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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

09
Ago20

De punks a betos

Rita Pirolita
 
Lembram-se da adolescência? Passamos por tantos estilos sem nos decidirmos por nenhum, encarnávamos os nossos ídolos do mundo da canção e desde que fosse novidade e radical punha-se tudo em cima do pêlo...
Eu fui punk red skin, metaleira com direito a moches e tudo, avant garde com aquela franja à pajem cortada quase pela raiz do cabelo, também passei pelas cores Benetton, eramos todos surfistas sem nunca ter tocado sequer numa prancha, quanto mais ter dinheiro para a comprar. 
Lembro-me que me vestia numa loja da margem sul que estava muito à frente, se calhar iam a Paris ver as tendências, pois eu amante da estética e sempre à procura de inovação saltava entre a roupa preta dos Porfirios e esta loja. Um dia comprei umas calças que estavam na montra, muito largas pelo meio da canela, quando cheguei à escola todos se riram de mim e diziam que parecia um palhaço, passado um mês toda a minha gente andava com aquilo e eu deixei de usar porque deitava as calças pelos olhos.
Tenho uma foto de turma para comprovar este facto, realmente parecíamos um bando de palhacinhas! 
Mas as que mais me metiam impressão eram as betas, vestidas de cores sóbrias, nunca mostravam muita carne, queriam ser misteriosas e não passar a imagem daquilo que eram, umas malucas descaradonas mais que as outras até, nada de decotes exagerados, barrigas ao léu ou calções pela nádega
Estas miúdas esfolavam-se para namorar os mais populares da escola que normalmente eram os mais velhos que tinham chumbado uns anitos e faziam parte da associação de estudantes séculos, além de passarem a vida no ginásio que era a febre da altura, com culturismo para eles e danças da Fame para elas
Estas ladys nunca namoravam com gente vestida de preto ou calças rotas, ténis ranhosos ou botas Doc Martens, isso é que não
Davam-se com as da sua laia que vestiam calça de ganga engomada ou calça de vinco de sarja com blusas de executiva, não diziam ou podiam ouvir asneiras e nunca falavam de peidos ou mesmo admitiam que os davam, os peidos têm que se dar, mesmo que os queiras vender ninguém os compra! Nunca percebi o que queriam passar com esta imagem tão imaculada e certinha.
A maioria das que conheci eram umas pobretanas que gostavam de ter nascido em berço de ouro mas eram umas cabras falsas ressabiadas do piorio!
Nunca fui escrava de modas, quem me queira ver feliz é de calção, T-shirt e a chinelar o ano todo, é sinal que estou a viver num sitio quentinho à beira mar!
 
27
Fev20

My China is better and bigger than yours

Rita Pirolita
 
Será o que muitas matriarcas estrangeiras que ainda são do tempo de apreciar estas coisas pensam da louça trazida por colonialistas, nas raras vezes que vão jantar a casa de alguém. 
Quem recebe faz questão de exibir gosto requintado em especiais ocasiões, deixando que se cubram de gordura e molhos viscosos pratos pintados à mão, decorados com grãos de arroz ou finas flores de amendoeira, passarinhos ou rosas, azuis azulejo assentes em branco rosto de gueixa! 
Tudo de uma delicadeza bucólica estonteante, como as cálidas mulheres orientais de bolas rosáceas nas bochechas, com mãos longilíneas e pescoço de garça. 
Chávenas e copos cintilantes com rebordo dourado, tresandam a mofo de madeira da cristaleira, o chá pode não ser oriental, a comida também não e o vinho muito menos.
Depois desta generalização de pendor tão internacional, vamos agora ao caso muito específico de Portugal.
As mães exibem orgulhosamente e com cuidado como peça de museu, o melhor conjunto Vista Alegre e os copos Cristal d`Arques, em aniversários e jantares, no Natal e de quando em vez em lanchinhos com a familia emigrada, só para não pensarem que somos uns pobretanas atrasados e não sabemos o que é coisa fina. 
Não sei se todas as mães que têm 'china' o fazem mas as portuguesas lixam-se à grande, porque cada vez que usam esta parafernália que não passa de pedaços de caco bem pintadinho, quando as visitas desaparecem vão de requitó para a cozinha até para lá da meia-noite, lavar louça à mão, porque o conjunto foi deixado pela bisavó e nessa altura não haviam máquinas de lavar louça, por isso os lindos pratos não aguentam um detergente abrasivo ou mesmo uma esfregadela mais intensa, quase tudo tem que ser lavado por mãos de fada.
Os copos de cristal ficam manchados na máquina, têm por isso que ser postos a escorrer ao ar, sem toque de pano, se não ficam cheios de pêlo, já para não falar que tudo que tenha dourados não pode ir ao micro-ondas, esqueçam portanto a ideia de aquecer restos do dia anterior.
Mesmo assim, ainda se acredita que arejando um enxoval deste gabarito se está a dar uso digno nas alturas certas mas também que não sejam assim tantas para não se partirem muitas peças e depois andarem as visitas a comer num folclore de temas florais desirmanados, já que os nossos avós até para o gato punham pratos do cavalinho da extinta Fábrica de Sacavém.
Acho que os mais raros são os castanhos...os pratos, não os gatos!   

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