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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

19
Out20

Foi em Outubro

Rita Pirolita
Foi no meio de Outubro, mês de mudança, de sol baixo, envolvente e doentio de febre, de arrepio nocturno e manta de calor diurno no areal.
Acordei nesse dia de nascença com calma estremunhada, da noite em sobressalto pelas melgas que se escondem no fresco, prontas a vampirar o sangue dos Gulliver's que descansam amarrados à cama por sono profundo, de tornozelos e pulsos desnudados e indefesos com fina pele a cobrir os riachos subterrâneos de sangue, que as melgas sem nariz farejam à distância de quilómetros.
Não planeie nada, fiz o que me deu na gana com uns ameaços de sugestão de ir almoçar aqui e jantar acolá, acabei por ir petiscando o que me apetecia e à hora que me dava vontade. 
Cheguei ao fim do dia como se um ano não tivesse passado, sem dar conta, envelheci mais um pouco. 
Não é suposto que todos os dias, a cada minuto a vida inteira seja assim? Sem marcações ou planos, sem pressa, a fluir, a aceitar a vontade que o tempo traz, o desejo da comida que há, o calor dos que estão. 
Não peço nada, apenas esperanço sem destino marcado que tudo de bom me cruze caminho!



26
Nov19

Sardinhada

Rita Pirolita
Agora que me sento em cadeira confortável e dia tépido que os últimos foram de canícula e abafamento de cancro do pulmão, vou descrever uma noite ambrósia de sardinhas, as verdadeiras protagonistas!

A prática do benemérito patrono do jantar no segundo dia de Outubro trouxe sardinhas na brasa, como o nome diz e obriga na sua correcteza em vez de peixe alinhado em grelha intermediária queima directamente em brasa nobre, composta apenas por pinhas bravas amansadas pelo poder da queimadura, crepitantes e fazedoras de um calor dispensável em noites de mais de 30º mas que mantêm o seu encanto incandescente, no escuro da noite de lua quase cheia e maré-baixa quase até ao fundo do horizonte como de um escorredouro de mar se tratasse, a deixar  descoberta a conquilha que escapa pela submersão quase constante de tantos donos de calcanhares que a querem comer sem a deixar crescer o suficiente para fazer rechonchudice que encha a boca numa explosão de sémen oceânico.

As pinhas crepitam e enchem o rosto de febre e luz, minguam e espalham, fazem-se à cama para receber a escamosa prata que em menos de 5 minutos se recolhe em gordura de ómega suculento, se faz transportar ao pão para ser despida da pele e comida aos lombos, a chupar os dedos que no leito da noite se vão esfregar em corpos e lençóis com a sua cheirosa morte devorada em prazer pelo menos até à manhã seguinte.

Rega-se com vinho, sangria, cerveja ou kombucha que a noite não está para escolhas difíceis e sim para libertinagem. 

Panos suspensos de yoga experimentado a medo que a idade e o peso nos tiram a leveza dos gestos e nos pesa a experiência da transcendente alma que pese talvez apenas um milésimo de grama. 

Assim se reconhece a sabedoria que vem em tempo tardio e corpo a mirrar, quando já não é precisa e se viesse em idade jovem tiraria a beleza dos momentos adolescentes que de drama a beleza têm em comum o encanto fadoso e desconsolo suicidário de parecerem intermináveis. 

Na idade do nosso tempo só o eterno é perdurável e a esperança no encanto acaba des-sonhada na morte!

Fala-se de motivação, seitas, descompressão de vértebras e alinhamento de chacras, todos sabemos ao que estamos, o simples e puro prazer de viver, comer um animal com olhos e sem orelhas ou pescoço que à meia hora se contorcia em rede rodeada de cães rafeiros e pescadores rudes modernos cobertos de camisolas NIKE, Lacoste ou TommyHilfiger. 

A dureza vestida de PRADA.

As conversas acidentam-se em ponte caída de quando em vez que nós os seres humanos teimamos vezes demais em não deixar fluir mas o tempo está aí sem pena ou compaixão, o dito já foi e o monólogo vira diálogo lançado ou picado, silêncio de dúvida ou ideia tardia calada a pensar na resposta contorcida no argumento enquanto a sardinha se revolve nas papilas intumescidas de saliva.

Todos nos rendemos ao simples alimento pela noite dentro que tanto nos dá energia para pensar e falar como nos atordoa os sentidos em sabor deleitoso...e companhia certa, aquela que está, a que não está nem errada é.

As melgas teimam na bicada de alguns e livram outros de tão pequeno ferimento que tanto incómodo causa.

A noite termina mas não acaba, não desce na temperatura, o convívio esmorece com o torpor da digestão, à sonolência da adiantada hora junta-se a moleza do mar como de dia trabalhoso no campo se tratasse, terminado em felicidade cansada e estômago recomposto por comida de fogo ancestral. 

Terminamos em abraços de despedida, dizeres de até amanhã e caloroso amor de alimento.

Destes momentos não guardo nada tal como guardo tudo sem ocupar espaço no tempo ou na alma.    

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