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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Ago20

O vizinho contrafeito

Rita Pirolita
Estão a imaginar aquele vizinho de baixo que só conhecemos há dois dias mas já vivemos por cima dele faz mais de um ano? 
No Canadá é um achado conheceres o vizinho do lado quanto mais o de baixo, o de cima não posso conhecer, só se for Deus, porque vivo no último andar do meu querido apartamento, sempre posso dizer que o céu é o limite ou não?
Bem, imaginem também que a probabilidade de encontrar alguém normal nesta terra é como ver um porco a guiar uma mota, foi isso que não nos calhou na rifa como seria de esperar, somos tão amorosos que ao jogo só podemos ter azar!
Nem sei por onde começar, este vizinho é uma mistura de cocainado com serial killer, sem talvez nunca ter snifado uma linha que fosse ou até morto uma galinha!
Diz ter família em Espanha, mulher e dois filhos e trabalha no Canadá em pipelines, tem um trabalho à peça e sazonal, com a vantagem de aceitar umas épocas e recusar tantas outras quando já tem dinheiro suficiente para tirar uns dias de descanso! 
Pareceu-nos um ser porreiro com salero de castanholas, que amiúde daria para ir matando saudades da nossa querida nação tuga, ali mesmo encostadinha, a fazer conchinha! 
Entre um copo de vinho, dois dedos de conversa, pizza e pasteis-de-nata, que os consigo arranjar por aqui feitos por um italiano, vamo-nos apercebendo que este homem também na casa dos 40, começa a repensar toda a sua vida por causa do nosso discurso tão libertador e liberto de empecilhos, sem filhos e gosto por viajar, toda uma filosofia de vida de "menos é mais" e "keep it simple", que o fascinam e com que parece estar a contactar pela primeira vez! 
Com a idade que tem já vai atrasado mas nunca é tarde! 
Fica fascinado com a sabedoria filosofal do moço, sorve as suas palavras como as de um aprendiz de guru! Não me dita tanta importância, secretamente apercebo um fascínio para lá do normal, uma atracção sensual pela inteligência do meu moçoilo. 
Detenho-me a contemplar o cenário e vou falando cada vez menos para deixar o bobo divertir-me e fascinar-se com a simplicidade que descobriu agora, como criança imberbe e pueril. 
Este ser dá desculpas para tudo, arranja pretextos e deixa rabos para nos voltar a ver, o seu discurso é soluçado e sofrego. 
No dia a seguir a nos termos conhecido veio cá acima bater à porta, a pedir ajuda ao moço para montar uma televisão que tinha comprado após ter visto a nossa, embora já tivesse uma, esta era um monstro colossal e Smart.
Mais uma vez tinha ficado fascinado com o facto de apenas pagarmos internet e não estarmos fidelizados com pacotes de canais, assim assistimos ao que queremos à hora que nos convém, desde canais online, a Neteflix ou Youtube...  
Esteve uns dias sem dizer nada, até nos esquecemos dele mas voltou novamente a dar à costa desta vez com o pedido de um favor, já estava a tardar.
Pediu-nos para cuidarmos de uma planta que tem ao canto da sua sala, acabou por admitir que a comprou para preencher o espaço vazio. 
Com pezinhos de lã perguntou primeiro se gostávamos de plantas e eu sem dar oportunidade ao meu moço de responder, disse logo que gostava de as ver lá fora, à solta, não presas em casa mesmo que fossem consideradas domésticas. 
Ora, quem tem um trabalho de passar meses fora de casa, não vai a correr comprar uma planta, quanto muito que compre flores de plástico ou um cão de loiça para preencher o vazio da casa e da alminha perdida.
E ainda mais lhe disse e perguntei, se ele fazia alguma ideia porque é que eu não tinha filhos e ele feito parvo ainda respondeu que não e eu expliquei que não queria estar agarrada a nada que me tirasse liberdade ou me exigisse responsabilidade e rotina, que apenas queria ser responsável por mim e já era muito, portanto muito menos iria cuidar de uma planta que nem era minha...
Bardamerda que dê a planta a alguém ou para a próxima que pense melhor no que anda a fazer!
Juro que a esta altura da troca de galhardetes, sem exaltações, que o caso não merecia, imaginei este homem a meter-se num avião, ir a Espanha matar mulher e filhos e regressar livre de amarras, só porque estava fascinado pela nossa postura.
Durante este diálogo, o moço mostrou uma paciência como só ele e fez muito esforço para não desatar à gargalhada! 
Quando este ser abandonou o nosso lar voltei a indagar-me como já tantas vezes fiz, até demais, porque continuo a atrair gente maluca? Porque há realmente muitos ou porque estou condenada a algum castigo de me cruzar com tolos e passar a vida a fugir deles???
Juro que a próxima vez que venha cá acima e me pergunte se não está a incomodar feito assassino que se mostra simpático para atrair as vitimas e depois as degolar, vou-lhe dizer que estou muito ocupada e tenho que ir visitar alguém ao hospital! 
Eu que sou maluca reconhecida, natural, original, diria até genial, daquelas de trazer por casa e arejar de vez em quando a mioleira sem incomodar ninguém, digam-me porque tenho que aturar malucos contrafeitos?
20
Fev20

Balde do lixo

Rita Pirolita
Vou falar de um balde do lixo doméstico que caiu dentro de um contentor do lixo por minha culpa mas tudo acabou bem, apesar do mau cheiro!
Desde que me lembro de ter desenvolvido as minhas capacidades motoras em pleno que usava mais para correr, saltar e brincar, lá em casa já me incutiam a responsabilidade de tarefas, como limpar o pó todos os dias, sim, todos os santos dias, menos ao domingo, o que não custava muito num andar minúsculo de 2 assoalhadas.
Um quarto para os progenitores e uma sala que acumulava as funções de estar, jantar e à noite virava o meu quarto, com um sofá-cama forrado a bombazina verde-musgo, muito na moda, que abriu e fechou durante muitos anos, as vezes que foi preciso, no sono e na doença, cumprindo a sua função perfeitamente até ao fim do seu uso, que se deu com a mudança de casa e um quarto só para mim, mas só lá para a adolescência! 
Numa casa onde imperava a discórdia, destruição, gritos e violência ninguém se preocupava com educação ou compreensão, impunham-se regras para diluir a falta de respeito e iludir uma normalidade que nunca existiu. 
A obrigação de ajudar era uma forma de marcar autoridade por imposição maternal, quase como uma vingança e transferência de raiva, vinda de alguém que era tratada como gata borralheira e se queria sentir como a irrepreensível fada do lar, com poder no seu pequeno reino doméstico, já que a sua existência era todos os dias assombrada por discussões humilhantes e uma incompatibilidade visceral mantida à força, um amor doentio, obsessivo e destruidor, com resultados nefastos no futuro...para mim também! 
Os meus dias decorriam embuídos de uma inocência que de alguma forma me protegia do caos à minha volta e cujas memórias apenas mais tarde vieram a ser processadas, por uma cabeça que foi obrigada prematuramente a deixar de ser pueril. 
Nunca éramos desgraçados de quem alguém tivesse pena, não tínhamos onde nos queixar ou recolher, vínhamos ao mundo numa família que nos dava comida e nos punha na escola e só tínhamos que cumprir com o mínimo de obrigações, não fazer birras e se fosse caso disso levávamos dois tabefes que nos acertavam o passo, até à próxima choradeira típica de miúdos, por tudo ou por nada. 
A vizinha do prédio da frente batia na filha com colher de pau todos os dias, partia colheres a toda a hora no lombo da miúda e fartava-se de gritar com ela, eu como não levava tanto, encolhia-me como se as colheradas me estivessem a cair em cima do pêlo, como a dividir as dores em solidariedade para com a minha colega de escola que não esperava ver inteira no dia a seguir, mas lá aparecia ela sem ponta de queixa ou perda de peças, embora tivesse de certeza aquele rabo todo negro!  
Além da limpeza do pó e dos vidros, com vinagre e jornal amachucado que me deixava as mãos pretas mas os vidros imaculados também tinha a tarefa de ir despejar o balde do lixo, o que até gostava, visto que qualquer pretexto para andar com o cu na rua era bem vindo. 
Certa vez ao fim de um dia longo de verão lá fui despejar o lixo no contentor que ficava nem a 100 metros do meu prédio, era uma hora calma de fim de jantar, não se via vivalma e nem os pássaros se ouviam, derretidos na molenga dos ramos. 
Ao virar o balde para despejar aliviei demais as mãos e aquela porra escapuliu-se e foi parar ao fundo do contentor que ainda por cima estava vazio. 
Olhei incrédula para dentro daquele buraco mal cheiroso com paredes incrustadas de camadas de gordura e humidade fétida e não me dando por vencida nem ir a correr chamar a mãezinha que não era nada o meu género, investi em me desenrascar sozinha. 
Tentei esticar um braço ao máximo, depois os dois, depois aos saltinhos e depois de tanta tentativa infrutífera e a enxutar moscas com chapadas de raiva no ar, bichos da merda, que tinham tirado o fim do dia para me chatear e não tinham qualquer sentido de oportunidade ou condescendência com a minha difícil tarefa de salvar o balde do lixo de ficar no lixo, decidi empoleirar-me nas pegas laterais, qual mangusto chafurdeiro e com cuidado para não ir parar lá dentro e fazer companhia ao balde, empenhei-me no equilíbrio e de uma penada lá consegui alcançar o balde. 
Cheguei a casa como se nada fosse, calada que nem um rato, mas com os sovacos doridos e a tresandar a lixo. 
Não tive a pior infância do mundo, nem por lá perto, mas podia ter seguido caminhos piores e mesmo assim ainda bati em algumas portas erradas que me prontifiquei a fechar assim que desse com o erro e a retomar caminho que me parecia menos mau. 
Não tive muito tempo para brincar, a responsabilidade chamou-me logo a alinhar na vida muito cedo e agora olhando para trás, a minha sorte seria outra se me tivessem recolhido sem pena, qual cão de rua abandonado que amassem porque tinham para dar, sem se importarem com o meu curto mas já dolorido passado, traumas e medos e eu iria agradecer que para meu bem me dessem educação com um propósito e não o vazio imposto do "vais fazer porque sim, porque eu digo, posso e mando em ti!"

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