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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

15
Jul20

Celofane angelical

Rita Pirolita
Só uma coisa por demais evidente me chama à asséptica civilização, outras o farão mas serão menores e menos notadas por mim. 

Sou viciada em limpeza e organização, por isso tento poupar-me a dores de cabeça não acumulando lixo na esperança de um dia usar o que for, uma vez que seja, para mim nada justifica viver prisioneira de tralha e sua respectiva limpeza e catalogação, por isso me dou tão bem a fazer campismo à séria, daquele em que se leva o essencial do mais importante que muitas vezes é quase nada para além da roupa no corpo, tal como um amigo do moço que faleceu novo, malapata esta de nos magoar mais os bons que partem cedo, que os camafeus que por menos que durem é sempre demais, pois este grande senhor um dia foi de férias para Cabo Verde com um saco de plástico na mão e não foi por isso que deixou de ir e divertir-se.

Feita a introdução sobre coisas que aprecio e pratico, simplificar ou não complicar o que já é simples, volto a esta pequena cobiça de perfume que tenho, é isso mesmo, quando estou de férias uso apenas desodorizante por opção mas tenho a sensação que por melhor qualidade que tenha cheira sempre a desinfectante da sanita e WC em geral, daquele que pica no nariz e nem encobre nada bem o cheiro a urina entranhada, pelo contrário parece que assenha mais ainda, como se cheirasse a cagalhão no meio do pinhal. Pois então, o que me faz fechar os olhos e virar o nariz é um bom perfume que passe por mim, aqueles que cheiram a acabado de sair do banho, fresco sem ser pertinente mas notório.

Pois aqui deixo o meu pecado caprichoso, o meu perfume favorito, Angel de Thierry Mugler, o cabrão de merda conseguiu criar um aroma sofisticado que nem todas as personalidades aguentam ou têm coragem de usar. Um cheiro a papel celofane, entre o selvagem e o robótico, um cheiro com arestas que se faz notar, que até incomoda os que não o conseguem usar! 

Outros aromas tive que gostei e digo aromas porque quando um perfume me agrada é fácil imaginar-me a comê-lo ou bebê-lo. Gostei de um Ocean eau de parfum da Body Shop que deixaram de fazer, cheirava a protector, maresia e trópicos. Gosto de frutos, madeiras e toques de tabaco, detesto florais e patchouli, tudo cheiros enjoativos a velha francesa.

Não morro por um perfume mas quando não o posso carregar, aproveito passar pelo dutyfree dos aeroportos, vou direitinha ao tester do Angel e ganho asas!
15
Jul20

Porto Brandão

Rita Pirolita
Em outro dia que não este, fui a Porto Brandão, o da Margem Sul com barco para Belém.  

Descemos uma fresta de terra de beirais de estrada descaida, carcomida e esfarelada, que a muitas quintas rasgou as entranhas, quintas não minhas, a cair, recuperadas, abandonadas, com donos imaginados a cheirar a mofo, envoltos em traças e percevejos.

Desço a um pequeno sítio onde as casas se aconchegam num cu de rio em foz, cais negro de maresia, sem falta, uma igreja e respectivo largo, três restaurantes, dois fechados, a tasca da terra com bêbedos paridos e morridos neste buraco modorno, vêem-se casais com ar de fim-de-semana, daqueles que estão sempre de folga durante o dia e à noite entregam-se aos negócios dos corpos magros e chupados!

Outra vez a nostalgia de uma Margem Sul abandonada de beira rio chorosa, queria sentir o aconchego de ser velha e ter vivido num lugar assim misterioso, com os altos e baixos normais de uma vida sem muitos sobressaltos! 

Que tivesse a recordação de estar quente e protegida de dias de tempestade, em que o vento força a greta da terra mas que também recordasse dias luminosos, fim de verão no átrio da igreja, a falar dos mortos que ali não têm espaço de cemitério, só de velação! 

Que nunca deixasse de sentir o cheiro do mar chocalhado, a minúscula praia ficaria até à minha morte.

Subo aos céus da igreja pelas encostas e vejo que Porto Brandão me foi um pedaço de céu oferecido pela terra!

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