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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Dez19

Contos da Estrelinha Serigaita - Comer

Rita Pirolita
Sempre pisca na comida, lingrinhas de carne e alta de ossos, lá ia sobrevivendo sem acusar falta de energia, com muito pouca comida e muita brincadeira de rua. Desenrascada nos gostos e talheres, não gosto de leite, como carradas de carcaças com manteiga e açúcar, o meu fígado ainda não se acusa e desperta para o trabalho dos lipídios e o pâncreas para os glícidos. 
Aos 7 anos perante espanto materno com tanta independência, tiro espinhas de peixe, chego ao fogão assente em pedra mármore com chaminé logo ali, que só dá para um tacho com cabeça por cima a espreitar a comezaina, armários em verde água e azulejos brancos normais que se descolam com frequência, após tachos cheios de comida atirados à parede em acessos irosos do pai que não suporta a mãe nem no namoro quanto mais a partir do primeiro dia do casamento. Trabalho do dia seguinte, logo pela manhã, colar azulejos com a mãe banhada em lágrimas com a esperança nos olhos que as coisas tinham muitos anos para melhorar, só pioraram, até que pôs termo à sua própria vida, cansada de tal tratamento.
Farinha 33, a farinha com sabor a chocolate, recomendada pelo Sr. Doutor, Tulicreme gorduroso, Maggy e Knorr, Maizena com açúcar e casca de limão, mais vezes com grumos que sem, chocolate Milo para o leite, pudim Mandarim de sabor único e artificial a baunilha, O Boca Doce é bom é bom é, diz o avô e diz o bebé, gelatina Royal, Laranjina C, manteiga Milhafre dos Açores, margarina Planta, Nestum e Cerelac, iogurtes Vigor em frasco de vidro com prata por cima, azedos que até amarga, leite não pasteurizado em pacotes plásticos maleáveis, postos a ferver para matar a bicharada, pescada, peixe branco e mioleira para as crianças, rabo de boi na sopa, Epá, Super Maxi, Perna de Pau e pouco mais, Coca-Cola nem vê-la, pudim caseiro com 50 ovos, carne assada no forno com batatinhas loiras e tostadas aos domingos, bacalhau de vez em quando,  sardinha, sarda, cavala, carapau e chicharro...comida de pobre, peixe raimoso, caldeirada de arraia, jardineira, chouriço e presunto nem vê-los, bolacha Maria, leite creme e aletria, vinho Teobar, caracóis...muitos e saborosos, tremoços em barda, camarão nunca.
Era tão feliz, sem ameaças de obesidade, diabetes infantil ou sedentarismo de PlayStation.
19
Out19

Grávidas ou gordas?

Rita Pirolita
 
Por causa de umas fotos de uma cantora, que mostrou o seu corpo após um mês de ter sido mãe do segundo filho e também porque sempre existiram grávidas, magras, assim-assim, balofas, gordas, baixas, altas...
 
Estar grávida deve ser muito bom e motivo de orgulho para quem gosta. 
Eu que não tenho filhos por opção, tenho uma visão muito objectiva e distânciada o suficiente, para não criticar e apenas constatar factos. 
Na boca de muitas mães, a beleza da maternidade sobrepõe-se a mazelas, ao mau estar, à depressão, à emoção, ao choro por tudo e por nada, ao peso excessivo, às  noites mal dormidas, às crostas nos mamilos, às estrias, às pernas inchadas que nem um elefante, a uma recuperação lenta e dolorosa fisica e sexual, mas muitas e com as redes sociais ainda mais, começaram a mostrar que como tudo também este estado de graça das mulheres, tem um lado menos bom e mais desconfortável, que elas, de sorriso na cara, querem partilhar com o mundo e preparar futuras mães para coisas naturais que acontecem a quem tem um ser dentro de si a crescer sem parar, até que não caiba mais e tenha que saltar cá para fora.
Não me choca nada ver grávidas ou mulheres após o parto com uns quilos a mais, o seu corpo conta uma história que espero, esteja mais repleta de curvas felizes que tristes percalços. 
As mulheres acabam sempre por ser as piores críticas umas das outras, a verdade é que não se deve incentivar a obesidade ou a anorexia e sim promover a aceitação.

Neste caso vou falar de momentos embaraçantes entre géneros diferentes, pondo a cabrice feminina de parte.
O moço tem sido vitima de enganos sucessivos que lhe têm custado amizades e provocado alguns amuos. 
 
Das muitas vezes que encontrou colegas que já não via faz muito tempo, para ai desde a secundária, em alguns casos precipitou-se e perguntou para iniciar conversa por cortesia, quantos meses faltavam para a feliz hora da cria saltar cá para fora? Ao que percebia pelo embaraço ou simples linchamento com o olhar, que aquilo não era gravidez mas sim casos graves e de gravidade lipídica. 
Começou a aprender com as repetições de maus encontros, que se não conseguia distinguir uma orca de uma orca grávida, mais valia ficar calado para não andar sempre a meter a viola no saco e não ir cantar a mais freguesia nenhuma. 
Estes breves encontros, encurtados ainda mais pela nossa estupidez e precipitação, acabavam com a triste justificação do outro lado, que o seu estado se devia a um problema de tiróide e não de gula. 
Para mim esta explicação chegava e sobrava, para aquilo que queria saber de alguém que não via faz anos.
 
A mim também me aconteceu com amigos meus, que não tinham gravidez nenhuma a não ser de cerveja, parece que tinham sido atacados por um enxame de abelhas e andavam num torpor tal como se fossem alérgicos às picadas e estivessem só na esplanada à espera que passasse, para se atirarem ao caminho para casa, de cabeça mais leve.

É por estas e por outras, que o moço para não se sentir discriminado continua seriamente e com afinco a tentar a sua sorte, como candidato à maior barriga Nenuco do ano.
 
Nenhum de nós alguma vez fez observações intencionalmente maldosas, fosse a quem fosse mas a nossa inocente distracção, culminou em momentos de vergonha e embaraço.
 
Perdemos a oportunidade de reatar contacto com alguns amigos à pala desta brincadeira e mesmo que emagreçam ou deixem de beber tanta cerveja, nunca mais na vida os vamos recuperar.

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