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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

14
Jul20

Tudo igual

Rita Pirolita
Se me fizerem a mais que gasta pergunta, onde estavas no 25 de Abril de 74? 

Eu respondo que apesar de um par de anos por essa altura me lembro da minha mãe feita barata tonta a arrepiar sapatos no soalho de tacos grossos, alguns levantados, rádio ligado a medo e logo desligado a seguir, vezes sem conta por receio que a revolta entrasse à boleia das ondas hertzianas. O meu pai agarrado à nicotina a ressacar por falta de SGFiltro, a pensar ir a Cacilhas comprar tabaco por que tudo tinha fechado e Cacilhas era o buraco mais sujo que garantidamente estaria aberto mesmo em dia de revoluções irrepetíveis.

Eu devia andar por ali a cirandar e de vez em quando lá a minha mãe me agarrava que não sabendo o que pensar de tal situação muito menos saberia o que fazer com mais uma à sua responsabilidade, ainda sem idade para entender a revolução iria ser sua filha forçada, parida no Estado Novo e abandonada aos que destruiam, não comiam nem deixavam comer, fugidos os ricos voltaram depois da Reforma Agrária para pegar no poder que deixaram em suspenso.

De uma pobreza extrema como ervas daninhas cresciam num jardim inculto crianças ranhosas, agora obrigadas a ir à escola ou literadas à distância de uma inovadora tele-escola!

De divórcios em barda ficou a capital cheia, mini-saias, cabelos oxigenados e fumadoras, licenças de isqueiro para o catano e soutiens para o galheiro. 

Estagnação e miséria continuaram no interior e zonas rurais ali mesmo aos pés da cidade, as viúvas continuariam de negro como as ciganas, até ao fim da vida, as sopeiras sofreram empurrão para casar e se arrumarem com o mais composto e de posses que aparecesse.

Comunistas convictos que viviam sem televisão ou carro a reboque dos comunistas mandatários e capitalistas, a AD e a APU conviviam nas paredes de qualquer bairro, os cartazes dos vários partidos, demais, acumulavam-se em camadas de cola-ranho a pincel, em luta que contínua do povo que jamais será vencido, lado a lado com anúncios de touradas.

Idas a Fátima, por mais sacrifício que se fizesse tirar pão da boca para dar aos santos de pedestal e ao cura ainda respeitado, violador de todas as regras de uma vida com parcimónia teatral, abuso descarado nos prazeres da comezaina e beberrice e mais escondido o salivar por carnes fêmeas e bezerras!

Todos a trabalhar e a reclamar para ganharem tanto como o patrão, greves e sindicatos, cooperativas desfalcadas, políticos oportunistas. 

Que todos tenham direito a pão, saúde e ensino, o trabalho dignifica, não aos escravos do campo que nos dão a comida, cursados em classe média começaram a ter e saber demais, nem todos podem ser ricos, é melhor que sejam mais os pobres, amofinados e controlados, sem casa grande de ostentar, enfiados e arrumados em drogas e quezílias. 

O progresso travado traz libertinagem, falsa liberdade e servilismo.

Deixamos sempre passar tempo demais para nos esquecermos que quase tudo está igual.
30
Nov19

Sr. António

Rita Pirolita
Um dia estava eu sentada com o moço num passeio, à beira de uma estrada, à saída de um qualquer supermercado, a comer sushi embalado, num pedaço de paraíso plantado no meio do Pacífico, estávamos esfomeados mas alegres que nem viajantes de pé descalço, entre gargalhadas e engasgos com bagos de arroz e wasabi, passa um homem de meia idade que nos olha por breves instantes e pergunta em jeito de afirmação convicta, 'São mesmo felizes os dois, não são?
Sem ficar à espera de confirmação, porque já tinha a resposta nos nossos olhares, acenamos que sim com a cabeça, só para o confortar e dizer que não era preciso ser bruxo para ver isso, mas é preciso ser especial para sentir felicidade pela felicidade de estranhos e ainda mais verbalizar. 
Este foi o comentário mais honesto, curto e expontâneo que recebi na vida e não vou esquecer nunca.
 
Um dia, continuava eu sentada com o moço ao lado mas desta vez no meio da Oceânia, dentro de uma carrinha alugada a cair de podre, a comer uma sandocha ao lusco-fusco de um belo sunset, quando sintonizo na rádio a língua portuguesa, que já não ouvíamos há pelo menos mais de um mês, demos um salto porque quem botava discurso nessa emissão era a voz vomitada de Anibal Cavaco Silva, nem demos hipótese e fizemos logo ali o funeral, desligamos o rádio, não sem antes lançarmos umas gargalhadas e o jantar acabou em silêncio introspectivo até o sol desaparecer e a noite acordar. 
Este foi o momento mais assustador da minha vida que devia ser esquecido mas a personagem em questão continua a ser uma traumatizante assombração mumificada.
 
Um dia estávamos numa rua de Innsbruck no meio da Áustria a falar um com o outro e passa um português, que por ouvir a língua materna parou ao cruzar-se connosco e nos perguntou se precisávamos de ajuda.
Passados 10 minutos de matar saudade com recordações da comida, do idioma e conterrâneos, este simpático cozinheiro convidou-nos para jantar num restaurante ali perto com um casal amigo, ao que dissemos logo que sim e preparados para pagar a conta de muito boa vontade a gente tão simpática. 
Pagou ele o jantar, por ser cliente habitual e ter vantagem nestas combinações com os empregados, atitude que todos nós bem conhecemos e também praticamos ao bom jeito tuga, com um simples piscar de olho ao patrão, no bar da nossa rua ou no local onde crescemos e onde de vez em quando fazemos uma visita, para pagar umas jolas aos amigos de infância. 

Pensávamos nós que a noite ficava por tão gentil gesto e boa conversa bem regada com cerveja, quando somos levados a um bar enorme, transformado em salão de baile, que em noite de 4a feira os ritmos latinos atiravam para o meio da pista, corpos suados e desajeitados, uns mais que outros. 
Saímos já era noite cerrada, para ruas calmas com gente pacifica em fim de festa, a caminho do hotel trocamos contactos e dicas, pois ainda continuávamos viagem e o Sr. António já andava por aquelas paragens há muitos anos, com família deixada em Portugal. 
Este contacto manteve-se até hoje, sem obrigação, com emails curtos mas personalizados, pelo Natal e Páscoa

Esta foi a atitude mais desinteressada e bondosa, de um desconhecido mas extraordinário anfitrião, que guardei na minha mochila de viagem. 
É esta a primeira pessoa em que penso se ganhasse o Euromilhões e mesmo assim não pagaria o impagável.
Se isso não acontecer, prometo aqui ao Sr. António, pelo menos uma visita com umas boas garrafas de vinho e um abraço cheio de Portugal, para isso ainda tenho algum dinheiro e ânimo não me falta.
Um brinde ao Sr. António!!!

 

20
Nov19

Patilhas e Ventoinha

Rita Pirolita
Faço algumas viagens saudosistas ao passado, marcadas por sensações, cheiros e sobretudo por músicas de anúncios e vozes da rádio.

Andou lá por casa um rádio portátil que comia quatro pilhas por semana, já tinha caído ao chão e mantinha-se agregado por fita adesiva de tecido, sobreviveu anos a fio com algum sebo da transpiração entranhado em todas as suas ranhuras, já ouvia dizer, 'não limpes muito que as coisas estragam-se.'

A televisão era ainda a preto e branco, em final diário de emissão presenteava-nos com o hino nacional com a bandeira portuguesa de fundo, qual canção de alvorada, logo de seguida vinha a mira técnica e um piiiiiiiiiiiiii que furava os ouvidos e nos levava a desligar logo a caixa mágica, sempre protegida por um filtro que desconfio fazia mais mal que bem aos olhos, também não havia tele-vendas toda a noite para estragar as vistas, à noite dormia-se.
 
Quanto àdio, lembro-me tão bem do anúncio do Boca Doce que tinha a mesma canção na versão televisiva com avô e neta mas sem dúvida o destaque ia para os reis da investigação, muito melhores que o Sherlock Holmes e eram eles, Patilhas e Ventoinha!
Portas que rangiam, passos apressados, pezinhos de que não se ouviam na rádio, só imaginávamos. 
Não me lembro especificamente de história nenhuma, lembro-me de uma voz masculina vulgar e outra também masculina mas de cana rachada, quase a tocar o tom de palhaço. Não me lembro qual era de quem mas não as esquecerei nunca.

Bonnie & Clyde nunca lá puseram os pés, Patilhas e Ventoinha teriam dado cabo do coiro aos meliantes armados em amantes escaldantes, eram logo escorraçados.
Naquela altura não havia cá poucas vergonhas, "só debaixo do pano" com Ney Matogrosso.
Termino assim esta viagem de memórias, com emissão pela noite dentro do Oceano Pacífico, em voz segredada...
 
 

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