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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

17
Nov20

Aniversário do moço

Rita Pirolita

É o dia do moço, o que eu lhe chamo, o seu nome nunca saberão, não ecoa nas letras dos meus textos, é insondável para quem me lê, outras coisas não serão, as que eu aqui ponho para vos dar a conhecer propositadamente, sou eu assim a chorar para fora sem que me vejam ou sintam o sal das minhas gotas de iris!

Do moço tenho pouco mais de uma década de conhecimento, quando fizermos, se fizermos, bodas daquele brilhante metal, já estaremos sem nos dar conta da companhia talvez. 

Expresso aqui o meu apreço por aturar a minha inquietação, a minha amizade por ser cúmplice, o meu gostar por ser bondoso, eu também sou algo assim para esses lados mas só a ele mostro, dos outros escondo, ele mostra, já não a muitos mas ainda cai onde não deve, a minha preocupação é protegê-lo e avisá-lo para que não lhe deixem mossa na bondade, para que não se transforme em revolta, ódio ou vingança, dizem que os escorpiões são dados a essas maleitas do feitio, que não se ponha a jeito, que se encolha nas palavras que eu cada vez mais faço de muda.

A força do meu abraço é o quanto eu gosto, eu tenho muita força e aperto muito, quase a estalar os ossos.

Se soubessem o quão gosto do moço? Ele sabe mas ainda não tudo, vai sabendo, conforme a vida me dá ganas para lhe mostrar o que ainda também não sei!

19
Jul20

Coitadinhos, enconados e demais aleijadinhos

Rita Pirolita
Nunca sei como começar mas depois de o fazer lá sai enxurrada de coisas certas ou desacertadas, umas loucas outras quase insanas mas nunca nada contido.
Reunam-se à volta da fogueira das vaidades e vejam lá a quem serve a carapuça! 
Como se distingue uma pessoa enconada?
À distancia, a grande distância, até cheira a chamusco mafarrico. 
Costumam ter um ar social-benevolente, na intimidade são mimados e egoístas e a cada par de cuecas que não é passado a ferro, clamam pela mãe que lhes valha e vá fazer aquele bacalhauzinho à Brás como só ela, que os consola e ainda arruma a casa ao mesmo tempo. 
Dizem que não sabem fazer nada fora do horário de trabalho que envolva algum esforço e criação, apenas estão sempre prontos para a lanzice na esplanada mais in lá do bairro, arrabaldes piores que o sítio do Pica-Pau Amarelo, onde foram criados como os reis de Loures ou Algueirão, antes de morrer os avós ainda tiveram tempo de meter na cabeça do incauto netinho ou netinha, que foram caseiros do Barão da Mula Russa, gente importante na quinta que ali existia da qual apenas sobra um muro pintado de graffitis, ao lado do canal de esgoto a céu aberto que dizem ser uma ribeira para escoar águas pluviais.
Convencem-se que a vida será fácil se tirarem um curso que os papás pagam e depois é só comprar um apartamento muito perto dos progenitores que também entraram e bem com a lã para obtenção do empréstimo, para depois passarem lá a vida a limpar e a levar sopa em Tupperwares, porque os filhotes são uns aleijadinhos das mãos e não os ensinaram a fazer nada nem a saberem desenrascar-se. Mais valia mantê-los em casa, sempre estavam mais perto para limpar o rabinho e o cheiro ficava num só lar.
Criaram monstros gordos e sugadores que precisarão sempre de tudo, dependem de todos como de ar para respirar. 
Comigo morriam asfixiados logo no primeiro minuto de enconadice. 
Os coitadinhos, eles andam aí...
Também se distinguem bem ao longe pelo semblante macilento e amarelinho icterícia, ao perto emanam uma energia chupista, olhar vidrado e fixo, vampiros de boas vibrações, zombies que assombram a nossa vida e aparecem atrás de cada porta a acreditar nas piores previsões do zodíaco.  
Estes são os das depressões crónicas, pessimistas a tempo inteiro e nas horas extraordinárias que atraem tudo de mau porque o seu nascimento já foi o azar dos azares que se queixam como ninguém a ver se levam mais alguns para o fundo do poço onde estão sentados de rabo frio e húmido.
Nada lhes corre bem e a vida dos outros será também uma amaldiçoada e previsível fonte de tristeza e infeliz destino, tudo dominado pela inveja e medo da mudança, sentem-se mais seguros e quentinhos na merda porque já lhe conhecem o cheiro e o tépido aconchego e combater a agorafobia da liberdade a perder de vista, cansa e não deixa espaço para reclamações.
O denominador comum a estes dois grupos é que parecem um encosto, fazendo uso da terminologia espirita, uns não se desenrascam e outros enrascam tudo, não desamparam a loja, numa melice peganhenta e sempre dependente de alguma coisa, das suas coisinhas, o carrinho novinho sempre limpinho, o computadorzinho XPTOzinho, o tele-movelzinho última geração que a mamã deu...
Depois existe o grupo dos aleijadinhos e não venham cá com o mimimi das susceptibilidades feridas, eu chamo as coisas pelos nomes, vou directa ao assunto para que todos me entendam bem, porque se andarmos a chamar aos pretos, cara de merda e aos brancos cara de cu o insulto começa a subir de tom e não tenho jeito para mediar causas perdidas! 
Ponham os olhos nos aleijadinhos!
Estes são mesmo os deficientes, aleijados, incapacitados...na sua maioria a nível fisico, felizmente a outros níveis dão 10 a 0 a toda a gente normal que não sabe o bem que tem em ter nascido com braços e pernas mas muitas vezes sem um cérebro de jeito.
Os aleijados tiveram uma merda de sorte mas têm uma puta duma força e não se comparam à maioria dos normaizinhos que bem mereciam levar com uma marreca, cegueira, paralisias e outras coisas mais para cima de verrugas, só para terem noção dos verdadeiros atrasados mentais que são e como andam cá a atentar a vida dos outros...voltem para a cona da vossa mãe! 
Existe depois um grupo residual que nelas se traduz numa vida que acaba na ponta da unha de gel e neles na ponta da barba hipster, não convém partir uma ou cortar a outra.
Notaram alguma raiva ou revolta na minha descrição? 
Se calhar não estão longe da verdade, é que eu não encaixo em nenhuma destas definições, nem é uma questão de falta de noção, foi mesmo a puta da vida que me ensinou para sempre e bem.
Nunca tive ninguém que me desse alguma coisa de graça sem cobranças posteriores, por isso aprendi a não precisar de nada, nem ajuda nem dinheiro. 
Aprendi a não confiar nem desconfiar, espero que se mostrem e espalhem na primeira curva, eu fico a ver de longe o suficiente para não levar nem com um salpico de merda em cima. 
Nunca me comprometo nem prometo, sou sempre coerente e honesta comigo, os outros não precisam dessas preciosidades da minha parte.
No fundo quase de certeza tenho dor de cotovelo e uma invejazinha que até corrói.
Secretamente gostaria muito de ter sido uma mimada, nascida em berço de ouro, sempre amparada por mãozinha divina e com uma sorte diabólica...ia-me portar bem que nem uma cabra e seria obediente que nem uma mula!
18
Dez19

Mistura bombástica

Rita Pirolita

A mistura encapotada e falsa de culturas e classes sociais diferentes no mesmo espaço, foi sempre apanágio de grandes cidades em países ricos, que se querem mostrar inclusivos e civilizados, quando em países pobres essa separação é descaradamente propositada. 

As classes são falsamente criadas pelas elites, para distrair da escravização, domínio e controlo pela ignorância, com degladiações e falsas lutas por melhores condições que nunca serão alcançadas.

A pobreza e dependência económicas dos mais desfavorecidos, é criada pelo próprio poder instalado para controlo de actos e ideias de uma forma barata, traduzida em subsídios  que fazem o favor de manter a pobreza sem morte por abandono completo, pela qual o estado não quer ser responsabilizado nem pode ser culpado.

Ajudas poucas, o suficiente para não deixar morrer mas também não deixar mudar a condição social, tudo acompanhado neste melting pot de abandono escolar, pouco interesse com o que se passa fora do bairro, e criação de algumas iniciativas que funcionam numa área muito restrita da comunidade e que o poder local vende como sendo o caminho para uma vida melhor.

É pura ilusão mas tem que se dar ao povo pão e circo, fazê-lo acreditar que só disso deve viver. Se viverem com pouco também não podem pedir nem ansiar por muito.  

Enquanto populações desfavorecidas viverem de subsídios do estado, irão sempre ter a atitude e pensamento de reclamar  e se aproveitar de direitos sem cumprir deveres, as classes massacradas pelos impostos sentem-se mais responsáveis por preservar os espaços que ajudaram a pagar.
Diferentes culturas e costumes nunca convivem pacificamente, principalmente quando a tentativa de mistura é vista no seio de cada grupo como ameaça à sua identidade e costumes, respondendo a essa inclusão forçada com violência, destruição, revolta e consequente marginalidade. 

Cada bairro ou comunidade, podia ser visto e sentido como um jardim, que tem que ser cuidado com orgulho e concorrente com vizinhos igualmente bons.

Os resultados nesta área ao longo dos tempos, são a prova de atropelos atrozes à identidade pessoal e comunitária mas os estudiosos de algibeira, continuam a insistir na mistura bombástica dos outros mas bem longe deles, porque ganham bem, saem cedo e moram na Lapa!

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