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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Jul20

A descrição da discrição!

Rita Pirolita
Não nos conhecíamos há muito, ele era meu chefe temporário em trabalho a recibo verde numa qualquer empresa de organização de eventos, animação, actividades outdoor, desportos radicais, reuniões, jantares de convívio, aniversários de empresas...
Um pouco mais velho que eu mas não muito, na casa dos 30!
Após um trabalho numa boleia até casa que durou um bom par de horas, com ele a conduzir e eu como única companhia, a conversa surgiu do nada, descabida, fora de contexto, iniciada por ele! Atenção, pode ser imprópria para os mais susceptíveis. 
Foram precisos nervos de aço, língua afiada qb, acutilante e certeira e depois rendição ao silêncio, que é o maior aliado da razão e bom senso nestas situações! 
Ele - Tens que começar a rever a tua postura, não te podes destacar mais que as outras colegas, tens que ter a noção que estás a trabalhar em equipa e ninguém pode ter protagonismo!
Penso nesta resposta mas  calo-me e guardo para mim:
Eu - Estás a falar até parece que tenho a mania que sou boa ou melhor que todos os restantes mortais?!...
Não tenho manias e não consigo perceber quem fica afrontado com a simples existência de pessoas que têm uma postura e personalidade que é naturalmente mais carismática, aliás, todos os contratados para este tipo de funções são escolhidos a dedo pela sua peculiaridade, não fazemos por mal nem é intencional, nascemos assim. 
Desculpem lá os que se insurgem connosco mas não podemos anular a nossa existência e não estou nada interessada em suicidar a minha alma! 
Embora tenha muito a corrigir ao longo da vida, isto não é de certeza um problema. 
Sendo assim, muitos de nós teríamos que morrer de vergonha para nascer outra vez?...E eu não fiz mal a ninguém!
E lá continuei... 
Eu - Mas em que sentido é que me destaco dos outros e faço questão de mostrar que sou diferente? (pergunto eu a fazer-me de parva)
Ele - A tua forma de falar, os teus gestos, a tua postura corporal, a tua espontaneidade, tens muito que treinar e aprender para pareceres mais profissional e integrada no trabalho, no fundo vestir a camisola da empresa!
Eu a pensar e a conter-me mas a deitar fumo pelas orelhas, que felizmente não se via: 
Ah então ele é isso, a minha pessoa incomoda-te porque tu sendo um porco mimado não me podes dominar, vês em mim uma rebelde que pode desafiar o teu autoritarismo. 
Quando se é tão inseguro, ataca-se antes que nos ataquem e quase tudo é uma ameaça e alvo de inveja corrosiva! Trabalhando numa empresa que no fundo vende festa, celebrações e boa disposição, tenho que ser um tronco de escritório, caladinha, com boas maneiras e fazer com ar submisso tudo aquilo que me mandam, andar com um sorriso e boa disposição, mas não muito, não interagir com o cliente, apenas estou ali para o servir e fazer sentir que no fundo não saiu do escritório e aquele vai ser um dia de merda como outro qualquer?...
Será isso o que queres? Não acredito!
Eu - Mas no fundo estás a fazer observações à minha personalidade, ao que me distingue de todos os outros e aos outros de mim, todos somos diferentes, além de que nunca houve queixas acerca do meu trabalho, fui sempre educada e bem disposta, fiz sempre o que achei necessário, umas vezes a mando outras por iniciativa própria, sempre fui desenrascada, a escassez de tempo e meios muitas vezes assim o exigem! 
Sempre fiz tudo para facilitar o saudável decurso do trabalho em equipa, sem me pendurar no esforço de ninguém, sem preguiça e sempre com a genica que me é característica!
Ele - Podes ser tu mas tens que ser mais discreta, não podes atrair demasiada atenção para a tua pessoa. Vou fazer-te uma confidência e dar-te 'O exemplo'!
E veio a confissão que eu não esperava, completamente fora de contexto e que na minha perspectiva não devia ser abordada, por eu apenas trabalhar com esta pessoa e não ter o mínimo interesse em saber da sua vida intima, que deveria manter-se privada. 
Para quem apreciava recato e discrição esta sua conversa foi um desastre que eu não precisava de saber! 
Lá continuou a enterrar-se, até à pazada final que o asfixiou!
Ele - Eu sou casado há muitos anos e tenho dois filhos, como tu sabes! (juro que a este ponto fiquei assustada e a pensar que este gajo me ia violar para me amaciar o pêlo e domesticar? Mas não e lá continuou...) 
Gosto imenso da minha família e nunca abdicarei desta estabilidade mas mantenho há algum tempo uma relação extra-conjugal, muito discreta, com uma pessoa muito discreta, tão mas tão discreta que até te vou dizer quem é porque tu nunca adivinharias!
Eu - Mas eu não quero saber e não estou a ver onde queres chegar com estas inconfidências!
Ele - (sem ligar nenhuma ao meu nojo perante tal conversa, em tom de sermão que vinha da boquinha menos discreta à face da terra naquele momento).
É a 'Maria Tal', que trabalha no escritório da agência onde estás inscrita!
Visualizei a pessoa em questão, de aspecto franzino, borbulhenta que nem adolescente, de olhar vazio e voz apagada mas com direito há existência como qualquer uma. Nunca me passou pela cabeça julgar esta miúda, fosse pelo aspecto, fosse pela relação que tinha com este palerma, até cheguei a ter pena dela que com aquele ar inocente pudesse estar a alimentar esperanças de vir a ter uma relação menos escondida e mais 'indiscreta', embora já soubesse desde há muito que as pessoas não são tão inocentes como parecem e quem se envolve nestas andanças sabe sempre ao que vai, vem, traz e leva!
Apenas me relacionava profissionalmente com ela e essa era a única parte que me interessava e muito, visto ser ela que processava os pagamentos do nosso trabalho e sempre correu bem, como era de esperar entre pessoas sensatas!
E lá continuou, orgulhoso de me ter feito uma confissão só para dar um exemplo. 
Pensei eu, se me contas isto com esta facilidade já toda a gente deve saber e qualquer dia chega aos ouvidos da tua mulher e tens a vida virada do avesso mas isso são grandes pormenores que não me interessam e a este ponto dispensava saber e não ter ouvido tudo o que me disseste desde que entrei neste carro! 
Foi esta falta de consciência e de sentido de oportunidade, de calar aquela matraca que me chocou, não tanto o facto de andarem embrulhados ou a enganar terceiros, são adultos que se entendam!
A minha indignação e espanto foram impedidos de sair cá para fora em forma de insulto, pela chegada a casa.
Entregue sã e salva depois de uma viagem com este maluco que me descreveu como ser discreta sem discrição nenhuma, comer e calar, andar assustada, escondida a um canto, sem estrebuchar, no fundo sem que ninguém até dê conta que respiro para viver, que desde que se faça tudo pela calada é a forma mais requintada de enganar e viver bem com isso, numa vanglória nada discreta dos feitos! 
Aprendi mais nesta viagem com aquilo que me queriam fazer desaprender! 
Isto passou-se de facto! Eu sou maluca mas não tenho capacidade nenhuma para inventar histórias tão rocambolescas, com tão alto calibre de mesquinhez!  
28
Dez19

Ossos largos

Rita Pirolita
 
E quando encontras aquela amiga que não vês faz muito tempo e com falso entusiamo e simpatia, para disfarçar a admiração de tal dilatação corporal que quase não a reconheces e já não vais a tempo de mudar de passeio, começas a abrir a boca para perguntar quando nasce a criança e ela ao ver o teu ar de parva surpreendida, disfarça que também está radiante por te ver e com um sorriso mais amarelo que mijo de diabético, atalha logo os teus pensamentos com a desculpa de que não está gorda nem pesadona, apenas desde a altura que nos deixámos de ver na preparatória, os ossos alargaram e a tiróide descontrolou-se. 
Respiro de alívio, sou salva à última da hora pela falta de olhos na cara e espelhos em casa da minha amiga.

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