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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

14
Jul20

Fraqueza

Rita Pirolita

Às vezes no silêncio...🎵🎶🎼
Às vezes no silêncio da vida apetecem-me coisas fúteis e até desprezíveis que me irritam se estiver sóbria e alerta de pensamento!
Uma ida a um centro comercial ou praia a abarrotar de gente, comer pipocas no cinema, ir ao próprio do cinema, estar a jantar no conforto modesto e ver notícias de matança de gente em terra distante ou crime passional na terra mesmo ao lado, pretos e ciganos em favelas, em rixas ou a irem presos, divórcios de famosos, não são mais que nós, gente pobre, nós em regozijo de classe média baixa, de coração podre para o vizinho mas mole na ajuda a quem não vive perto, revoltados contra padres sempre comilões e faustosos que abusam de indefesas criancinhas. 
Somos nós a denunciar uma justiça que não funciona, que devia ser universal e inata. 
Existe uma satisfação com a corriqueira desgraça, tudo para nos sentirmos melhor sem nada fazer, tudo se resolve nas novelas por isso na vida também!
Pois é, sou um ser desprezivel, mais ainda por admitir esta minha fraqueza que outros também têm, quando páram para ver o acidente na estrada, tão ladrão é o que vai à loja como o que fica à porta!
Serei eu assim que por ter passado mal na vida, um mal comportável, senão não estaria aqui a falar dele, me quero sentir humana e próxima dos meus iguais, na alegria e no inevitável sofrimento...
Sou uma ladra pouco ambiciosa, de cesta pequena mas ainda assim uma ladra!
Porra para todos nós que não prestamos para nada!

13
Dez19

Bichos cabrones

Rita Pirolita
De passeio por um país do equador, desfrutamos de praias, nunca tão bonitas como as de Portugal, de vendedores ambulantes de fatias de bolo com ou sem erva e surfistas rastafari...
A nossa cor de pele, denunciava logo a condição de veraneantes vindos de outras bandas, não dava para enganar e pelas ruas lá aturávamos 50 ou mais perguntadores, como dizia o moço a fazer uso do seu humor, interessados em saber se fumávamos, por certo muito preocupados com a nossa saúde, não era de certeza para promover um qualquer programa de desintoxicação...
Ficamos hospedados numa simpática casa de madeira construída por um casal, ele espanhol e ela local, com um terraço empoleirado em cima de 3 andares de quartos, onde corria alguma brisa a contrariar a canícula melosa e que à noite era o palanque ideal para observar os vizinhos do bairro, churrascos e rixas com polícia pelo meio. 
A preocupação deste simpático casal era a manutenção e expansão do seu recente hostal que ainda pedia comentários no TripAdvisor, para aparecer na lista dos mais estrelados e para a qual muito contribuía a eliminação, com tratamento adequado à madeira, de uns bicharocos que existem por todo o lado mas talvez pela humidade, se tornavam mais vorazes e descontrolados por aquelas bandas. 
Esta era a grande preocupação deste jovem proprietário que não se imiscuiu de privar connosco e debaixo de um sorriso jocoso de dentes serrados, expressar a revolta contra os 'bichos cabrones' que lhe comiam o negócio, podendo reduzir tantas horas de suor, a farinhenta serradura.
Sempre de portas e janelas escancaradas, que o calor aperta, os cães pareciam deambular à noite pela fresca, mas o certo é que todos sabiam onde iam e a que casa pertenciam, mesmo que os chamasses não te ligavam nenhuma. 
Percebemos depois, que todos os cães têm dono mas parecem pertencer a qualquer transeunte que cruzem. Nunca estão presos, a rua é o seu domínio, saltam muros com ou sem autorização, são cuidados em pleno gozo de liberdade, domesticados qb, saem de casa quando querem e regressam às horas que bem entendem.
Entre uma vasta oferta de erva fumante que não aproveitamos, cães ariscos cheios de piada que parecem abandonados mas nunca se perdem, fruta com o melhor sabor que algum dia comi na vida, galo pinto e peixe grelhado...
Assim deslizaram os nossos dias a rir do doce feroz e bem disposto, 'el matador de bichos cabrones'.      

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