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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Ago20

Quinto dos Infernos

Rita Pirolita
Estou constantemente a apanhar com velhos que se atiram para a estrada no preciso momento em que vou a passar com o carro, vá lá que vou a baixa velocidade.
Não havendo nenhum carro a circular no estacionamento num raio de 100 metros, escolhem a passagem do meu bolinhas, espero que não andem propositadamente à minha cata para se precipitarem para fora do passeio e atravessarem de cabeça a abrir caminho no ar, parece que lhes pesam os cornos ou as preocupações, esquecem a marreca e a prótese na anca e lá vão eles em tesura típica de velhos marretas!
Será que o perigo os arrebita e lhes dá corda aos sapatos?...
Estou mesmo a ver aqueles pensamentos malucos como se fossem filhos de primos direitos do Alzheimer, cheios de ácido úrico e gorduroso colesterol: 
'Ah vou-me atirar para a frente deste carro para pregar um grande susto e darem conta que existo, pode ser que assim aprendam a ter respeito pelos mais velhos e se morrer nunca fico com as culpas, tenho sempre razão e a última palavra é minha nem que seja um suspiro expirado de Ai Ui!' 
PORRA para a velhada que só me dá cabo da paciência, qualquer dia começo mesmo a passá-los a ferro para ficarem com menos rugas e irem com bom aspecto para o quinto dos Infernos!
19
Jul20

A mãe

Rita Pirolita
Podem não comentar nada sobre o que vou escrever, para sofrimento alheio não temos tempo nem paciência e se não nos toca não precisamos de tomar as dores dos outros lá longe, já temos que chegue dado na proporção da nossa força em ultrapassar ou até podem comentar e criticar a crueza da exposição.
Eu sou um colosso de sentimentos, aguento quase tudo até morrer, a partir daí para a frente...aguento mesmo tudo, na certeza porém que mais me dilacerou a imposição desta vida que tenho, sem ter justificação de castigo que podia sempre ser pior, mostrar aqui as cicatrizes de animal golpeado que nunca se pôde distrair a lamber feridas. 
Não serei a única nem a última.
Pouco antes de Abril de 74 existia eu em casa destruída, todas as noites azulejos eram partidos por panelas com comida pelo ar, colados de manhã por mim na inocência da esperança de passar e pela mãe em lágrimas de adulta destruída, entre surras e gritos, a fugir durante a noite de faca apontada aos gorgomilos, aos 7 anos disse à mãe que fugíssemos daquele Inferno que ia trabalhar para a sustentar, a esquizofrenia quedou-a na dependência de amor obsessivo, não tinha capacidade para lidar com o mundo e as pessoas lá fora, recusava-se a trabalhar para se poder entregar ao abrigo tresloucado de um lar desfeito desde o primeiro dia.
Cresci a pensar que o mundo era só isto sem ajudas, no silêncio, puseram-me o fardo à nascença de colar cacos de destruição, de aproximar vidas que nunca se deveriam ter cruzado.  
Maluqueira de sangue, de primos e tios que pressentem, que ouvem almas do além, que enlouquecem de lucidez, que se isolam tal como eu. Irei acabar assim?...
Não fui educada nem deseducada, foi a mãe mostrando o caminho da submissão e que a vida tinha que ser dura, abafada, sem espasmos ou queixumes.
Um pai ausente de amantes, que gastava o dinheiro em putas e me deixava à mingua.
Depois de guerras diárias que nunca consegui travar a mãe desapareceu no mês do meu aniversário, deixou um bilhete a pedir perdão, procurei-a com a angustia de não a encontrar mas que estivesse viva, fugida do que tinha, suicidou-se, deixando-me sem intenção uma culpa para a qual não fui talhada. 
Chorei durante dois dias e duas noites com a palavra mãe na boca.
Fui de branco, escrevi no caixão a cremar, 'Agora que o teu corpo se transformou em milhões de estrelas, quem olhar para o céu vai-se apaixonar pela noite', deitei as cinzas ao mar, veio uma irmã das bruxarias com quem não falava há muito por causa de avessas partilhas, acompanhar a minha desgraça, queria ver o local onde encontrei o corpo, não deixei, disse-me para não ter filhos por o espirito dos suicidários se encarnar mal em recém-nascidos, não permiti que me desse ordens, disse ela que não a podia cremar, era pecado, teria que ser consumida pela terra, não a ouvi. 
Não quis padres nem flores, cruzes ou vestidos de preto. Ninguém de família me telefonou quanto mais apareceu, só pensaram no choque que devia ser e não em apoiar a viva que restou, tiveram vergonha de não ter coragem, apenas um primo de Angola me deixou palavras de conformados pêsames e agradeci do fundo do coração mas também nunca mais disse nada, tive o moço firme e à distância que exigi, a mãe era minha, uma sogra que não pode ver mortos nem gosta de funerais, quem gosta? Uma cunhada que nem apareceu e desejava ter sido a feliz contemplada com tremenda tristeza que a salvaria de admitir que não queria falar mais com a mãe por dinheiros que exigia, assim teria logo herança, sem ser necessário desejar-lhe a morte, como fez em palavras, vizinhos curiosos, amigos que não tiveram oportunidade de me consolar por estarem pior que eu, não sabiam como aguentava eu ou como reagiriam se estivessem no meu lugar.
Pouco antes, de prenúncio, o vizinho do fundo da rua tinha-se atirado da ponte ao rio Tejo e a vizinha da frente tinha herança repleta de suicídios jovens.
Hoje em dia não gosto de matas densas, foi lá que a encontrei em banho de sangue e olhar vidrado no vazio.
Tenho nojo do meu pai a quem já culpei, culpo-me a mim por sempre ter sido obrigada desde muito cedo a viver distante deste horror e não ter estado por perto para me aperceber e impedir a tempo.
Depois de assim filha não quis ser mãe de alma prenha de uma desgraça que a mim se agarrou, passo agora o tempo a fugir do infortúnio para que a segunda metade da vida me faça encaixar de melhor agrado na morte, com revolta mais desbastada!
Podem dizer que sou rude e intrépida mas a minha força de arestas vivas apenas cresceu com a escolha negada de poder ser humanamente vulnerável, empedernida, já não sei existir de outra maneira!
10
Dez19

Mariquinhas pé de salsa

Rita Pirolita
Da boca de todas nós já saiu pelo menos uma vez...não, não estou a falar de asneiras, comigo então, saem-me todos os dias nas mais variadas situações, estou a falar de ditos populares que apelidam os homens de mariquinhas, como não aguentando uma unha encravada, se tiverem uma dor de cabeça vão morrer, preparam as homilias mas antes o mundo acaba sem poder ouvir mais os seus ais, se alguém tem um tumor benigno, eles estão em fase terminal de metástases até à ponta dos cabelos, se estão com uma gripe não há chá, vitamina C ou farmácia que os valha, só a canjinha da mamã, que também é a única que lhes consegue enfiar supositórios pelo cu acima, sem estrebucharem ou pensarem que podem vir a gostar tanto que mais tarde viram panilas!
Já sem paciência para aturar as suas lamúrias, chegamos ao ponto de lhes desejar pelo menos ter um filho que seja, na sua máscula vida sem útero, não sei por isso como seria possível darem à luz, não sendo, desejamos que as pedras dos rins se mexam e que vão parar às urgências com uma cólica renal daquelas, o chamado parto dos homens! 
Isto tudo são coisas comprovadas e vividas por quase todas, se não todas nós mas pergunto eu, desde os primórdios não eram os homens que caçavam, iam à guerra, defendiam as suas damas em duelos ou à porrada e batiam nas mulheres por necessidade de domínio e superioridade de força física também, porra??? 
Excluindo a porrada nas mulheres, que raramente retribuíam, lá havia uma ou outra que pegava na moca ou na frigideira e mandava a vulnerabilidade feminina e vitimização da violência doméstica às urtigas, na maioria das situações as alhadas em que os homens tinham que se meter para marcar território e mostrar bravura, deviam doer como o caraças!...
Emboraestou cá desconfiada, em algumas alturas foi mais uma feira de vaidades, um regabofe de gabarolice marialva...
Ora, se os homens já têm essa informação genética no corpinho desde os antípodas da humanidade, porque estará a desparecer? 
Querem que se acrescente, à já extensa lista de iniciais LGBT+, o MPS de mariquinhas pé de salsa?...
Gaja que é gaja, anda com dores de cabeça sem tugir nem mugir, das poucas situações em que grita e nem é de dor é mais para fazer força, é para deitar cá para fora aquele monte de carne ensanguentado com olhos, que todos já fomos...
Nos funerais as mulheres também são mais efusivas, nas discussões podem ser umas éguas relinchadoras, são muitas vezes umas cabras dissimuladas na competição, são de certeza umas loucas nas compras e perdem a compostura nos saldos e na caça aos gajos com graveto...
Já chega de expor as características femininas mais irritantes, segundo a opinião masculina, não a minha, cof, cof. 
Está visto que tenho de escrever um texto só dedicado a esta raça milenar! A seu tempo.
De resto, parece que andamos sempre armadas em pit-bull, com uma sensibilidade quase nula à dor e algumas quando agarram o osso já não largam...eu não, que sou vegan!

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