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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

24
Out20

Outubro-Outono

Rita Pirolita
O mês de Outubro nos últimos anos tem-nos brindado com um Verão prolongado!
Com Outonos retardados não pensamos tanto no Natal, as castanhas assadas não sabem tão bem, custa decidir acender a lareira sem frio suficiente, as mantas ainda alojam naftalina, o musgo e os cogumelos não se deixam ver, arroz doce e aletria, raia, anho ou cabrito no forno, arroz de barro e batatas à consoada, filhoses gordurosas e Santa Claus seboso, ai que belo entupimento do miocárdio! 
Não fosse o mês do meu aniversário e tivesse eu signo de mandona-déspota, virava o mundo do avesso, punha tudo a viver nos trópicos quentes e húmidos, sem trabalhar nem furacões, os glaciares seriam intocáveis e longe da vista,  o frio nunca tocaria osso ou faria pele de galinha, só nos gorgumilos com uma piña colada, os churrascos de rua seriam imperativos, o surf e a praia, casamento todo o ano!  
05
Ago20

Férias de sonho

Rita Pirolita


Vou falar do tuga veraneante e outros viajantes.Começo por gritar bem alto, AEROPORTO PARA ALCOCHETE, para não ter que atravessar a ponte sempre que quero ir para o estrangeiro ou ilhas. 

Comecemos as férias!

Passada uma hora de sol os alemães viram flamingos de pele inflamada, falam aquela língua de cão e cospem-se uns aos outros, não me aproximo nem falo alemão. 
Os ingleses adquirem a mesma cor de lichia madurinha e ao falar enrolam a língua como se tivessem a sofrer uma trombose, também não sou enfermeira nem veterinária e não falo inglês técnico de emergências.

Os franceses é raro vê-los, não sei onde se metem em altura de férias, também ninguém quer saber. Eu falo francês mas eles não podem saber.

Os espanhóis juntam-se aos portugueses, mesmo que visitem Cuba quinhentas vezes cada 'mojito' é uma novidade digna de experiência.

Também vou para fora cá dentro e sempre de barraca armada.

Todos os parques de campismo estão cheios de beatas, amigos, não custa nada pôr no lixo, os filtros demoram colhões de tempo a desaparecer na natureza.
Com espaço de sobra há sempre um casal de enconados que monta a tenda em cima da tua, têm medo de quê?

Os únicos ursos nas redondezas são eles!  
Arriscam-se a ouvir o que não querem à noite. 
Numa praia deserta põem sempre a toalha perto demais. 
Eu sei que as pessoas sentem-se atraídas pela minha beleza mas por favor, menos...e não dou autógrafos! 

22
Jul20

Reino animal domesticado

Rita Pirolita
Vou ser breve por este texto, porque não merece mais e muito mais não terá para ser acrescentado. 

Costumo dividir os tipos de casais essencialmente em três grandes grupos do maravilhoso reino animal domesticado!

Existem os casais que são de uma inocência atroz, de livro de conto-de-fada, provavelmente um ou ambos perderam a virgindade um com o outro e tudo indica que irão ficar juntos para sempre sem nenhuma traição pelo meio ou mesmo pensamento pecaminoso. 

Estes são amores remotos de aldeia, muitas vezes entre primos, não sei se ainda existem, se existirem têm todo o direito e ainda são o resquício daquilo que um dia todos desejamos mais ou menos secretamente e tão poucos concretizaram! 

Um amor pueril com sexo adulto, o melhor de dois mundos!

Os casais opostos ao anterior são a puta da loucura, parece que andam sempre em ácidos, fazem merda com uma cumplicidade de piscar de olho, no elevador ou em casas-de-banho públicas, a adrenalina não desgruda. Encontraram-se no momento certo e são perfeitos um para o outro, são os melhores amigos e cúmplices das partidas que pregam,  encenam discussões só para ver as caretas dos espectadores, não cobiçam mas comentam profusamente, sabem guardar segredos, são desinibidos e vivem o amor sempre a desafiar os limites da liberdade. Estão um para o outro mas não mortos para a vida! 

Sexo, paixão e loucura, a melhor pimenta a juntar ao mundo dos casais mais enconados!   

E por último, a maioria, pelo que observo são aqueles que ficam ali no limbo, nem são carne nem peixe, qualquer gesto ou discussão indica que se podem amar loucamente como matar de ódio, que podem haver traições mas a coisa mais ou menos consentida lá vai andando coxa e mal cheirosa, convencem-se que apesar de tudo foram feitos um para o outro, que o amor não sobrevive sem um pouco de tortura e ciúme e que estão condenados a aturar-se até ao fim da vida porque com o feitio que têm, acreditam que mais ninguém é credenciado para o fazer, munidos de uma paciência de Jó entremeada por explosões que acabam em sexo ardente de reconciliação. 

A vida é boa assim com agitação e desafio constantes, senão ficava apenas pelo trabalho ou desemprego, praia, putos e compras no LIDL. Vivem no mundo real da vidinha, com desilusões esperadas e alegrias vividas de cerveja e churrasco, tudo o resto são amostras reles, contrafacção ou publicidade enganosa!
13
Jul20

Amanhã há mais

Rita Pirolita
Mais uma vez na praia...
Os dias passam em calma e entre sonecas na sombra fresca e passeios à beira mar, a molhar o pé com dor de tornozelo do gelo da água mas ombros a escaldar de um sol que se vai tornando baixo e doentio.
Casas de pescadores não tão pobres como antigamente mas sempre em protesto a puxar à chinela e faca na liga, cheira a peixe podre, a lixo ainda mais podre, moscas moles, cães poeirentos, rafeiros, velhos ternorentos ou rufias temerosos que espantam do território lulus de meia tigela à trela, sem a mínima autonomia de se defenderem, se não fossem os donos, a dentada já fervia!  
Vou reparando na fauna que pontilha o areal com as dunas e arriba em pano de fundo. 
Tios a fumar charuto com a sua extremosa gaja de falsas madeixas loiras, cabelo queimado do secador e do sol, pele bem passada, com bikini de cores fluorescentes de surfista reformada.
Homens de tanga, pensei que já não existissem de todo, embora em extinção mas ainda se vêem.
Pescadores que deixam peixe-porco na areia com anzol, surfistas a mostrar o rabo de lula na mudança do fato, caravanistas que trazem e deixam lixo para trás, o mais giro que trazem e levam com eles são os cães.
Gente ao sol das 11 às 16, hora do cancro em grande estilo estrela do mar, fica muito mal esta posição só deve acontecer no recato do lar, se tanto na piscina ou varanda e nunca em frente a menores, mais que isso é...estrela ressequida fora de água.
Baleias encalhadas, coxas presunteiras, gente super fit e insuflada, maratonistas de Verão, ciclistas alucinados, cães com raros donos apanhadores de merda.
Ritas fumadeiras aos pares, estendidas na toalha a fazer topless ou a dar gritinhos no mar, que a água até arrepia os cabelos do estômago, de mama descaída e refegos nas costas ao nível dos rins...se alguém olhar, que se lixe, elas já têm o 25 de Abril no sangue faz muito tempo, além de que agora está na moda, todos se assumirem seguros do seu físico, nem que seja só uma atitude porque não há outra saída.
Gajos sozinhos que se deitam ao lado de gajas sozinhas, a uma distância segura que não passe despercebido mas denote algum respeito pela privacidade mas acima de tudo a uma distância que não deixe escapar a oportunidade de lançar uns olhares em tentativa de abordagem... 
Gente que abanca o dia todo com putos, 50 chapéus de sol, marmitas, geleiras, barraquice que dê até antes do sol-pôr, depois é meter a pequenada na banheira, vai tudo a banhos de água doce antes do jantar e antes de alguém dizer 3 vezes arroz, já os petizes estão com a pálpebra pesada, moídos que baste para aturar o João Pestana. 
Outros ainda põem o pé na areia como quem é alérgico e tem prurido da ralé, só estão de passagem que aquela não é a sua praia, só vão para molhar o pézito de toalha debaixo do braço e chaves do carro enfiada no dedo mindinho, a balançar o reluzente porta chaves Mercedes ou Audi!
Quando o calor aperta vou para casa e vi isto tudo em duas horas pela fresca, entre passeios, um olho aberto e outro fechado de lanzeira que me atinge sempre na leitura de apenas duas páginas do livro da praia que já ando à um mês para terminar, lendo a mesma linha repetidas vezes de olhos trocados com molenguice...
Amanhã há mais se o tempo deixar e eu quiser!   
04
Dez19

Judas não perdeu as sapatilhas

Rita Pirolita
No sítio onde vivo, Judas não perdeu as sapatilhas mas deixou por cá os cordões. 
Todo o comércio, principalmente no Inverno de 7 meses, é à porta fechada mas destrancada, nos dois meses de Verão, as esplanadas são tímidas e contidas, vidros escuros deixam anunciar um contrastante OPEN de néon luminoso em vermelho e azul, qual casa de actividade obscura, que no entanto assegura que não vamos bater com o nariz na porta, antes de entrar ficamos sempre na dúvida se vamos encontrar donos e empregados mortos ou a dormir atrás do balcão. 
O nível de limpeza deixa sempre a desejar...por mais asseio, mesas peganhentas de gordura ou humidade de uma electricidade estática, que faz o pó agarrar-se como goma lacante a qualquer superfície, o estilo de decoração nunca desilude quanto ao mau gosto de misturas improváveis mas horrendamente pirosas.
A saudação é pronta e o atendimento quase sempre imediato, num automatismo a que nunca me habituarei. 
O rol de promoções é vomitado em cacófonia monótona de professora do Charlie Brown, sem condições de ser entendida, num chorrilho de informação que não me diz nada sem ainda nada ter visto. 
Por aqui vai-se à estância de ski, mesmo ao lado de casa, às horas de desconto e vai-se à praia ao centro comercial, onde também podemos assistir a um deprimente espectáculo de leões marinhos e pinguins amestrados, residentes do aquário. 
Aqui fica a foto da praia caso não acreditem em mim, onde nunca entrei porque tem mesmo aspecto de oferecer na compra de cada bilhete, duas ou três micoses à escolha, uma candidiase e com sorte em dia de saldos, sarna e pé de atleta. 


 
14
Set19

Quem esteve lá que se acuse

Rita Pirolita

 


Hoje vou falar de uma situação que aconteceu há muito tempo na praia da Costa de Caparica.
Quem esteve lá que se acuse! 

Certo dia e já não tinha eu 9 meses, idade com que fui pela primeira vez à praia e desde ai fiquei super fã, estávamos todos numa grande algazarra, enfiados naquela praia minúscula e ainda mais quando a maré subia, quando de repente se ouve...ACUDAM!!!

Não sei se se lembram mas a praia da bola Nivea, nessa altura tinha instalados no paredão uns altifalantes, que desde pelo menos as 7 da manhã abriam as goelas com música da moda, num som roufenho que não fazia pam-dam com as ondas do mar. 
As sessões musicais non-stop pelo menos até meio da tarde, só eram interrompidas pela voz de um homem que divulgava acontecimentos locais, mais propriamente os daquela praia, prestando um serviço público de muito valor, como chamar pelos pais dos putos que se perdiam, numa praia minúscula...mas acontecia!

Já sabiam, ou iam para a bola Nivea e podiam ficar lá horas a fio, porque a mãe adormeceu qual baleia ao Sol e não sabe se o puto está ali perto perdido ou morreu afogado ou iam para o posto da rádio junto à Policia Marítima e lá diziam o nome. Como havia muitos Josés e Antónios o senhor da rádio chegava ao ponto de descrever a compleição física dos petizes e a cor da peça de lycra - 'o menino António perdeu-se dos pais, está aqui comigo, tem um calção azul, está bem mas...borrou-se todo, façam o favor de o vir recolher que está aqui um cheiro que não se pode.'

Certo dia este discurso mudou radicalmente, só se ouviu pela manhã - Acudam, acudam que me estão a bater!!!
O que tinha acontecido? Perguntam vocês. 
Um grupo de pessoas que queria dormir de manhã na praia, ao som das ondas e dos putos a berrar, música alta já era demais, não foram de modas e tomaram o posto de emissão de assalto, bateram no homem e ouviu-se um piiiiiiiiiiiiiiiiii estridente e depois o silêncio. 

Nunca mais houve música, os miúdos continuaram a perder-se, dava era mais trabalho encontrá-los mas quando esse encontro entre mãe e puto acontecia, não era em câmara lenta como nos filmes, era vê-las a desatar à bofetada aos miúdos - 'então tu estás desesperado porque te perdeste e isso aconteceu porque eu estava a dormir que nem uma porca ao Sol e ainda choras? Toma lá dois chapadões.'
Por acaso a minha mãe nunquinha me fez isto e ainda bem, torcida como eu era, se o fizesse, desaparecia de vez, nunca mais me punham a vista em cima, ficava órfã até hoje.
10
Ago19

No reino do campismo

Rita Pirolita
Como já perceberam por anteriores encontros literários marcados aqui mesmo, sem hora ou dia, sou ferrenha adepta e praticante de campismo de tenda à medida.  
 
Embora com o avançar da idade esteja seriamente a pensar em comprar uma tenda grande, onde possa andar de pé sem parecer um caracol com reumático ou mesmo em comprar uma autocaravana ou em último caso e quando o esqueleto pedir, um alvéolo num parque de campismo, com uma requintada casa de madeira, com a entrada forrada a oleado, pedaços de mármore, ou tijolos de cimento a fazer canteiros e caminhos de jardim encantado com cogumelos e gnomos em barro, em 2 metros quadrados de cubículo, que ainda leva com um churrasco de tijolo a um canto e mesa e bancos de cimento para esfoliar joelhos, rabo e pernas, bem no centro. 
Não resta assim espaço para circular, ou estás sentado e comes ou desandas para o bar ou para a praia que dentro do pré-fabricado, se não houver ar condicionado, morres abafado que nem peixe fora de água.
 
O campismo de tenda, é considerado na sua maioria a versão pobre de férias, de quem não tem dinheiro para ter casa à beira-mar ou usufruir do pretensioso turismo rural, com pequeno almoço e arzinho condicionado. 
No meu caso, não tenho casa no Alentejo mas gosto de barraquice e até já gostei mais, não fossem as costas ficarem todas encarquilhadas e já não conseguir dormir em colchões de 3 mm, porque já não consigo apanhar bebedeiras de festival que me anestesiem a dor. 
 
O moço já começou a levar cadeiras de praia, porque já lhe custa comer sentado à japonês, num simples oleado estendido no chão, cheio de formigas, resina e caruma. 
Começou também a levar redes mosquiteiras, porque está cada vez mais convencido que o seu sangue atrai mais picadas que o meu, já lhe disse que passe a vegetariano mas ele está-se a borrifar e continua a dar-lhe nas feveras, no piano e no belo chouriço assado. 
 
Cada vez menos me preocupo com as pendurezas na hora de me ver livre da lycra, na minha praia de nudismo preferida, que não vou dizer qual, para não me incomodarem com pedidos de autógrafos e fotos indiscretas. Este corpo não vai para melhor mas também não está mal quase nos 50. 

Casqueiro alentejano que embaça e o vinho para empurrar já não pode ser aquele de pacote para temperar. 
Nunca deixarei de gostar de montar a barraca, o meu corpo é que já não acompanha muito esses gostos libertinos e esgrouviados. 
 
Chegou o momento de começar a pensar na casa com rodas, com WC e duche e uma cama virada para o mundo com vista para as estrelas!
 
Este será o passo que antecede a reforma no alvéolo, ao bom estilo retornado, que faz de cada Verão um encontro da grande família, que são os veraneantes deste tipo de casota. 

Irei passar a primeira semana da primavera, a lavar as cortinas com folhos, super inflamáveis, que se encheram de humidade durante o Inverno, a ajeitar as flores de plástico nos canteiros da entrada, mijadas pelos gatos que se reproduzem aos magotes sempre que há abrigo e comida. 
O moço passará as tardes no churrasco, já que um dos seus prazeres é comer e mexer no fogo. 
Eu passarei algum tempo no meu pequeno-enorme jardim virado ao pôr-do-sol, a limpar a relva de plástico de baixa manutenção e a dar banho ao cão. 
Vamos arrastando os ossos até ao bar ou à piscina, porque a praia já cansa muito...
Assim passarão os dias, num qualquer parque da costa alentejana.
11
Mai19

NIVEA e Pála-Pála

Rita Pirolita


Cheiro a NIVEA, batata frita Pála-Pála bem oleosa, língua da sogra saborosa e bem torcida, bolas de Berlim ao sol, nunca ninguém ficou de diarreia, braçadeiras que me esfolavam os sovacos, aprendi logo a nadar sem elas, 10 sandes de queijo e fiambre por dia, éramos miúdos e estávamos a crescer, ir muito cedo para a praia para apanhar lugar à frente, munidos de mantas porque mesmo em pleno Verão as manhãs eram frias.
Todos os verões montávamos barraca na Costa de Caparica, enquanto muitos portugueses iam para a terra ou para o Algarve.
Campismo silvestre e não selvagem, poeira no ar com fartura, lavavam-se pés e cuecas na pia da loiça, tendas-cozinha que ardiam à velocidade de uma por semana, uma das piores invenções da humanidade, criar uma coisa altamente inflamável para fazer fogo lá dentro. Assim que acordávamos, ala para a praia e por lá ficávamos o dia todo, não se aguentava o calor nas tendas. 
Muitos fechavam a tenda pelo menos uma vez por semana e iam a casa limpar o pó e lavar o chão, regar as plantas, dar comida aos pássaros, à gataria e às galinhas, tomar banho de imersão ou ir fazer outra coisa, sabem que há gente que só gosta do trono doméstico, cá eu, ficava com todo o prazer os 3 meses das férias grandes, sem saudades da casa de tijolo.

Apesar de dias bem preenchidos sem fazer nada de jeito, não me importava por essa altura de ter dado um saltinho a Málaga e passar um "Verão Azul" com o Chanquete e o gordo do Piranha...só não queria aturar a primeira menstruação da Bea.
02
Mai19

Almoço domingueiro numa 4ª feira

Rita Pirolita
Quase final de quinzena do mês de Escorpião, dia tépido e noites frias sem geada matinal ainda. 

 A serra mostra-se grávida de eucaliptos e ausente das autóctones, sobrevivem para nosso gáudio e paragem obrigatória, os medronheiros repletos de bolas picosas, amarelas e laranja-fogo, que até queima as vistas, delicia no local da apanha, que guardados para mais tarde amolecem e fermentam. 

Abandonamos a serra em direcção à falésia do almoço, virada a praia a Sul, pejada de caravaneiros.

Dispensaria o visionamento de tanto cu de lula no arrear do calhau, a tentarem passar despercebidos entre vegetação rasteira típica de local ventoso, nórdicos transparentes que contrastam com a paisagem, falta-lhes muito para camaleão e ainda mais para não serem tão porcos! 

 As conchas fazem chupar dedos a escorrer molho, que chama pão para ensopar, a massada não foi de todo uma maçada para se fazer comer, o licor Melosa Luz deixa travo de pastel de nata e a aguardente do morango de arbusto selvagem é altamente elogiada pela sua caseirice, o vinho verde rega bem o peixe e a cerveja refresca o gorgomilo, alfarroba doce com travo de limão.

 A viagem de regresso leva tempo pela noite dentro. 

Dia apenas dedicado a cu sentado no carro e refeição no sítio que mais se aproxima do paraíso dos repastos, não seria por isso de esperar que chegássemos tão moídos do laser...talvez porque saímos em jeito de almoço domingueiro e acabámos por ir jantar às 4 da tarde, a uma 4ª feira!...   
01
Mai19

Cogumelos, lavanda e amoras

Rita Pirolita
 
Ter uma vida acolhedora, conforto, família, ser senhora de lar, ter filhos que amo todos os dias de um lenhador que me acolhe em braços firmes, viver no campo, ter pássaros a comer à minha mão, um lagarto que me aparece dia sim dia não e nunca se deixa apanhar, ser normal na alegria, no sofrimento, na perda, na morte e na doença, deixar-me chorar e rir nos momentos que me apetece, sem culpa ou arrependimento. 
Não sentir necessidade de sair e viajar porque o mundo está na minha casa e faço breves passeios ao pinhal ou à praia, mesmo ali à mão de semear, em forma de piquenique ou simples apanha de cogumelos, lavanda ou amoras.
Tudo é tépido e caseiro, debaixo das minhas unhas cheira a cebola e alho, o corpo a louro, o cabelo a fumo de lenha, os vestidos são de flores desbotadas mas não murchas, o fim dos longos dias quentes de verão são de um silêncio morno e envolvente com cheiro de pão-de-ló domingueiro no ar.
O outono cai pesado nas folhas, o Inverno mal-vindo, prova ser necessário com as chuvas, para que a Primavera se imponha com multiplicação desenfreada e mais tarde se deixe queimar e mirrar pela canícula do Verão.
As manhãs raiam ao som de galo acordado por ele próprio, os dias corremusculados de calma e compassados de preguiça, as noites são de paixão, jantares regados de vinho morno e aconchegados com ginja ou ponche quente.
E se depois de tudo isto não sentisse nada de especial, queria dizer que era uma mulher feliz com uma vida normal sem saber? 
É que agora e desde sempre, sinto desconforto e inquietação constante de alma, queria descansar um pouco da vida sem ter que morrer ainda, fazer um curto intervalo neste filme. 

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