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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Dez20

Celebrar

Rita Pirolita
Ontem não celebrei tradicionalmente o Natal, não fiz a árvore, fez a sogra, não me juntei com a família que não tenho, só com a possível, não comi bacalhau, polvo ou perú, porque ainda não foram promovidos a alimentos vegan mas comi os acompanhamentos, não comprei coisas doces nem a título de excepção, não toquei em chocolate porque não aprecio e não fiquei acordada à espera de um Pai Natal que nunca vem, não traz nada de graça nem mesmo felicidade!

Ontem fiz o que faço todos os dias, celebrei a vida em paz sem me chatear ou cansar...muito!
04
Ago20

Emigrados

Rita Pirolita
Aos poucos vou arranjando espaço em mim para organizar ideias e aceitar memórias das tormentas, deitá-las cá para fora sem arrependimento e com bom senso.
A minha saída do país para começar vida noutro sítio coincidiu não por acaso com uma fuga de lugares comuns que já me cansavam de uma pobreza remediada, da morte de quem me pôs no mundo, porque ficar nos locais muitas vezes não resolve nada e na dúvida a mudança é sempre a melhor aposta.
Deixei para trás uma familia que se resumiria a 2 elementos, tudo o resto desde primos a tios ou avós não se falavam desde a altura da minha adolescência por zangas de partilhas, nada de novo, o mais comum deste mundo em países de famílias pobres como o nosso, que mais tarde podem descambar em novos ricos medíocres mas que não passam de remediados, uma raça pouco humilde e chata que está sempre a queixar-se que não tem dinheiro se calhar para ninguém lhes pedir emprestado?...Não tenho nada para discutir com este tipo de gente nem tenho paciência para aturá-los a falar sempre do mesmo!
Amigos? Deixei muito poucos, uns já tinham emigrado, o contacto era feito por email ou Skype muito esporadicamente até se resumir a enviar mensagens por cortesia pelo Natal e Fim de Ano, quando calhasse pela Páscoa também e tão somente se ficaria por aí.
Isto com pessoas que conhecíamos desde o tempo da escola.
Naturalmente a maioria casa-se e tem filhos, a disponibilidade para estar com os amigos que não constituíram família e que ainda vão tendo tempo para gozar a vida não é nenhuma, muitos mudam de terra de cidade e os laços perdem-se. 
Restam assim muito poucas pessoas com quem estamos regularmente.
Quando te vais embora ainda manténs à distância alguma frequência no contacto na ilusão de acalmar a saudade e a lágrima de pena de já não poder ir à praia, de estar mais isolada sem amigos ou família. 
Passado uns tempos começamos a espaçar os contactos e chegamos ao ponto de só falar no Natal e alguns aniversários. 
Cais na frustração de estar sempre a telefonar como se devesses explicações ou para aliviar a culpa que te fazem sentir de teres decidido ir embora, porque os outros ficaram no mesmo sítio, não mudaram, não abandonaram nada nem ninguém, continuam na vida de queixume mas lá vão andando, dizem eles, rodeados de amigos mais ou menos sinceros, de relações familiares mais ou menos dependentes e tóxicas, enganosas e enganadas, da dor e consolo nos funerais de quem vai partindo, enfim...   
Notamos em quem ficou um desprezo, uma mágoa por os termos abandonado que nos querem fazer pagar com mais distanciamento ainda, além da intransponível distância fisica que já nos separa. 
Alguns sentem que já não os veremos vivos e chateiam-se com a dureza das decisões que separam e magoam! 
Não ficamos para o bem nem para o mal, não nos podem pedir ajuda ou apoio, não têm lata para pedir dinheiro emprestado, nem um beijo ou abraço podemos dar por isso descomprometemo-nos com quem ficou e nota-se zanga em respostas cada vez mais esporádicas e frias.  
Não se lembram que também nós, ainda mais nós, estamos mais sós e desamparados, a começar tudo de novo e tudo é diferente, casa, carro, trabalho, clima, comida, pessoas, hábitos, culturas, horários...e não podemos gritar a pedir ajuda porque do outro lado do mundo não nos vão ouvir nem compreender, acomodamo-nos por isso ao silêncio dos que estão lá longe sem cobrar e a tentar compreender e aceitar que coração que não vê não sente, o que só é verdade para quem quer que assim seja.  
Quem acho que merece continua a ter carinho da minha parte, pessoas que gosto ou a quem não quero mal apenas me basta saber que estão bem e fico descansada.
Curiosamente algumas pessoas que não da família revelaram uma preocupação fora do normal e verdadeiro desejo que tudo corresse bem mas se não estivesse feliz que voltasse que haveria lugar.
Não preciso de tocar ou ver para acreditar, basta sentir uma voz, uma lágrima ou uma gargalhada com verdade que já me sinto mais perto de quem quer que seja que me queira bem também. 
06
Jul20

Um conto ou dois

Rita Pirolita
Nem sei se vos conte um conto ou dois, sem acrescentar três pontos. 
Eram assim aqueles dias de cabelo comprido, crespo e ondulado, os outros escorridos, loiros e brilhantes, alta e magra, joelhos negros de cicatrizes, outros alvos e gorduchos. 
Semblante de cigana de bairro pobre, quase a viver na rua, com casa virada do avesso.
Sou líder da minha tribo e rodopio para me transformar em super-mulher, tão invencível que até os rapazes se baralham mas não se deixam ficar.
Serei sempre a rapariga que joga carica e berlinde, à macaca, ao canivete e ao pião, aos carrinhos de rolamentos, monta bicicleta alheia, e ao fim do dia olha para as bonecas mas mexe nos carrinhos.
Televisão a preto e branco, escola à tarde, férias de verão em três meses de praia a perder de vista, dois de campismo, calor matinal, abrasador à tarde, noites cálidas, pão com manteiga e açucar, hortas de abelhas, moscardos e minhocas, ervilhas de cheiro e feijoeiros, correria na mata sem medos.  
Regresso às aulas, fim de dias longos, começo de humidade, chuva e estrelas de Natal, frio invernal de galochas.
Amanhã o silêncio será quebrado mas agora vou dormir sem história nem conto...
02
Abr20

História resolvida

Rita Pirolita

Ando cada vez mais farta de pessoas, apenas me apetece dar likes e fazer comentários fofos, em páginas de cãezinhos abandonados, mal tratados, bem tratados, de marca, rafeiros, pernetas, manetas, com cauda, sem ela, com tintins, sem ovários...TODOS!
Confesso que tenho muito mais pena dos animais mal tratados e abandonados que dos adultos ou mesmo crianças e velhos!
Passo a explicar: 
As crianças são maltratadas e abandonadas por pessoas que já foram crianças também, por isso os adultos têm obrigação de ter memória, serem responsáveis e assumirem como convém, a ideia e vontade de trazer uma criança ao mundo, em caso de dúvida não as conceber é sempre a melhor opção!
Quanto mais consciência se tiver dos actos mais se mede a força para os praticar e mais liberdade de escolha temos. 
O exercício não é difícil o problema é que a maioria das pessoas nem sequer o faz, nem perde um pouco de tempo a pensar no assunto e reproduz-se automaticamente, porque é o que vê fazer à sua volta e como somos mais animais de imitação que de imaginação...vamos na conversa e entramos no mesmo barco, assim quando formos ao fundo vamos mais quentinhos!
Os pais descuidados e mal-educados ou sem educação, provavelmente foram crianças vítimas desse desrespeito e vão criar filhos tanto ou mais irresponsáveis que eles, num ambiente de violência doméstica e humilhação ou excesso de mimo e pouca atenção.
Gente crescida, desentendam-se, descabelem-se ou matem-se...Agora, façam-no em privado, ninguém tem que levar com a vossa estupidez, principalmente as crianças que ainda não tiveram muito tempo para perceber bem o que andam cá a fazer ou que mal fizeram para levar com tal azedume tão dispensável em tenra idade!
Os filhos são usados para salvar casamentos, para roubar fortunas, para se prostituirem ou mendigarem e assim porem comida na mesa, para se viver à conta, para ajudarem a sustentar a casa ou pelo menos cobrirem o prejuízo...
E para serem gostados e criados em liberdade e consciência, não? Isso não interessa, além de que o mundo lá fora está tão perigoso e as novas tecnologias?...Uma autêntica ameaça à inocência e segurança das criancinhas? Tudo mete medo!
Não me digam que esta vida que temos caiu de Marte ou foi obra do Espirito Santo?...
Quanto aos velhos...os adultos que os abandonam nos hospitais, depositam em lares, desprezam, lhes dão porrada ou insultam e humilham...esperem até vocês próprios se começarem a borrar pelas pernas abaixo, indefesos, a ver o troco que os vossos filhos vos devolvem?...
A humanidade tem responsabilidade na sua reprodução e consequentemente na proliferação de maus hábitos ou bons costumes! 
Mas como a coisa nasceu torta tarde ou nunca se irá endireitar.
Quanto aos cães, são nossa responsabilidade, foram domesticados por nós, para estar ao nosso serviço e dispôr e acima de tudo não fazem um milésimo da merda que nós fazemos, para limpar a nossa porcaria era preciso um saco do tamanho do mundo, não merecem por isso maus tratos, desleixo ou abandono à reprodução incontrolável, pelo contrário, dão muito mais que aquilo que alguma vez possamos merecer, não somos nada dignos e não têm a mínima noção das consequências que os humanos os fazem sofrer, pelo seu natural e irracional instinto de se reproduzirem! 
Por isso no próximo Natal ou aniversário, em vez de fazerem filhos, cortarem pinheiros, ou reunirem-se à volta da lareira, para foder os que estão mais à mão de semear, como a família por exemplo, adoptem um patudo, se não for para o tratar bem, desejo que morram todos naqueles jantares enfarta burros com um enfarte fulminante, assim também não se reproduzem mais!  
Lavo daqui as minhas mãos, corpo e alma, história resolvida!  
28
Jan20

Cocho - colher de cortiça para beber água

Rita Pirolita
O que é tipicamente português?
Mesmo que estejamos nas Galápagos e passe uma tartaruga a nadar ao pôr a venta de fora vê logo, ora ali está um fumador de SG Ventil, boa companhia para beber jolas e ver uma partida de futebol no sofá, a tirar macacos do nariz e a ajeitar os tomates durante 95 minutos de tensão desportiva.
O tipo de respostas a esta questão são inesgotáveis, podem ser pessoais ou generalizadas mas estarão sempre ligadas a uma imagem de foleirada e brejeirice...e disse!
Os fervorosos adeptos de futebol sofrem de amor incondicional ao seu clube que amam mais que mulher e filhos, passam o tempo na tasca lá do bairro, então desempregados ou reformados, falam encostados ao balcão enquanto comem tremoços em beijos chupados, deitam abaixo a mini, copo de três, traçado, imperial ou lambreta, com o dedo mindinho esticado para exibir a unhaca da cera, a outra mão enfiada na algibeira chocalha o molho de chaves, acompanhada de um abanar de perna que mais parece ansiedade para o tiro de partida, a ver quem chega mais tarde a casa e faz mais curvas pelo caminho.
Camisa sempre aberta com fio de ouro repleto de penduricalhos, crucifixo, figa e corno, foi daqui que a Pandora tirou a ideia para vender caríssimo, pechisbeque de qualidade achinesada duvidosa.
As esposas destes senhores estão em casa, gordurosas e  gorduchas a fazer crochet, à janela a coscuvilhar e a competir com as vizinhas nas doenças inventadas, a acreditar nas noticias da TV ou a chorar com o último episódio da novela e a gritar para a desgraçada que vai levar um balázio - 'Foge, chama a polícia ou dá-lhe com um tacho na cabeça, que essa mula falsa que está atrás de ti é amante do teu marido!'
Os filhos destas senhoras mantêm o gosto ferrenho pelo clube e sede pela cerveja, trazem CDs ou esqueletos pendurados no retrovisor do carro, os pais põem um cocho e na parte de trás uma sevilhana de renda para pôr o rolo de papel higiénico ou um cão pelo de pêssego de olhar vidrado a abanar a cabeça, deitado em manta de crochet. 
As filhas destas senhoras são divas suburbanas de salto de agulha e calça justa que trabalham na Berska, num call center ou têm um cantinho de unhas. 
Estas famílias ainda conservam o guarda sol dos anos 70 com manchas de ferrugem, rebordo de franjinhas branco amarelecido e padrão de florões LSD peace and love.
O que não é tipicamente português mas muito kitsch, são as Nossas Senhoras de Fátima fluorescentes, galos de Barcelos que mudam de côr conforme o tempo e o Gato da Sorte de pata levantada, que por acaso tem algumas semelhanças com o 'Toma' do Povinho, de bigodes e tudo!   
 
16
Nov19

Contos da Estrelinha Serigaita - Natal

Rita Pirolita
Lembro-me da vida desde os meus 3 anos, dizem que é raro, mas comigo passou-se.
 
Noite de Natal a aproximar-se, a árvore já está a um canto da sala faz um mês, pequenino pinheiro verdadeiro, de agulhas mormas, na altura não havia árvores artificiais e se houvesse, seria fora do país e custariam os olhos da cara.
 
Os enfeites têm uma mistura Kitch, pobre e pirosa preenchida com pequenos chocolates ocos da Regina, embrulhados em pratas, que contornam o feitio do animal impresso, o Pai Natal é o animal maior, seguido das renas e dos coelhos da Páscoa, que convivem antecipadamente na época que não lhes pertence. 
 
Fazendo uso da minha veia artística, que me dá delicadeza de mãos e agilidade de pianista, sem ninguém dar conta, consigo retirar o doce chocolate de dentro da prata, deixando a mesma ainda pendurada por um fiozinho brilhante, ficando intacta na sua forma, devoro o chocolate como recompensa da minha proeza, rapidamente na eminência de ser apanhada e assim vou depenando a árvore de conteúdo mas não de aparência, que se mantém imaculada como o inocente menino Jesus, nas palhas deitado. 
 
Só sou descoberta quando alguém quer ir comer um chocolatinho da árvore, na proximidade da noite do ressuscitado e amachuca a prata ao tentar apanhar algo lá dentro. 
 
Ninguém me acusa de boca mas todos olham para mim...
A risada foi total na primeira vez que fui descoberta, nunca mais voltei a fazê-lo, tudo tinha perdido a piada e a adrenalina tinha desaparecido.
Eu que nem aprecio chocolate, aqueles foram os que melhor me souberam, comidos debaixo da árvore, como os figos melhor sabem também mas que eu igualmente não aprecio...coisas que me dizem!   

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