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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

05
Ago20

Quer perder peso? Não me pergunte como!

Rita Pirolita
 
 
 
Porque temos que ter vergonha ou quase pedir permissão para ganhar quilos, comer mal e sermos sedentárias?
Por acaso não aprecio fritos, gorduras, carne, ovos, chocolate e por ai fora mas às vezes com tanta dica de comida saudável dá-me vontade de comer hambúrgueres todos os dias, nem que depois os vomite no minuto a seguir.  
Não gosto de ginásios, bicicleta, correr, Cross Fit, musculação, jogos, o mais que consigo fazer com o mínimo de prazer é caminhar e a horas decentes ou seja nem às 5 da manhã nem às 11 da noite e se estiverem as condições atmosféricas ideais para o fazer, não chover, não estar muito vento, não fazer muito frio ou muito calor, não ter a barriga cheia ou estar com muita fome... 
Ora bem apesar de tudo o que vou aqui relatar o sedentarismo não é recomendável mas é muito bom, por isso é que ninguém algum dia fez o mínimo de esforço para estar esparramado no sofá.
Andei kilometros durante 4 meses, 2 horas por dia sem nenhum dia de folga, desta vez sem ser picuinhas com o tempo que fazia. 
Comi como sempre faço desde há mais de 20 anos, vegetais, fruta e cereais, sem molhos nem fritos que tenho a sorte de não gostar e de me fazerem uma azia que nem imaginam. 
Enquanto me esforcei nesta rotina verifiquei que com o exercício a fome aumentou e comecei a pôr em causa se não tinha que praticar mais exercício para gastar calorias, num crescendo imparável que parece que vamos rebentar, mais fome, mais comida, mais calorias para queimar!
O moço, fofo e reconfortante disse-me que não emagreci nem engordei mas estava de certeza mais saudável. 
Se não vemos resultados para quê o SACRIFÍCIO?
o me convidem para esta tortura mais que medieval. 
Sou uma defensora da liberdade de estar, prazer, conforto, ócio e contemplação! 
Se um dia chegar ao ponto de não gostar de me ver com vestidos mais justos, uso mais folgados, vou parecer um saco de batatas? Isso não sei mas em vez de comida não vou começar a comer vestidos, por isso não importa o tamanho que têm!  
Não escrevi isto para desanimar ninguém mas as gajas elegantes que vejo e com as quais a maioria das mulheres se tenta comparar são muito mais novas, têm uma vida boa, com tempo para fazer exercício seguido 'de muito perto' por um PT giraço, compram carradas de coisas para emagrecer e secar o corpo incluindo cocaína, não comem, fazem sacrifícios do outro mundo a enfardar limões logo pela manhã, enchem o Instagram de imagens de pequenos almoços saudáveis com sementes mas nunca filmam a cara de cu ao comerem aquilo todas as manhãs e fazem plásticas e lipoaspirações a toda a hora...assim também eu!
Sempre fui dona de uma genética fantástica e um bom metabolismo mas nem por sombras me acho a última bolacha do pacote mas também ninguém no mundo chega aos 80 anos sem envelhecer, sem rugas, refegos e coisas descaídas!
A conclusão que tiro de tudo isto é que as dondocas que andam obcecadas por perder peso podiam esperar por uma gripe de caixão à cova combinada com uma intoxicação alimentar que levaria prái 20 quilos numa semana, estaria resolvido o dilema dos kilos a mais, sentadas no sofá à espera de uma gripalhada com diarreia.
04
Ago20

O vizinho contrafeito

Rita Pirolita
Estão a imaginar aquele vizinho de baixo que só conhecemos há dois dias mas já vivemos por cima dele faz mais de um ano? 
No Canadá é um achado conheceres o vizinho do lado quanto mais o de baixo, o de cima não posso conhecer, só se for Deus, porque vivo no último andar do meu querido apartamento, sempre posso dizer que o céu é o limite ou não?
Bem, imaginem também que a probabilidade de encontrar alguém normal nesta terra é como ver um porco a guiar uma mota, foi isso que não nos calhou na rifa como seria de esperar, somos tão amorosos que ao jogo só podemos ter azar!
Nem sei por onde começar, este vizinho é uma mistura de cocainado com serial killer, sem talvez nunca ter snifado uma linha que fosse ou até morto uma galinha!
Diz ter família em Espanha, mulher e dois filhos e trabalha no Canadá em pipelines, tem um trabalho à peça e sazonal, com a vantagem de aceitar umas épocas e recusar tantas outras quando já tem dinheiro suficiente para tirar uns dias de descanso! 
Pareceu-nos um ser porreiro com salero de castanholas, que amiúde daria para ir matando saudades da nossa querida nação tuga, ali mesmo encostadinha, a fazer conchinha! 
Entre um copo de vinho, dois dedos de conversa, pizza e pasteis-de-nata, que os consigo arranjar por aqui feitos por um italiano, vamo-nos apercebendo que este homem também na casa dos 40, começa a repensar toda a sua vida por causa do nosso discurso tão libertador e liberto de empecilhos, sem filhos e gosto por viajar, toda uma filosofia de vida de "menos é mais" e "keep it simple", que o fascinam e com que parece estar a contactar pela primeira vez! 
Com a idade que tem já vai atrasado mas nunca é tarde! 
Fica fascinado com a sabedoria filosofal do moço, sorve as suas palavras como as de um aprendiz de guru! Não me dita tanta importância, secretamente apercebo um fascínio para lá do normal, uma atracção sensual pela inteligência do meu moçoilo. 
Detenho-me a contemplar o cenário e vou falando cada vez menos para deixar o bobo divertir-me e fascinar-se com a simplicidade que descobriu agora, como criança imberbe e pueril. 
Este ser dá desculpas para tudo, arranja pretextos e deixa rabos para nos voltar a ver, o seu discurso é soluçado e sofrego. 
No dia a seguir a nos termos conhecido veio cá acima bater à porta, a pedir ajuda ao moço para montar uma televisão que tinha comprado após ter visto a nossa, embora já tivesse uma, esta era um monstro colossal e Smart.
Mais uma vez tinha ficado fascinado com o facto de apenas pagarmos internet e não estarmos fidelizados com pacotes de canais, assim assistimos ao que queremos à hora que nos convém, desde canais online, a Neteflix ou Youtube...  
Esteve uns dias sem dizer nada, até nos esquecemos dele mas voltou novamente a dar à costa desta vez com o pedido de um favor, já estava a tardar.
Pediu-nos para cuidarmos de uma planta que tem ao canto da sua sala, acabou por admitir que a comprou para preencher o espaço vazio. 
Com pezinhos de lã perguntou primeiro se gostávamos de plantas e eu sem dar oportunidade ao meu moço de responder, disse logo que gostava de as ver lá fora, à solta, não presas em casa mesmo que fossem consideradas domésticas. 
Ora, quem tem um trabalho de passar meses fora de casa, não vai a correr comprar uma planta, quanto muito que compre flores de plástico ou um cão de loiça para preencher o vazio da casa e da alminha perdida.
E ainda mais lhe disse e perguntei, se ele fazia alguma ideia porque é que eu não tinha filhos e ele feito parvo ainda respondeu que não e eu expliquei que não queria estar agarrada a nada que me tirasse liberdade ou me exigisse responsabilidade e rotina, que apenas queria ser responsável por mim e já era muito, portanto muito menos iria cuidar de uma planta que nem era minha...
Bardamerda que dê a planta a alguém ou para a próxima que pense melhor no que anda a fazer!
Juro que a esta altura da troca de galhardetes, sem exaltações, que o caso não merecia, imaginei este homem a meter-se num avião, ir a Espanha matar mulher e filhos e regressar livre de amarras, só porque estava fascinado pela nossa postura.
Durante este diálogo, o moço mostrou uma paciência como só ele e fez muito esforço para não desatar à gargalhada! 
Quando este ser abandonou o nosso lar voltei a indagar-me como já tantas vezes fiz, até demais, porque continuo a atrair gente maluca? Porque há realmente muitos ou porque estou condenada a algum castigo de me cruzar com tolos e passar a vida a fugir deles???
Juro que a próxima vez que venha cá acima e me pergunte se não está a incomodar feito assassino que se mostra simpático para atrair as vitimas e depois as degolar, vou-lhe dizer que estou muito ocupada e tenho que ir visitar alguém ao hospital! 
Eu que sou maluca reconhecida, natural, original, diria até genial, daquelas de trazer por casa e arejar de vez em quando a mioleira sem incomodar ninguém, digam-me porque tenho que aturar malucos contrafeitos?
21
Set19

Dégolas!

Rita Pirolita
 
 
Como já perceberam, não sou fundamentalista com nada e até gosto de dedicar algum tempo da minha vida a experimentar coisas que pareçam válidas e exequíveis, para assim ir fazendo as minhas escolhas, aproveitar um pouco daqui e dali para tirar as minhas conclusões, boas ou más, passando é claro por muitos erros.

Há muitos anos decidi não comer mais carne, ovos ou beber leite, tudo isto me andava a enjoar, o cheiro, o sabor, as digestões difíceis e longas demais, enfim, passei a sentir-me melhor e isso foi o mais importante. 

Um dia quis ser mais saudável que a própria saúde e comecei a fazer uma alimentação macrobiótica, muito disciplinada e rigorosa, acompanhada por um interesse crescente pelo budismo e consequente evolução e limpeza espiritual. 
Escusado será dizer que adorei a descoberta mas aquilo não era para mim, andava na rua a arejar o esqueleto com o peso que tinha perdido.

Deixei-me de coisas e passei a guiar-me mais pela minha intuição sem nunca pôr de parte o precioso conhecimento que até ali tinha adquirido. 
De facto comecei a andar mais espevitada e não abandonei a fórmula até hoje.

Continuando a adorar a cozinha portuguesa, que é uma das melhores do mundo, de vez em quando faço incursões pelo seitan ou pelo tofu, pelo couscous ou pelo bulgur, cogumelos e vegetais sempre a transbordar do prato e sopa forever!
Já me aventurei a comprar comida vegetariana processada e a desilusão foi grande, desde salsichas de soja a queijo ou patés vegetarianos...dégolas!
Nunca represento um problema para os amigos quando me convidam para jantar, não têm que fazer um prato especifico para mim porque sabem que me desenrasco sempre com os acompanhamentos. 

Faço por ser flexível, até porque gosto muito de viajar, e ser picuinhas em países como a China, Malásia ou Filipinas?... Ninguém te liga nenhuma e se não fizeres pela vida passas fomeca.

Por tudo isto, não lido bem com pessoas que se controlam demais na esperança de viverem até aos 200 anos e morrerem saudáveis...que seca, esses mais vale despachá-los logo, jovens e ainda belos para não azucrinarem mais a cabeça aos outros.

Não concordo com o sacrifício de animais para satisfazer prazeres gastronómicos, está provado que não precisamos de carne para viver ou sobreviver, pelo contrário, o seu consumo excessivo traz problemas de saúde e ambientais, por outro lado sou capaz de gracejar sobre o excesso de zelo de determinadas pessoas em seguir à risca o que quer que seja, privando-se de dar e receber alegria e da liberdade de fazer asneiras de vez em quando.

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