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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

09
Ago20

Boîte de fronteira

Rita Pirolita
 
 
A cada dois meses pelo menos, o meu corpo faz um upgrade involuntário e automático do programa de GPS e baralha-se todo, nesta idade de mudança à qual chamo carinhosamente com alguma raiva, a segunda adolescência da meia-idade. 
Tira-me do sério umas vezes sentir-me balofa e outras seca que nem carapau; umas vezes livrar-me de tudo e outras guardar toda a merda; andar deprimida e um pouco menos deprimida; irritada e um pouco menos irritada; começar a ver braços e coxas de manatim em qualquer espelho ou montra que reflita o meu vulto de elefante...sinto-me um trambolho!
Sinto-me tão sexy como um transformista camafeu reformado que ainda trabalha para matar a fome, numa qualquer boîte de fronteira.
Quem disse que as mulheres melhoram com a idade como o vinho do Porto?
Só mesmo os homens poderiam ter inventado esta expressão, para nos saltarem para a espinha sem terem que aturar as nossas queixas de pneus, pandeiro grande e falta de senso porque já não temos 20 anos e gostávamos tanto! 
04
Ago20

Esquecida de mim

Rita Pirolita
Tenho uma curiosidade muito controlada e moderada de saber quem me lê mas muita curiosidade desmedida em saber o que sente quem me lê. 
Se são altos, pobres, de olhos azuis ou ruivos, reformados, novos, de meia-idade...Pouco me importa, a alma não é gorda ou magra mas pode ser cheia, vazia ou preenchida e o coração sem querer será sempre uma bomba de sangue, quente e viscoso! 
Quem me gosta, quem me desgosta e se desilude, como é esse processo de arregalar os olhos em frente a um texto do meu blog no écran de cada um? 
Arregalam os olhos de surpresa ou semicerram de raiva, incompreensão, confusão ou indignação? 
Sou assaz social se não me exigirem que o seja por muito tempo ou por imposição, sempre sem compromisso mas se me esquecerem numa ilha deserta de gente nunca mais dou sinais de vida, facilmente me entretenho e me distraio com o mundo que me rodeia, por mais pequeno que seja vejo sempre pormenores diferentes sem limite de imaginação. 
Desenho um mar, pinto um céu ou escrevo, escrevo muito sobre tudo e nada como agora que estou para aqui sem a certeza de querer interagir com os que me lêem ou na senda de apenas os agitar?...
Muitas vezes tento estancar esta sangria de ideias, este turbilhão de inspiração que me desinquieta sobremaneira que não me larga nem deixa em paz.
Se quiserem dizer alguma coisa não escrevam cartas nem façam sinais de fumo é mais prático depositarem na caixa de comentários abaixo...
Se não já sabem...estou na ilha esquecida de vós e às vezes de mim!
25
Jul20

Policias dos outros e de nós

Rita Pirolita
Preparados para a mentira em banho maria, mais que desacreditar, somos polícias munidos de insultos com pouca opinião e muita raiva, pequeninos jornalistas de parangonas a viver de likes. 
Alguns dizem que Zuckerberg controlará o mundo a partir de Silicone Valley, como qualquer mortal que tem poder da noite para o dia quererá ser imperador do mundo, ter a informação de crédito de muitos, da orientação politica, dos desejos  e vícios. 
Sentir importância no Twitter ou Instagram, termos a ilusão de mudar o mundo, de sermos notados mas estamos todos controlados por publicidade mudada ao minuto, ao sabor  do nosso humor, para nos condicionar e iludir na liberdade de pensamento.
Que nos interessa saber se quem está do outro lado é real ou falso, se queremos todos os dias alhear-nos da realidade da nossa vida com enganos de construir carreira, educar bem os filhos, fazer melhor aos amigos, sermos bondosos e altruístas...todos queremos ser grandes imperadores do nosso pequeno mundo e sair logo de manhã a dominar ou pelo menos a não nos deixarmos engolir por outros miseráveis imperadores! 
Se o ilusionismo sempre foi admirado e passa-se à frente dos nossos olhos, se todos os grandes homens se fizeram no logro, mentira e alienação para chegarem ao poder, porque não sermos enganados sem ver o mentiroso e nem querer saber do crédito na verdade, tudo é baralhado a velocidade alucinante. 
Esta luta não se fará minha!
Cada vez mais quero viver num sítio com poucos ou quase nenhuns, ser feliz a saber pouco do mundo e que o mundo quase nada saiba de mim!
19
Jul20

Coitadinhos, enconados e demais aleijadinhos

Rita Pirolita
Nunca sei como começar mas depois de o fazer lá sai enxurrada de coisas certas ou desacertadas, umas loucas outras quase insanas mas nunca nada contido.
Reunam-se à volta da fogueira das vaidades e vejam lá a quem serve a carapuça! 
Como se distingue uma pessoa enconada?
À distancia, a grande distância, até cheira a chamusco mafarrico. 
Costumam ter um ar social-benevolente, na intimidade são mimados e egoístas e a cada par de cuecas que não é passado a ferro, clamam pela mãe que lhes valha e vá fazer aquele bacalhauzinho à Brás como só ela, que os consola e ainda arruma a casa ao mesmo tempo. 
Dizem que não sabem fazer nada fora do horário de trabalho que envolva algum esforço e criação, apenas estão sempre prontos para a lanzice na esplanada mais in lá do bairro, arrabaldes piores que o sítio do Pica-Pau Amarelo, onde foram criados como os reis de Loures ou Algueirão, antes de morrer os avós ainda tiveram tempo de meter na cabeça do incauto netinho ou netinha, que foram caseiros do Barão da Mula Russa, gente importante na quinta que ali existia da qual apenas sobra um muro pintado de graffitis, ao lado do canal de esgoto a céu aberto que dizem ser uma ribeira para escoar águas pluviais.
Convencem-se que a vida será fácil se tirarem um curso que os papás pagam e depois é só comprar um apartamento muito perto dos progenitores que também entraram e bem com a lã para obtenção do empréstimo, para depois passarem lá a vida a limpar e a levar sopa em Tupperwares, porque os filhotes são uns aleijadinhos das mãos e não os ensinaram a fazer nada nem a saberem desenrascar-se. Mais valia mantê-los em casa, sempre estavam mais perto para limpar o rabinho e o cheiro ficava num só lar.
Criaram monstros gordos e sugadores que precisarão sempre de tudo, dependem de todos como de ar para respirar. 
Comigo morriam asfixiados logo no primeiro minuto de enconadice. 
Os coitadinhos, eles andam aí...
Também se distinguem bem ao longe pelo semblante macilento e amarelinho icterícia, ao perto emanam uma energia chupista, olhar vidrado e fixo, vampiros de boas vibrações, zombies que assombram a nossa vida e aparecem atrás de cada porta a acreditar nas piores previsões do zodíaco.  
Estes são os das depressões crónicas, pessimistas a tempo inteiro e nas horas extraordinárias que atraem tudo de mau porque o seu nascimento já foi o azar dos azares que se queixam como ninguém a ver se levam mais alguns para o fundo do poço onde estão sentados de rabo frio e húmido.
Nada lhes corre bem e a vida dos outros será também uma amaldiçoada e previsível fonte de tristeza e infeliz destino, tudo dominado pela inveja e medo da mudança, sentem-se mais seguros e quentinhos na merda porque já lhe conhecem o cheiro e o tépido aconchego e combater a agorafobia da liberdade a perder de vista, cansa e não deixa espaço para reclamações.
O denominador comum a estes dois grupos é que parecem um encosto, fazendo uso da terminologia espirita, uns não se desenrascam e outros enrascam tudo, não desamparam a loja, numa melice peganhenta e sempre dependente de alguma coisa, das suas coisinhas, o carrinho novinho sempre limpinho, o computadorzinho XPTOzinho, o tele-movelzinho última geração que a mamã deu...
Depois existe o grupo dos aleijadinhos e não venham cá com o mimimi das susceptibilidades feridas, eu chamo as coisas pelos nomes, vou directa ao assunto para que todos me entendam bem, porque se andarmos a chamar aos pretos, cara de merda e aos brancos cara de cu o insulto começa a subir de tom e não tenho jeito para mediar causas perdidas! 
Ponham os olhos nos aleijadinhos!
Estes são mesmo os deficientes, aleijados, incapacitados...na sua maioria a nível fisico, felizmente a outros níveis dão 10 a 0 a toda a gente normal que não sabe o bem que tem em ter nascido com braços e pernas mas muitas vezes sem um cérebro de jeito.
Os aleijados tiveram uma merda de sorte mas têm uma puta duma força e não se comparam à maioria dos normaizinhos que bem mereciam levar com uma marreca, cegueira, paralisias e outras coisas mais para cima de verrugas, só para terem noção dos verdadeiros atrasados mentais que são e como andam cá a atentar a vida dos outros...voltem para a cona da vossa mãe! 
Existe depois um grupo residual que nelas se traduz numa vida que acaba na ponta da unha de gel e neles na ponta da barba hipster, não convém partir uma ou cortar a outra.
Notaram alguma raiva ou revolta na minha descrição? 
Se calhar não estão longe da verdade, é que eu não encaixo em nenhuma destas definições, nem é uma questão de falta de noção, foi mesmo a puta da vida que me ensinou para sempre e bem.
Nunca tive ninguém que me desse alguma coisa de graça sem cobranças posteriores, por isso aprendi a não precisar de nada, nem ajuda nem dinheiro. 
Aprendi a não confiar nem desconfiar, espero que se mostrem e espalhem na primeira curva, eu fico a ver de longe o suficiente para não levar nem com um salpico de merda em cima. 
Nunca me comprometo nem prometo, sou sempre coerente e honesta comigo, os outros não precisam dessas preciosidades da minha parte.
No fundo quase de certeza tenho dor de cotovelo e uma invejazinha que até corrói.
Secretamente gostaria muito de ter sido uma mimada, nascida em berço de ouro, sempre amparada por mãozinha divina e com uma sorte diabólica...ia-me portar bem que nem uma cabra e seria obediente que nem uma mula!
14
Jul20

Os eleitos que caíram do céu

Rita Pirolita
A sociedade cria resultados maus que depois quer condenar social, legal e moralmente, como se criasse filhos e depois os castigasse pelo mau comportamento fruto da má educação que lhes deu!  
Somos todos deste planeta e isto não é de todo nenhum sentimento de impunidade para com quem mal provoca, mas será que vamos matar com ferros quem com ferros mata, combater a guerra com guerra para conseguir a paz? 
Andamos a fazer isso há milhares de anos e veja-se o resultado... 
Por usarem gasolina no vosso carro para se deslocarem para o trabalho, não têm um pouco de responsabilidade, inevitável dizem vocês, para desculpar e acalmar a consciência e porque o mundo assim está construído, nas guerras e regimes assentes no ouro Negro no Médio Oriente, Africa e América Latina?  
Quem atira a primeira pedra com ódio e raiva gostaria de ser julgado em praça pública pelos seus erros mesmo que os tivesse praticado com pouca assunção de responsabilidade, por exemplo na adolescência e não ter hipótese de corrigir? Ou são todos uns santos?  
Os homens e mulheres de amanhã agem de acordo com a educação que lhes dão, se for sem tempo ou a correr com pouca atenção, teremos o resultado equivalente. 
A vida é feita de causas e consequências e quanto menos responsáveis menos livres.  
Precisamos de gerações depuradoras dos educadores coxos que temos, que não conseguem eles também ser saudáveis pelo imposto ritmo alucinante de vida e falta de tempo! 
Será que conseguimos benfeitores espontâneos, que se livrem da pesada consequência, exorcizem os traumas e que reajam por oposição à má prática? 
O comportamento humano não pode ser analisado como se de um robot se tratasse.
A pedófilia por exemplo, tem tanta cura como há muitos anos atrás se dizia que a homossexualidade era uma doença. 
O cancro é uma doença inerente à existência de seres vivos e apesar de a cura estar neste planeta, não andamos à procura dela noutra Galáxia, anda a indústria farmacêutica a adiá-la em nome de fazer dinheiro à custa de sofrimento que já poderia ser evitável, de tratamentos violentos que nem garantem grande sucesso mas mantêm os doentes vivos, sem serem saudáveis! 
Por outro lado somos suficientemente parvos para não aproveitarmos os recursos que temos e deixarmos gente a morrer à sede e à fome e depois irmos para Marte à procura de vestígios de água!
Crianças abusadas e pedófilos, são também o retrato da humanidade, umas vezes abusados outras vezes abusadores, vitima e agressor não existem um sem o outro, neste caso a defesa é desequilibrada, por força maior de um adulto que encontra na criança um alvo fácil para dominar, os papeis alternam. 
O tratamento de crianças abusadas nunca foi negado e falar no acompanhamento de pedófilos não quer dizer que estejamos a pactuar com os seus actos desviantes.
Não podemos continuar a tratar as vitimas como coitadinhos apáticos e os agressores como monstros de outro planeta, sem causa aparente, gente apenas doente e coitada.
Ninguém está livre de cometer delitos, a gravidade dos mesmos exige soluções à altura. 
A lei de anular quem não é normal sempre existiu e continua a existir e isso mostra um grau civilizacional baixo da humanidade que não consegue comportar os seus erros.
Ah esperem, os malucos criminosos deixam de ser humanos, essa é a sua condenação? Impossível de aplicar! 
Quando a educação é má ou inexistente, as crianças ficam ao abandono, à mercê de adultos que lhes fazem mal porque também eles são mal formados. 
Se amor-próprio e autodeterminação existissem, não haveria lugar para humilhações deste tipo de seres tão pequenos que absorvem tudo o que lhes fazem, ficam traumatizados e vingam-se noutros sob variadas formas de abuso, humilhação, violência, violações, guerras, homicídios.
Daí não causar admiração o resultado de um estudo recente entre adolescentes que aceitam e até acham normal, a subjugação no namoro por algum tipo de violência humilhação ou chantagem.
Afinal já todos fomos crianças e pertencemos ao mesmo planeta, percebem o ciclo de ódio que tem que ser travado e que algumas pessoas alheias ao assunto instigam? 
A melhor solução está nos envolvidos e não nos 'bonzinhos eleitos' que picam de fora e defendem o que não sabem, apenas baseados em nojo e pouca racionalização e aceitação do problema para assim o poder resolver. 
Separar, nós os bons e os outros, os maus, é o pior engodo de inclusão em que podemos cair!
Porque quando nada se resolve, mantemos o problema e continuamos a alimentá-lo.
Temos em mãos uma enorme solução a tomar, a própria humanidade que já caminha para a destruição desde a sua existência, porque não matá-la muito antes em nome da justiça dos 'bons' que parece vieram de Marte para nos salvar e até se elegeram a eles próprios??? 
Este é um caminho perigoso, cego e prisioneiro de falsos altruísmos, de gente que não sabendo o que diz ainda traz mais achas para a fogueira do mimo e das vaidades, que arde sem se ver e queima sem saber!
28
Jan20

Burros e ovelhas

Rita Pirolita
Muitos na ânsia de mostrar bondade tornam-se agressivos!
Na ânsia da compaixão mostram raiva, pensam combater injustiça com vingança, serão assim tão altruístas ao ajudar a manter a pobreza de ideias?
Ao ler os comentários sobre uma notícia de um menino que tinha sido posto de parte no colégio por ter Síndrome de Asperger, chegou mesmo a ser expulso da turma a pedido de muitos pais, por a sua condição estar a prejudicar o ritmo de ensino dos restantes alunos, veio-me isto à cabeça!
E aqueles que viveram num tempo onde estas diferenças não tinham ainda sido catalogadas e se esperavam resultados medianos para passar, as negativas eram selectivas e as excelentes notas eram discriminatórios.
Quem era usado como bom exemplo pelos professores cá fora era trucidado por malvadez.
Quem se esforça por ser melhor ou o é naturalmente, é uma ameaça e eleva a demanda de objectivos. 
Uns atrasam e outros apressam, será que os poucos restantes devem tentar acompanhar o ritmo da maioria ou devem ser ainda mais isolados para estimular ou rentabilizar o rendimento?
Os ostracizados não serão todos os que são diferentes mas não querem impor essa diferença a ninguém, apenas querem ter a liberdade de viver e explorar porque não se sentem diferentes, os outros é que os vêm assim? 
O ensino é uma tentativa de chamar a todos burros e empenhado em criar ovelhas desde sempre.
05
Dez19

Dores dos outros

Rita Pirolita
Quem toma as dores dos outros, normalmente acusa o toque para si! 

Passo a explicar, por causa desta merda estou quase a deixar de comentar com algum afinco mordaz, artigos e textos e começar a javardar a toda a força ou deixar de dar a minha opinião de todo, com piada ou sem!

Se faço um comentário sobre abelhas, respondem-me com moscas, ou porque são alérgicos a picadas de abelha ou porque as moscas os seguem invariavelmente para todo o lado e já todos sabemos do que é que as moscas gostam?... 

A maioria gosta de exorcizar a sua raiva, arranjando pretexto na distorção das palavras e atribuindo impressões a quem nada tem a ver com elas. 

Na pressa de julgar, deitar abaixo com fel, de não compreender nem fazer um esforço para aceitar perspectivas novas e diferentes, são polícias dos outros e assaltam bancos nas horas vagas!

Os que proclamam com veias inchadas no pescoço, o direito à partilha e opinião, são os primeiros prisioneiros das suas lutas e os últimos a praticar o que gritam!
30
Nov19

Peregrinos enfurecidos

Rita Pirolita
 
Domingo, 14 de Maio de 2017:
Centenas de peregrinos aguardam há horas, proferindo injúrias e empunhando bilhetes que abanam vigorosamente no ar em gesto ameaçador, com a mesma força que abanaram os lenços brancos no adeus ao Papa e à Virgem,  reclamam assim por autocarros que os levem de volta a casa. 

Depois de  dias em oração, comunhão, bondade, calma, meditação, introspecção...vem ao de cima a verdade do povo, embriagada de fúria, indignação, raiva, impaciência, atropelo, discussões, desmaios...

Era só isto, deixo no entanto uma pergunta em jeito de constatação, que não me apoquenta e para a qual já tenho resposta faz muito tempo: 

Onde está a elevação espiritual, a coerência dos actos, a aceitação, o equilíbrio, o milagre da fé, o altruísmo? 

A luta pelo melhor lugar ao Sol continua, os desgraçados irracionais estão na rua. Ingratidão.
18
Out19

Pegada de dinossaura líder

Rita Pirolita
 
 
Eu fui uma dinossaura líder. Passo a esmiuçar a sentença.
 
Certo dia andava eu a saltitar numa tarde quente de verão, quando um trolha que andava a cimentar o passeio à volta do prédio me pediu para chegar perto dele e tirar o chinelo.
Eu, qual princesa morena, sem sapato de cristal, sem príncipe ou carruagem e com um enorme para a minha idade mas proporcional à altura, acedi ao pedido, aproximei-me, atirei o chinelo para o lado à rufiona e dispus o meu aos encantos das suas ásperas mãos, delicadamente pegou-me pelo tornozelo, levantou-me o do chão e com precisão pressionou-o contra o cimento fresco, eu não disse nada mas ele percebeu pelos meus olhos que aquele momento tinha sido de uma importância únicainolvidável para o resto da minha vida...
De facto aqui estou eu a lembrar-me desta passagem como se fosse ontem e se não esqueci até hoje não esquecerei até morrer!
Se ainda não deitaram o prédio abaixo ou não renovaram o passeio, a minha pegada continua por lá!... 
 
Noutro dia de verão, no mesmo sítio, ou melhor no pinhal onde brincávamos junto aos prédios, um cigano do outro lado do vale, do nada resolveu passar-me uma rasteira, não me lembro se antes lhe tinha feito alguma coisa, se calhar fiz, eu também não era boa de assoar, caí desamparada no chão, quando me levantei ainda atordoada comecei logo a correr atrás dele, ele ao tentar escapar da retaliação foi apanhado por 4 rapazes do meu grupo que o encostaram a um carro e agarrando-o pelos braços o puseram claramente à minha disposição para fazer o que me desse na cabeça, não pensei duas vezes, com a raiva que tinha desatei ao pontapé e à chapada mas passados 3 segundos pareceu-me que a vingança estava feita e a partir dali seria uma injustiça e cobardia continuar a bater em alguém que não se podia defender, assolou-me a pena, fiz sinal para os meus colegas o largarem e lá foi ele para casa a resmungar com promessas de mais violência na próxima vez que me encontrasse, que seria no dia a seguir na escola...
Não aconteceu mais nada entre mim e ele, parece que ficamos quites. 

Se na pegada me senti princesa aqui senti-me rainha controladora do povo, dominadora de massas e ideias, capaz de mobilizar ordes de seguidores para atingir os meus fins, qual wonder women com poderes extra-humanos.
 
Foi bom mas ainda bem que eu era apenas uma criança na pequenez do seu poder malévolo e naif!
Esta não seria de certeza uma pegada que eu gostaria de deixar no mundo.
 
22
Set19

Eu sou...sei lá

Rita Pirolita
 
Quem leia os meus textos pode pensar que sou louca, que me estou a marimbar para tudo, que não levo ninguém a sério nem a mim própria, que me rio de toda a gente mas nem toda a gente se ri de mim.
 
Eu sou tudo isto num comportamento bipolar de riso, choro, depressão e euforia.
 
O que querem? Nasci para ser rapaz, saiu miúda, para me portar bem espontaneamente sem exemplos de boa educação, para não ser artista que isso não dá dinheiro, para tirar um curso e ter filhos de alguém da classe média alta.
Nada disto até agora, nem à vista.
 
Outros ainda podem pensar que destilo ódio numa escrita com raiva e sofreguidão ou que sou acutilante com poucas ilusões mas muitos sonhos. Que sou poeta da banha da cobra ou prosista das causas pequenas e pequeníssimas.

Também posso ser tudo isto mas de certeza sou aquilo que escrevo e muito mais, com muita pressa de aprender e menos de envelhecer.

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