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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Abr21

No dia da Revolução

Rita Pirolita
No dia da Revolução lembro-me que o meu pai queria ir comprar tabaco nem que fosse a Cacilhas que naquela altura ficava no fim do mundo. 
A minha mãe descabelava-se que "era muito perigoso", que "era uma revolução e que estaria tudo fechado em todo o lado". 
O meu pai deixou de fumar por umas horas ou talvez um dia, deixou de fumar por um mês por causa da maldita operação à vesícula e depois finalmente deixou de vez depois dos 50, agora está feito hamster atleta de passadeira de ginásio.
O meu fumar começou por curiosidade, todos começam assim já sei, mas comigo foi por ficar especada aos 7 anos a olhar para o meu pai a fumar, ele não vai de modas, “queres?” e espeta-me com o cigarro nos beiços que até embacei, ainda por cima aquilo parecia mata-ratos, SG Filtro, curto e forte, primo directo do SG Gigante, longo e forte. 
A minha mãe salvou-me do vício, com a frase, "o que estás a fazer à menina?"
17
Jul20

Contos da Estrelinha Serigaita - A primeira e única anestesia da minha vida!

Rita Pirolita
Espero mesmo que seja a última porque não gostei nada da sensação.
Querido médico...até podia começar assim a minha carta mas já não se enviam missivas, além de que o meu pediatra já era um homem antigo na altura que eu era um rebento de repolho, por isso já deve andar a brincar com os anjos-enfermeiros faz muito tempo. 
Era este homem que exerceu também na minha década de nascimento nos 70's da Revolução que corria todos os bebés gordos a dieta-limão, contra todas as reclamações, indignação e desobediência das mães que tinham trabalhado tanto e tido tantas dores para ter um rebento de 4 quilos ou mais, careca e intumescido, bebé de anúncio de papas Cerelac ou Pensal, admirado por todos e que pensavam transpirava saúde, na época da gordura é formosura.
Eu já naquela altura era o seu modelo de referência a manter, comprida e magrinha mas a dever muito à beleza, depois melhorou!
Este pediatra também tinha outras pancadas típicas da época e uma delas era curar os sintomas de sinusite por mais leves que fossem, com uma operação às amígdalas e adenóides, devia ser mais barato aos pares e já que estávamos ali de boca aberta o nariz fica logo acima, eu apenas andava com ele entupido de vez em quando, agora olhando para trás devia ser uma coisa normalíssima na altura, tanto como agora, mesmo assim não me livrei da porra da corriqueira operação! 
A prevenção grassava e desgraçava por aqueles tempos e antes que se morresse disto ou daquilo, livravam-se logo das peças potencialmente problemáticas. 
Se vai ser obeso, tiramos-lhe já o estômago ou cozemos a boca, ou fazemos as duas coisas pelo preço de uma e meia, se vai ficar perneta tiramos-lhe já as duas pernas, assim em vez de muletas anda sentadinho na cadeira de rodas. 
Era assim a vida naquele tempo com tristeza de chorar a rir!
Lá levei com a dose dupla de me arrancarem coisas do corpo que até parece tinham crescido por excesso. 
Não deixo de recordar que uns anos mais tarde esta operação caiu em desuso e por mais dores, inflamações e amigdalites que um puto tivesse já não operavam, o moço já não foi portanto vitima da mundana obsessão cirúrgica e como nasceu 4 anos depois já não lhe tiraram os tintins da garganta. 
Vá lá que nos deixaram a todos o badalo central, vulga campainha.
Ora bem, o dia da minha única operação até hoje ficou marcado na memória, da baixeza dos meus 7 anitos lembro-me de uma sala com cadeiras de dentista em redor onde vários miúdos como eu estavam sentados ansiosamente à espera do talhante, uns choravam porque não sabiam o que ia acontecer e eu também não sabia mas não chorei, feita mula que era nunca dava parte de fraca. 
Só me lembro de uma enfermeira se aproximar de máscara em riste, um cheiro a borracha de lápis e depois apaguei! 
Acordei na mesma sala mas já deitada com uma choradeira à minha volta de todos os que tinham ido à faca e quando tentei falar com a minha mãe que estava mesmo ali à espera que eu acordasse da anestesia a única coisa que me saiu da boca foi um litro de sangue e depois fiquei caladinha sem ir à escola, enfiada em casa a comer gelados, iogurtes e a tomar leite gelado por uma eternidade massacrante e digo isto porque na altura eu odiava coisas doces e os gelados então eram uma verdadeira tortura de enjoo, tanto que a minha mãe nunca me conseguiu dar leite porque punha sempre açúcar, modas daquele tempo, vá lá que não levei com a aguardente na chupeta, um dia distraiu-se não pôs nada no leite e desde aí bebi sempre tudo até ao fim! Não foi no entanto por causa daqueles dias que passei a apreciar assim tanto coisas lambareiras!
Depois da operação as coisas voltaram ao normal mas nas férias de verão levava com doses de uma semana nas termas de água enxofrada que cheirava a ovos podres, no meio dos velhos com reumático e salas de 'descompressão' para evitar choques de temperatura.
Tudo isto recomendado pelo senhor doutor que me tentou curar de uma sinusite que nunca vi mais gorda na minha vida!
14
Jul20

Tudo igual

Rita Pirolita
Se me fizerem a mais que gasta pergunta, onde estavas no 25 de Abril de 74? 

Eu respondo que apesar de um par de anos por essa altura me lembro da minha mãe feita barata tonta a arrepiar sapatos no soalho de tacos grossos, alguns levantados, rádio ligado a medo e logo desligado a seguir, vezes sem conta por receio que a revolta entrasse à boleia das ondas hertzianas. O meu pai agarrado à nicotina a ressacar por falta de SGFiltro, a pensar ir a Cacilhas comprar tabaco por que tudo tinha fechado e Cacilhas era o buraco mais sujo que garantidamente estaria aberto mesmo em dia de revoluções irrepetíveis.

Eu devia andar por ali a cirandar e de vez em quando lá a minha mãe me agarrava que não sabendo o que pensar de tal situação muito menos saberia o que fazer com mais uma à sua responsabilidade, ainda sem idade para entender a revolução iria ser sua filha forçada, parida no Estado Novo e abandonada aos que destruiam, não comiam nem deixavam comer, fugidos os ricos voltaram depois da Reforma Agrária para pegar no poder que deixaram em suspenso.

De uma pobreza extrema como ervas daninhas cresciam num jardim inculto crianças ranhosas, agora obrigadas a ir à escola ou literadas à distância de uma inovadora tele-escola!

De divórcios em barda ficou a capital cheia, mini-saias, cabelos oxigenados e fumadoras, licenças de isqueiro para o catano e soutiens para o galheiro. 

Estagnação e miséria continuaram no interior e zonas rurais ali mesmo aos pés da cidade, as viúvas continuariam de negro como as ciganas, até ao fim da vida, as sopeiras sofreram empurrão para casar e se arrumarem com o mais composto e de posses que aparecesse.

Comunistas convictos que viviam sem televisão ou carro a reboque dos comunistas mandatários e capitalistas, a AD e a APU conviviam nas paredes de qualquer bairro, os cartazes dos vários partidos, demais, acumulavam-se em camadas de cola-ranho a pincel, em luta que contínua do povo que jamais será vencido, lado a lado com anúncios de touradas.

Idas a Fátima, por mais sacrifício que se fizesse tirar pão da boca para dar aos santos de pedestal e ao cura ainda respeitado, violador de todas as regras de uma vida com parcimónia teatral, abuso descarado nos prazeres da comezaina e beberrice e mais escondido o salivar por carnes fêmeas e bezerras!

Todos a trabalhar e a reclamar para ganharem tanto como o patrão, greves e sindicatos, cooperativas desfalcadas, políticos oportunistas. 

Que todos tenham direito a pão, saúde e ensino, o trabalho dignifica, não aos escravos do campo que nos dão a comida, cursados em classe média começaram a ter e saber demais, nem todos podem ser ricos, é melhor que sejam mais os pobres, amofinados e controlados, sem casa grande de ostentar, enfiados e arrumados em drogas e quezílias. 

O progresso travado traz libertinagem, falsa liberdade e servilismo.

Deixamos sempre passar tempo demais para nos esquecermos que quase tudo está igual.
22
Fev20

Tenho pena

Rita Pirolita
Tenho pena que me tenham criado para ser submissa e não tenham aceite a minha diferença, por mais pequena que fosse mesmo inserida no sistema.

Tenho pena de pais que não participaram na revolução do nosso país, mesmo que mais tarde se tenha revelado ilusória, que ficaram em casa calados porque a incerteza os assustava e o regime era certo e paternal. Ideias políticas que se amordaçavam mesmo à saída dos lábios porque o voto sendo secreto é uma boa desculpa para o silêncio de uma vida inteira que evita conflitos, perseguições e despedimentos.

Os tempos avançaram mas não mudaram, a única diferença é que agora podemos eleger de uma lista controlada os que nos roubam, as mentes continuam presas ao medo da critica, da luta, da voz alta da indignação.

A informação tem dono e como um vírus cibernético deposita alienações nas cabeças dos mais antigos, 'os trabalhos já não são para a vida e a culpa é de quem não quer trabalhar',  porque vidas anteriores foram gastas com dedicação escrava, na escola a levar vergastadas nas orelhas, no trabalho a cumprir horários e a lamber as botas ao gordo patrão, na vida a engolir sapos, a pagar impostos e contas a quem mais nos rouba e nunca fez nada pela vida a não ser enriquecer à custa da exploração do suor dos outros.

Tenho pena de quem torceu o nariz quando os retornados ocuparam facilmente cargos públicos, em vez de frontalidade justa, abusou de coscuvilhice doméstica para os acusar da novidade da droga, o tratar por 'tu' com uma falta de respeito pela parcimónia do antigo regime, a tão invejada descontração típica de locais mais quentes e onde a vida é mais gozada, regada com cerveja e comida picante.

Serve a desculpa que todos fizeram o melhor do seu pior? 

Tenho pena que as bestas abrandem o mundo!

Esta é a insustentável leveza de um universo que não se move nem muito menos levita de tão feio e pesado.

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