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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Ago20

Nenhum medo teremos

Rita Pirolita
A morte arrepia?... 
Cada vez menos quanto mais se aproxima.
Acabados de sair da boca do corpo para o mundo, ocupados com as dores de crescimento não pensamos no que estamos a pensar.
Em breve seremos adolescentes apaixonados em desespero de morte ou suicídio, tanto mais sofregos de alienação e sonhos quanto mais proibidos.
Desespero de momentos feitos eternos mas tão voláteis, de densidade incomportável por muito mais tempo. 
Sacudimos a vergonha e loucura de paixões passadas e tempo temos para aprender a crescer mais sem errar tanto.  
Olha-se para trás com nostalgia do fulgor, chegamos mais perto do gozo da quietude.
Pensamos na morte com mais clareza e um dia de tão perto estar nenhum medo teremos. 
04
Ago20

Menos sobressaltos, mais quietude

Rita Pirolita
Os velhos são danados, marretas, tristes, debochados, desbocados, raramente bem dispostos, cheiram mal ou a toalhitas húmidas, naftalina ou Old Spice, nunca a fresco acabado de lavar. 
Então eu agora que mais me aproximo da entrada na 3ª idade ando paranóica com a limpeza e cheiros corporais, felizmente fico pelo aroma ainda a lavado mas com um uso exageradíssimo de toalhitas por dia. Ideal para mim seria deter acções de uma fábrica de toalhitas e papel higiénico e teria um stock em casa até ao tecto, maior que o da Makro!
Cada vez mais tenho que ter medo de tomar banho para não morrer de pneumonia ou partir a bacia ou o fémur com uma escorregadela na banheira ou poliban!
Quanto ao feitio...vou refinar aquilo que sempre fui!
Além dos pormenores físicos e cheirosos denoto nos velhos uma queixa constante de netos que os visitam mais amiúde que deixam de visitar de todo ou filhos que trabalham muito e nunca têm tempo.
Os velhos arranjam todo o tempo do mundo que já têm de graça, tanto que até entedia. Pretextos? Todos e mais alguns para se juntarem à família nem que isso implique ir a qualquer sítio que detestem, passam a adorar tudo o que nunca lhes passou pela cabeça, já pouco importa, de outra forma ninguém lhes liga!
É nestas armadilhas de chantagem ou engano emocional que nunca cairei na vida por ausência de filhos e família. Andam embevecidos pela engraxadora doçura de parentes mais próximos que julgam ser a família de coração e por serem de sangue têm forçadamente que se dar bem. 
Eu que tenho pouca ou nenhuma família muito menos família com que me dê regularmente ou de vez em quando, não me dou bem nem mal, não me dou, assumí por isso desde muito cedo que prefiro não ter a ter falsos familiares, estou muito mais descansada, sem sobressaltos, não tenho ninguém que me ajude mas também não tenho quem me chateie ou empate.
Parece que desde muito cedo a maioria das pessoas se iludem a receber aparas de amor na forma de serem precisas e nunca preciosas ou desejadas.
Quanto mais explorados mais amados, mais dependentes uns dos outros. 
Qualquer carente que não conhece a essência do amor é sôfrego de cuidado e qualquer típico bom familiar se aproveita ao dar esmolas de atenção!
Não é melhor viver na verdadeira solidão que na enganosa companhia?
A lucidez de saber com o que contar sem esperar nada agrada-me e desempoeira a visão de um futuro descontraído, livre de compromissos, enquanto que os que constroem e alimentam ilusões com ofertas doentes e envenenadas estão na mão do abandono sofrido e surpresas muito más!
Faço questão de ter menos sobressaltos, mais quietude e contemplação!
25
Jul20

Animal de coice

Rita Pirolita
Muitas vezes me pergunto se sou normalmente humana e a resposta cada vez mais se aproxima da anormalidade e aberração associal que sou, não tanto anti-social.
Lá vou eu explicar mais uma vez sem me querer justificar ou desculpar.
Apenas faço constatações do animal que sou, adjectivado e muito bem pela minha mãe, umas vezes de 'mula ruça' outras de 'cabra do monte', pela precoce convicção e muita inquietude e agitação de alma e corpo! 
Na era tresloucada saía para socializar e me sentir normal e integrada, nunca fui de fazer amigos ou mesmo fidelizar conhecidos, saltitava com facilidade de grupo em grupo, nunca ficando ancorada às mesmas caras, hábitos e sítios, sempre foi um atentado à minha alérgica reacção à monotonia e pressão de corresponder às expectativas dos hábitos de jantarzinhos aos fins-de-semana, reuniões todas as noites no café do costume, aniversários e casamentos, batizados e funerais, bem a estes últimos não se escapa com facilidade, muito menos o morto.
Não procurando com quem desabafar, coisa que nunca me assistiu muito, não tinha também com quem me comprometer em confidências e mexericos! 
Esquivei-me assim de dar muita prenda e fazer sala em convívio forçado com hora e arranjinhos marcados, com que tentavam armadilhar a minha livre existência, por já ir ficando para tia e parecer mal ser maluca e libertina até tão tarde! 
Lá fui aproveitando o que me davam de bandeja, com a leviana assunção de que um dia se calhasse e se acordasse para aí virada, até 'assentava' a poeira mas não era meu interesse nem nunca esteve nos meus planos, ter filhos muito menos, esses nem pensar trazer ao mundo que já tenho uma trabalheira louca com o animal de coice que sou!
Tantas vezes altas horas da matina olhava à minha volta, atordoada por música ensurdecedora e pensava o que estava ali a fazer perdida em bebida e gente como eu, que preferia a dormência de noites mal dormidas para que os dias passassem mais alheios à desilusão de estarmos condenados a uma vida de trabalho de merda, com horários fodidos e ainda fodiamos mais a coisa numa espiral desesperante  de prazer nunca encontrado!
Passou-se a adolescência e grande parte da vida adulta em noitadas e agora da gente fujo, até fico doente com marcações seja do que for, não gosto que importunem a minha improgramável quietude!  
Arrasto-me na obrigação de em meia dúzia de vezes mostrar a mim própria que devo arejar a beleza e até ainda consinto um convívio curto, sem jantares ou coisas de monta, um café vá lá, para dois dedos de conversa.
Estão todos bem? Eu também! Até ao próximo ano, lá mais para o final mas sem ser no Natal ou Reveillon, Páscoa, Carnaval, feriados, aniversários, casamentos, funerais...o defunto que descanse em paz e não se incomode em avisar! 
O moço é que ainda me vai arrastando para alguns ajuntamentos, se não fosse ele por mim ficava longos períodos sem falta de gente, quietinha a fazer de conta que não existo! 
Embora faça uma tromba daqui ao Alasca e até chegue a ficar com febre e calafrios quando ele começa com combinações, lá acabo por ir e ser a mascote ou anfitriã da festa! 
Afinal sou um animal de palco e não tanto um bicho do mato!

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