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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

06
Ago20

Crowdfunding para pernil de porco

Rita Pirolita

Ideia de crowdfunding para quem passou a viver na rua, aqui vai! 
Explorem a imagem de sem-abrigo que passaram a ter e arrecadem pilim para pernil de porco, esqueçam as batatinhas, também só engordam e especialmente agora não podem andar sempre a comprar roupa nova. 
Acho que o tempo razoável serão no máximo 3 dias, mais que isso o pessoal desespera e saliva.
Quando conseguirem o vosso objectivo comam tudo à dentada sem se preocuparem em partilhar o resultado da ideia com quem ajudou. Deixem passar um tempo, para aí um mês ou dois para o pessoal se esquecer da marosca e voltem à carga com um menu sempre diferente. 
No inverno dá jeito uma boa vinhaça para aquecer, invistam numa carta de vinhos, boa ideia não? Dias de loucura!!!

Na longa espera entre boa comida e vinho voltem à sopa dos pobres e associações de caridade que nunca têm fins lucrativos e não ganham nadinha com a vossa miséria, tal como assistentes sociais, Santa Casa da Misericórdia, etc. 

Se não existirem coitadinhos em número considerável esses gajos ficam todos no desemprego e a vida já está tão difícil...

Esta ideia só tem uma desvantagem, os médicos inclusivé estão sempre a avisar, as dietas iô- fazem muito mal à saúde, mais do que ficar sem comer durante muitas horas ou até mesmo dias.
04
Ago20

O vizinho contrafeito

Rita Pirolita
Estão a imaginar aquele vizinho de baixo que só conhecemos há dois dias mas já vivemos por cima dele faz mais de um ano? 
No Canadá é um achado conheceres o vizinho do lado quanto mais o de baixo, o de cima não posso conhecer, só se for Deus, porque vivo no último andar do meu querido apartamento, sempre posso dizer que o céu é o limite ou não?
Bem, imaginem também que a probabilidade de encontrar alguém normal nesta terra é como ver um porco a guiar uma mota, foi isso que não nos calhou na rifa como seria de esperar, somos tão amorosos que ao jogo só podemos ter azar!
Nem sei por onde começar, este vizinho é uma mistura de cocainado com serial killer, sem talvez nunca ter snifado uma linha que fosse ou até morto uma galinha!
Diz ter família em Espanha, mulher e dois filhos e trabalha no Canadá em pipelines, tem um trabalho à peça e sazonal, com a vantagem de aceitar umas épocas e recusar tantas outras quando já tem dinheiro suficiente para tirar uns dias de descanso! 
Pareceu-nos um ser porreiro com salero de castanholas, que amiúde daria para ir matando saudades da nossa querida nação tuga, ali mesmo encostadinha, a fazer conchinha! 
Entre um copo de vinho, dois dedos de conversa, pizza e pasteis-de-nata, que os consigo arranjar por aqui feitos por um italiano, vamo-nos apercebendo que este homem também na casa dos 40, começa a repensar toda a sua vida por causa do nosso discurso tão libertador e liberto de empecilhos, sem filhos e gosto por viajar, toda uma filosofia de vida de "menos é mais" e "keep it simple", que o fascinam e com que parece estar a contactar pela primeira vez! 
Com a idade que tem já vai atrasado mas nunca é tarde! 
Fica fascinado com a sabedoria filosofal do moço, sorve as suas palavras como as de um aprendiz de guru! Não me dita tanta importância, secretamente apercebo um fascínio para lá do normal, uma atracção sensual pela inteligência do meu moçoilo. 
Detenho-me a contemplar o cenário e vou falando cada vez menos para deixar o bobo divertir-me e fascinar-se com a simplicidade que descobriu agora, como criança imberbe e pueril. 
Este ser dá desculpas para tudo, arranja pretextos e deixa rabos para nos voltar a ver, o seu discurso é soluçado e sofrego. 
No dia a seguir a nos termos conhecido veio cá acima bater à porta, a pedir ajuda ao moço para montar uma televisão que tinha comprado após ter visto a nossa, embora já tivesse uma, esta era um monstro colossal e Smart.
Mais uma vez tinha ficado fascinado com o facto de apenas pagarmos internet e não estarmos fidelizados com pacotes de canais, assim assistimos ao que queremos à hora que nos convém, desde canais online, a Neteflix ou Youtube...  
Esteve uns dias sem dizer nada, até nos esquecemos dele mas voltou novamente a dar à costa desta vez com o pedido de um favor, já estava a tardar.
Pediu-nos para cuidarmos de uma planta que tem ao canto da sua sala, acabou por admitir que a comprou para preencher o espaço vazio. 
Com pezinhos de lã perguntou primeiro se gostávamos de plantas e eu sem dar oportunidade ao meu moço de responder, disse logo que gostava de as ver lá fora, à solta, não presas em casa mesmo que fossem consideradas domésticas. 
Ora, quem tem um trabalho de passar meses fora de casa, não vai a correr comprar uma planta, quanto muito que compre flores de plástico ou um cão de loiça para preencher o vazio da casa e da alminha perdida.
E ainda mais lhe disse e perguntei, se ele fazia alguma ideia porque é que eu não tinha filhos e ele feito parvo ainda respondeu que não e eu expliquei que não queria estar agarrada a nada que me tirasse liberdade ou me exigisse responsabilidade e rotina, que apenas queria ser responsável por mim e já era muito, portanto muito menos iria cuidar de uma planta que nem era minha...
Bardamerda que dê a planta a alguém ou para a próxima que pense melhor no que anda a fazer!
Juro que a esta altura da troca de galhardetes, sem exaltações, que o caso não merecia, imaginei este homem a meter-se num avião, ir a Espanha matar mulher e filhos e regressar livre de amarras, só porque estava fascinado pela nossa postura.
Durante este diálogo, o moço mostrou uma paciência como só ele e fez muito esforço para não desatar à gargalhada! 
Quando este ser abandonou o nosso lar voltei a indagar-me como já tantas vezes fiz, até demais, porque continuo a atrair gente maluca? Porque há realmente muitos ou porque estou condenada a algum castigo de me cruzar com tolos e passar a vida a fugir deles???
Juro que a próxima vez que venha cá acima e me pergunte se não está a incomodar feito assassino que se mostra simpático para atrair as vitimas e depois as degolar, vou-lhe dizer que estou muito ocupada e tenho que ir visitar alguém ao hospital! 
Eu que sou maluca reconhecida, natural, original, diria até genial, daquelas de trazer por casa e arejar de vez em quando a mioleira sem incomodar ninguém, digam-me porque tenho que aturar malucos contrafeitos?
15
Jul20

Chef José Avillez - O melhor do mundo

Rita Pirolita
Assisti a uma entrevista ao recente eleito melhor Chef do mundo, José Avillez. 
Antes de começar a vomitar frases sem parar, não por indigestão, deixo aqui um curto reparo.
Estão a ver o jornalista Vítor Gonçalves que apresenta o programa na RTP, Grande Entrevista?...Não presta, por favor ponham-no de baixa prolongada, não importa se por depressão ou por lhe partirem as perninhas mas tirem-no da tela! 
Nesta entrevista fez perguntas em tom humilhante de galhofa, a um Chef que por mais mau que fosse não merecia e afinal só ali ia falar de comida, assunto que reune muito consenso, nem que seja pelo facto de todos gostarmos de comer por gosto e prazer e acima de tudo para nos mantermos vivos!
Não sei se vai surtir efeito mas fica o pedido para afastamento vitalício!
Ora bem, vamos lá falar de comida, um assunto de bom gosto que domina e muito bem, os dias dos portugueses. 
Enquanto almoçamos já estamos a falar do jantar que se segue, mesmo sem a firme garantia que não estamos livres de sofrer um ataque cardíaco ou uma diarreia tal que nos leve por tanta alarvice, a meio da tarde, lá mais pela hora do lanche, que não será de chazinho e scones!
O Chef falou de reduções, geis de coentros, gelatinas, cozinha molecular com o seu nitrogénio liquido que nos põe a fumegar que nem dragões, tudo apresentado em pratos enormes e quantidades mínimas e concentradas, disse ele. 
Não é uma comida de encher bandulho, num restaurante com nome terminado em 'ia', não querem alarves a palitar dentes, a arrotar e a ameaçar bufa de pantufas com o rabo de lado na cadeira, onde se paga mais de uma centena de euros para se tanto, se darem 6 garfadas de provas. 
A propósito de nomes que terminam sempre em 'ia', a última inauguração do Chef Avillez é uma Pitaria, que no norte seria uma churrasqueira, já que por lá se chama pito ao frango. 
Continuando, esta é uma cozinha de suposições e sugestões, em que o cozido à portuguesa por exemplo, alegadamente deveria conter enchidos mas só a couve que foi cozida juntamente com as carnes lhe leva o aroma entranhado a fumado, para depois se servirem apenas duas folhas de legumes com umas nozes de gordura de porco que diz ele, se desfazem na boca. 
O que fazem às carnes que cozeram? Não foram servidas e só aproveitaram a couve e o molho para dar a comer aos pacóvios que se acham finos! 
Comida tão pouca que nem faz lastro para cagar, paga-se uma aguinha com couves a boiar e o cozinheiro e os ajudantes levam o precioso conduto para casa em tupperwares?
As flores são comestíveis, eu sei mas põem-nas nos pratos para a pessoa ficar com tanta pena de as comer de tão lindas que são? Paga-se para fazer dieta não comendo a sobremesa? 
O que menos engorda nos pratos são as flores está visto, por isso por mais lindas que sejam para quem está de regime, são a única coisa que se deveria comer durante uma semana inteira, era ver as obcecadas com a linha a pastar em canteiros pelos ajardinados recantos deste país!
O Chef falou também no lagostim que é mostrado a cores e ao vivo à mesa do cliente, regressa à cozinha e passados 5 minutos está no prato de pernil esticado, pronto a ser devorado. 
Se pensarem em provar a frescura de todos os pratos que servem, começam a levar vacas e veados até à mesa dos clientes e depois tiram um bife à pressa nas traseiras? 
Levam vasos e vasinhos com as plantas aromáticas ou vazões com abacateiros, mangueiras, oliveiras ou videiras para apresentar a carta de vinhos?
Podemos parar por aqui porque já me embrenhei demais nesta selva e não estou para me alongar a falar de coisas que não me dizem respeito, só ao Chef que faz muito dinheiro com a redução reduzida de alimento e fome dos clientes, bem convencidos que comeram uma refeição concentrada, uma injecção de puro prazer para os sentidos, um momento de deleite, uma explosãozinha de sabores, uma degustação dos deuses...blá, blá, blá. 
Só vos digo que enquanto escrevia este texto fui dando umas colheradas numa sopa feita por mim, daquelas à moda do norte, de pôr a colher em pé, com couve galega, grão e massa, estou aqui que nem posso consolada até às orelhas e o efeito já se está a fazer sentir no buraco baixo deste meu corpinho. 
Por isso vos deixo, já não aguento o cheiro que me envolve, vou só ali morrer gazeada!
02
Dez19

Contos da estrelinha Serigaita - Fogo!

Rita Pirolita
Certa hora precedente ao jantar, a rua estava tão calma e deserta, que até o feijão verde nas hortas se ouvia crescer, as donas de casa cozinhavam e os patrões de família viam televisão, a fumar a sua cigarrada com os miúdos logo ali a brincar no chão da sala ou na varanda.

Ouvem-se gritos e quase ao mesmo tempo, um fumo negro sobe pelas escadas, embrulham-me num cobertor a tapar a cabeça também, pegam em mim, não sem antes pegarem no dinheiro e documentos importantes e rolamos escada abaixo, em passo apressado, lá ficamos todos na rua de terra batida, uns a olhar impotentes outros a tentar salvar a família e a apagar o fogo, que tinha começado numa cave do meu prédio, na cozinha.

Felizmente ninguém se magoou mas ficaram com paredes pretas e um cheiro pestilento a óleo queimado, cortinas de nylon ardidas e tinta derretida. 

Ficamos todos cá fora até os bombeiros irem embora e já a noite tinha entrado naquela rua, quando nos recolhemos nas casas a terminar o jantar, com aquele cheiro que teimou em se agarrar às paredes do prédio durante uma semana mas que nunca mais me saiu da memória e sempre que chega ao meu nariz semelhante olfato, revivo esse incêndio e acalmo a memória, ao recordar que tudo acabou em bem!  
02
Mai19

Samouco

Rita Pirolita
Com o pretexto de almoçarada na zona ribeirinha, ali para os lados do Samouco, restou a inclinação para fazer asneira da grossa, dificuldade em dar com os sítios, em acertar com um local de jeito, nem que fosse para tomar um café e dificuldade novamente em sair dos mesmos sítios, que depois de revistos me deixaram...

Um amargo de boca, um cheiro distinto por zonas, a porco, vaca, cavalo e lixo que não se podia, poluição que baste de Famel Zundapp, cartazes de tourada a cair de tanta cola sobreposta, desgraça, abandono e desleixo, prédios inacabados da crise, gente velha a atravessar estradas a passo de caracol, lojas fechadas, casas caídas, desordem continuada na construção, entremeada por bairros sociais, os mais organizados e habitados, ruas cortadas, armazéns abandonados, uma praça de touros digna da mais perigosa fronteira mexicana, um terminal de barcos onde nem Judas perderia as botas!

Estes locais quase de uma só rua, calmos e saloios, depressa se transformaram num fim de mundo poeirento, sem gosto, apagado e sem carisma.

Enfim, naquela manhã nada profícua e muito assaloiada, vi coisas que cheguem para mais um ano de vistas lavadas noutros sítios.

Fiquei triste por esta gente abandonada e definhenta por arrabaldes e baldios.

Cheguei à conclusão que há dias que mais vale não sair de casa e não há melhor lugar para almoçar que no conforto do nosso doce lar!... 

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