poder informativo acima de qualquer palhaçada espectacular. 
Se têm programas pirosos? Se calhar, não vejo nem conheço mas aqueles que falam pelas gentes, são a delicia de ouvir sotaque recatado de boca mais fechada, conhecimento sem invenções ou circo de turismo. 
Almas habitantes das ilhas não se podem sentir perdidas nem na terra onde poisam o corpo nem no mar que nunca será seu, pela imensidão de ligar outros solos.
Em todos os locais de Portugal há uma rua Direita, da Igreja ou da Sé e uma praça Central, ali não será excepção mas a rua Direita pode não ser tão directa como isso. 
Mal sabiam as moçoilas na ansiedade de se livrarem da insularidade ao agarrarem-se a um continental, que se estavam a afastar da simples quietude e não do atraso ou monotonia, que iam mergulhar num mundo caro demais para o engano!
O isolamento pode desesperar e enlouquecer mas também protege da insana invasão. 
São estes piratas de barco fundado, feito de montes de preta pedra, de hortenses e esterlícias, que falam da terra em  permanente desterro orientado na imensidão do oceano, que se sabe Portugal e não ilha-país como tantas há por esse mundo fora.
Pedaço de nação que já foi o único que nos restava, resistente Adamastor a investidas espanholas de nos tirarem pedaço em terra-continente. 
Ilhas de refúgio real, de escritores e loucos artistas, prodigiosos poetas e prosistas de linguajar denso e polposo-sumarento.  
Se atrasados são estes, eu que não sou gente nascida lá nem muito menos sou de cá, será que me deixam ser de lá?...
 

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