Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

04
Ago20

Esquecida de mim

Rita Pirolita
Tenho uma curiosidade muito controlada e moderada de saber quem me lê mas muita curiosidade desmedida em saber o que sente quem me lê. 
Se são altos, pobres, de olhos azuis ou ruivos, reformados, novos, de meia-idade...Pouco me importa, a alma não é gorda ou magra mas pode ser cheia, vazia ou preenchida e o coração sem querer será sempre uma bomba de sangue, quente e viscoso! 
Quem me gosta, quem me desgosta e se desilude, como é esse processo de arregalar os olhos em frente a um texto do meu blog no écran de cada um? 
Arregalam os olhos de surpresa ou semicerram de raiva, incompreensão, confusão ou indignação? 
Sou assaz social se não me exigirem que o seja por muito tempo ou por imposição, sempre sem compromisso mas se me esquecerem numa ilha deserta de gente nunca mais dou sinais de vida, facilmente me entretenho e me distraio com o mundo que me rodeia, por mais pequeno que seja vejo sempre pormenores diferentes sem limite de imaginação. 
Desenho um mar, pinto um céu ou escrevo, escrevo muito sobre tudo e nada como agora que estou para aqui sem a certeza de querer interagir com os que me lêem ou na senda de apenas os agitar?...
Muitas vezes tento estancar esta sangria de ideias, este turbilhão de inspiração que me desinquieta sobremaneira que não me larga nem deixa em paz.
Se quiserem dizer alguma coisa não escrevam cartas nem façam sinais de fumo é mais prático depositarem na caixa de comentários abaixo...
Se não já sabem...estou na ilha esquecida de vós e às vezes de mim!
20
Jul20

Ocupas-rastafaris-contrafeitos

Rita Pirolita
Eu sou muito open mind, viajei muito, papei muito concerto e sempre que posso vou acampar à beira mar mas não me peçam para aturar ocupas-rastafaris-contrafeitos com a conversa dos retiros, nem pagam as ganzas que fumam nem tomam banho, não lavam os dentes e andam com roupa cheia de buracos e quinoa nos dreadlocks do jantar de há uma semana, só porque é cool e os pais pagam!
15
Jul20

Tribo

Rita Pirolita
Numa volta pela Cova do Vapor passei pelos parques de campismo da Costa de Caparica, uns mais finos, o do Inatel, outros mais tipo trailer park, pejados de retornados e emigrantes sem família de acolhimento. Encontram aqui o calor de uma comunidade onde vivem como sardinha enlatada de forma provisória-permanente, à beira de caminhos poeirentos, esgotos mal fechados, fossas mal abertas, restaurantes de vão de estrada, tudo à beira-praia nos locais mais cobiçados pelos patos bravos das vias-rápidas e hotéis, que assim que começarem a mexer entulho e refinar bagulho, vai tudo corrido por tuta e meia com a coisa da mãe às costas, porque a voz dos pobres não se levanta mais alto que o dinheiro dos ricos!

Eu sei que a maioria, os cagões da classe média, que viveram em prédios nos subúrbios mais baratos, anseiam por vivendas em condomínio privado com as fuças o mais possivel na aguinha salgada mas eu sou sincera, não me abandonou a sensação de conforto e protecção da tribo, da família estendida aos vizinhos, ao revisitar locais que ainda mantêm o espirito de clã, senti-me com toda a sinceridade mais em casa e mais gaiata de vida vivida, que ao passar por locais de mansões fechadas, por ruas e becos vazios, jardins impecáveis, árvores aparadas, piscinas tapadas e carros arrumadinhos na garagem! 

Sentir o sangue de gente pirosa, o bairrismo, não aquele cliché de Alfama, o café central, o mini-mercado da esquina, os pescadores encostados de mini na mão, os recentes turistas que deambulam, baralhados talvez com imberbes sinais de protecção de dunas naturais, com vestígios de entulho despejado noutros tempos, à mistura com lixo que vem do ar e do mar e cagalhões que vêm do cu dos cães, são do bairro, ficam no bairro.

Gente feia e escura como breu, desdentada, com piercings e tattoos, muito cool, campo da bola e parque infantil ao lado do muro onde giranda a ganza, cabelos ainda oxigenados, calças e blusões de ganga ainda debotados, botas de trabalho, berros de chamamento de vogal aberta e prolongada! 

Se bem me lembro e lembro muito bem, vivi mais feliz num local parecido, de pó e terra batida, de vizinhos feios com hortas, alguns não tomavam banho, outros praguejavam mas aos nossos olhos éramos todos normais, nem feios nem bonitos, nem ricos nem pobres, nem simpáticos nem intratáveis, cada um sabia lidar com cada qual! 

Éramos de sangue distante mas próximos nas veias e suor, nas rixas e discussões! Não gostávamos que alguém deitasse abaixo o nosso clube, a nossa rua, as nossas crianças, a nossa escola ou igreja, o nosso café era a segunda casa, a mercearia a terceira que fiava, na rua tudo se sabia, ao jantar tudo se fechava e silenciava, só se ouvia o barulho dos talheres a bater nos pratos e a telefonia de fundo, sintonizada numa estação portuguesa com certeza!

Era aqui que me sentia bem e recordo toda a familiaridade quando visito estes bairros, com alma e carisma, com lixo e cheiro humano, cães rafeiros e poeirentos, mercedes e audis escafiados mas a rolar.

Os bairros dos ricos têm cheiro a mofo, dinheiro estagnado, riqueza estável, não sobe nem desce, a mão da empregada limpa o limpo e morto até ao fim-de-semana em que os gordurosos donos se arrastam para a piscina, de musgo morto e relva aparada!

Tenho tempo para não sentir a vida, se ficar uma rica normal, for uma pobre anormal ou com toda a certeza quando morrer!
22
Jun20

Menina do mar

Rita Pirolita
Ai se eu falasse de sedução sem coqueteries, sem rodeios ou pornografias, erotismo de semblante nostálgico, sem boca de morango ou olhos semi-cerrados. 

Convite a secar ao sol o sal espesso na pele que racha os lábios e arde nas bochechas queimadas. 

A menina do mar vê no peixe animal voador, nas algas macieza de descanso, na tempestade a rudeza do amar, no pôr-do-sol a verdade descaída. 

As sereias nunca se mostrarão mas os que vivem o mar acreditam em seres profusos de profundezas, acreditam na reprodução do simples estagnado, porque a bela vida pouco mais é que o monótono bem, de mal em mal se descobre a tristeza de não puder ser uma menina a quem basta viver de cobertores de areia e banhos de brisa.
02
Abr20

Fim do Mundo

Rita Pirolita
Disseram alguns nos últimos tempos com ares de ciência/bruxaria, o fim do mundo está aí, com grande ajuda nossa mas nunca em nosso nome ou honra!
O que nos confere tanto convencimento em acreditarmos que conseguimos destruir o mundo? 
Conseguimos baralhar as ideias e voltar a dar mas andamos a apostar nas estrelas erradas!
Fala-se no domínio de uma elite, que quer reduzir a população mundial impondo medidas e impostos às alterações climáticas para redimir os pecados da poluição humana, assinando tratados atrás de tratados que não tratam de nada nem beneficiam ninguém principalmente se não sairem do papel. 
Uns dizem que as alterações do clima, nomeadamente aumento das temperaturas, degelo dos glaciares e subida do nível da água do mar, são cíclicas, outros que a poluição vai ser a grande responsável pela nossa extinção, já andamos há milhares de anos a viver em sucessivas camadas de lixo e cadáveres e isso nunca destruiu nações, pelo contrário, alimenta a terra e recicla, se ficássemos cá todos já não havia espaço para tanta porcaria, por isso tem que ser bem calcadinha em camadas sedimentares ou dissolvida em CO2, outros ainda dizem que o Trump tem razão em se estar a cagar para isso, que tudo não passa de uma falácia inventada por quem quer destruir e controlar um líder que veio marcar a diferença.
Outros ainda dizem que tudo está incontrolavelmente destinado nas sagradas escrituras ou o poder está nas nossas mãos, na mudança de consciências e educação para uma vida melhor e um planeta mais sustentável.
Assim se criam teorias da conspiração sobre invenções que queriam passar por verdades. 
Eu até posso tentar encontrar lógica na maioria das especulações sobre o fim do mundo mas nenhuma ultrapassa nem se compadece, com o meteorito que vai f@der isto tudo sem termos tempo de dizer ui ou no aquecimento global que vai queimar a crosta terrestre que nem ferro incandescente em leite creme ou que vamos ficar sem água potável e morrer sequinhos que nem carapaus! 
 Acreditem ou não, pouco me importa quando isto acabar, desde que até lá tenha tempo de ganhar o euromilhões e não ter preocupações de pobre com impostos e reciclagens para um mundo melhorzinho e paradisíaco para as nossas criancinhas. Não tenho cria nenhuma a quem deixar herança e tal como todos os seres humanos, não me preocupo com o vizinho do lado e não lhe desejo a morte, desde que ele não me chateie os cornos. 
O meu mundo será muito melhor, sem balelas hipócritas e discussões de oradores palermas que só atafulham o silêncio sem dizer népia e muito menos fazer nada de jeito!   
21
Mar20

Millennials, centennials e snow flakes

Rita Pirolita
Mais um jantar de amigos de conquilha coberta de coentros e acidosa laranja amarela, tarte de côco em bocadas tropicais, vinho tinto mostoso e verde picante, cerveja luposa no goto e ao gosto de cada um e de todos! 
Noites quentes de calafrio tardio, cão satisfeito a rondar a mesa em tentadas infrustradas de petisco fácil. 
Por cada olhar canino tão convincente, que parte corações, iriamos até ao fim do mundo buscar um osso de roer, mesmo que não precisasse e estivesse a rebentar de obesidade, não é o caso ainda mas com tanta insistência não demorará a chegar ao estado de intumescida salsicha com pernas!
Ar feliz em casa de mar, cheiro a fumeiro e cacimba de lua, as conversas saem parvas com ruidosas gargalhadas sem vizinhos para queixa, as falas tornam-se sérias por breves segundos, a minha tentativa forçada de tirar nabos da pucara para escrever este texto sai frustrada com perguntas tão corriqueiras que nem as reconheço como minhas, armada em psicóloga da fava bruxosa ou terapeuta de banha cobreira que recorre a métodos brumosos para obter respostas. Ainda bem que a tentativa não tem resposta que a alimente, em pouco tempo percebo que nem a noite nem o convívio são de forças medidas, nunca serão, shame on me!...
As ideias e deduções seguintes são imaginação despretenciosa de como se foi confirmando ao que hoje se chegou!
O tema que desse fruto, esperava eu, seria a desgastada caixa de Pandora que revive como Fénix, homens e mulheres que de tão reprodutiva coelhice, nunca se extinguirão a não ser por força maior catastrófica de natureza desalmada e impiedosa com a pequenez sexual.
As mulheres são mais inteligentes? 
Para mim que o sou, não... 
Os homens que planam na pragmância levam a vida com mais esperteza e contemplativo esforço! 
As mulheres são difíceis de aturar e não se aturam a elas! Engalfinham problemas para inventarem soluções, baralham-se e voltam a dar-se!
São primorosas picuinhas de introspecção dilatada, porque uterinam as crias? 
Os homens acomodam-se em atitude de vida que está bem assim na constança do ócio, as mulheres esbracejam e sangram energia em gritos de protesto, não foram à guerra mas querem arranjar uma sua!
Dos primórdios os homens não engravidam, um só espalha crias em úteros abertos e receptivos que depois de fecundados, se a cepa pegar e o enxerto não desmaiar, tão depressa não estarão disponíveis para nova aventura. 
Os olhos fêmeos brilham de atracção ao melhor exemplar testeróneo que garanta cria forte e sobrevivente, não uma semente definhosa, que não desponte da terra, nem lhes cresça para dentro bem fundo e arreganhe em orla de gordura sangrenta.  
Degladiam a procriação pelo macho mais dotado que lhes dê varão, usam dos métodos mais escabrosos e escondidos de traição às restantes fêmeas pela primazia da escolha, a evitarem a segunda-mão no leito que cabe às mais ousadas e tratadas com menos requinte e respeito. 
Fémea usada e engravidada não é surpreendida na virgindade nem tem novidade, macho experiente tem procura para envolver, dominar e sustentar.
Abespinham-se com piropos e criam leis que os condenam, quando os machos querem é espalhar semente ao vento, debaixo de humidade moliqueira ou apenas dar música de acasalamento em competição garbosa e marialva.
O choque é de vontades e aumenta o fosso, quando os seres que se julgam civilizados ainda lutam para serem instintosos, como se vestíssemos um macaco com fato Hermenegildo Zegna e o largássemos a engatar macacas numa discoteca, cheias de perfume a lixiviar as feromonas, o símio fica baralhado e acaba por se lenganhar no fácil sem consequência, engancha o esporádico de prazer fugidio, sem prolongamento genético! 
Ela pensa da altivez da eleita e escolhida mas ele é que se entrega à escolha, em torpor e libertino desleixo.
Elas já não são domésticas nem falsas submissas, apaixonam-se por cartões de crédito não podem por isso reclamar muito crédito, vivem e largam o momento.
A estabilidade dos millennials e centennials está na mudança supersónica, snow flakes que morrem ao focinhar chão! 
Nos jantares que nunca chegam ao fim, forçamos o cansaço a fazer despedidas, de barriga cheia e alma regada, o cão adoptado de rua e lixo espraia-se nas pernas de um macho rendido a sofá fundo e morno de lareira!        
16
Mar20

A menina na ilha

Rita Pirolita
Era uma vez uma menina que não era parida de ilha ou ilhéu mas sabia querer ir para lá, ainda não era feliz sem fim.
Não sabia por quanto tempo ia prolongar a alegria da insularidade, esperava ela para sempre!
Logo ficou para descobrir!
Quando ainda não estava lá, imaginou não voltar a pôr pé em terra maior, ligada a mais terra com mais gente!
Viu-se em caminhadas por montes alisados, carecas de vento com vacas camurça e a preto e branco, por escarpas sulcadas de raiva salgada de ondas espelho ou carneirinhos  chorões e espumosos. 
Deduziu que a quisessem visitar por pena, disfarçando que a iam ver porque gostavam sem interesse e lhe queriam fazer companhia por estar tão só. 
A menina nunca pediu visitação nem teve solidão mas alguns se impõem na senda para mais tarde poderem cobrar troca de companhia e atenção em visitas a terras-continente! 
A menina fez esforço doce e não de rebelião, de proteger o espaço e a alma da invasão de quem não sente o mar e aqueles pedaços de terra, como do mundo-casa da menina, que não quer o dever de estar e todo o direito de ser. 
Quando um dia a menina decidiu sair da ilha para ir visitar por obrigação, mais que respeito e nenhuma vontade, quem a quis visitar em tempos e ela não quis...
Uns já tinham partido, outros estavam indisponíveis e outros ainda disseram que não, vingando a ausência de visitas passadas que sempre entenderam como desprezo em vez de pura liberdade de quem não depende de ninguém para ser feliz! 
A menina não ficou chateada e confirmou em si, que a tentativa de sair da ilha, com pouca vontade para ir ver gente que não lhe dizia muito, só veio confirmar que a menina gostava era de caminhar com o seu cão e assim foi feliz no meio de um oceano.
26
Nov19

Sardinhada

Rita Pirolita
Agora que me sento em cadeira confortável e dia tépido que os últimos foram de canícula e abafamento de cancro do pulmão, vou descrever uma noite ambrósia de sardinhas, as verdadeiras protagonistas!

A prática do benemérito patrono do jantar no segundo dia de Outubro trouxe sardinhas na brasa, como o nome diz e obriga na sua correcteza em vez de peixe alinhado em grelha intermediária queima directamente em brasa nobre, composta apenas por pinhas bravas amansadas pelo poder da queimadura, crepitantes e fazedoras de um calor dispensável em noites de mais de 30º mas que mantêm o seu encanto incandescente, no escuro da noite de lua quase cheia e maré-baixa quase até ao fundo do horizonte como de um escorredouro de mar se tratasse, a deixar  descoberta a conquilha que escapa pela submersão quase constante de tantos donos de calcanhares que a querem comer sem a deixar crescer o suficiente para fazer rechonchudice que encha a boca numa explosão de sémen oceânico.

As pinhas crepitam e enchem o rosto de febre e luz, minguam e espalham, fazem-se à cama para receber a escamosa prata que em menos de 5 minutos se recolhe em gordura de ómega suculento, se faz transportar ao pão para ser despida da pele e comida aos lombos, a chupar os dedos que no leito da noite se vão esfregar em corpos e lençóis com a sua cheirosa morte devorada em prazer pelo menos até à manhã seguinte.

Rega-se com vinho, sangria, cerveja ou kombucha que a noite não está para escolhas difíceis e sim para libertinagem. 

Panos suspensos de yoga experimentado a medo que a idade e o peso nos tiram a leveza dos gestos e nos pesa a experiência da transcendente alma que pese talvez apenas um milésimo de grama. 

Assim se reconhece a sabedoria que vem em tempo tardio e corpo a mirrar, quando já não é precisa e se viesse em idade jovem tiraria a beleza dos momentos adolescentes que de drama a beleza têm em comum o encanto fadoso e desconsolo suicidário de parecerem intermináveis. 

Na idade do nosso tempo só o eterno é perdurável e a esperança no encanto acaba des-sonhada na morte!

Fala-se de motivação, seitas, descompressão de vértebras e alinhamento de chacras, todos sabemos ao que estamos, o simples e puro prazer de viver, comer um animal com olhos e sem orelhas ou pescoço que à meia hora se contorcia em rede rodeada de cães rafeiros e pescadores rudes modernos cobertos de camisolas NIKE, Lacoste ou TommyHilfiger. 

A dureza vestida de PRADA.

As conversas acidentam-se em ponte caída de quando em vez que nós os seres humanos teimamos vezes demais em não deixar fluir mas o tempo está aí sem pena ou compaixão, o dito já foi e o monólogo vira diálogo lançado ou picado, silêncio de dúvida ou ideia tardia calada a pensar na resposta contorcida no argumento enquanto a sardinha se revolve nas papilas intumescidas de saliva.

Todos nos rendemos ao simples alimento pela noite dentro que tanto nos dá energia para pensar e falar como nos atordoa os sentidos em sabor deleitoso...e companhia certa, aquela que está, a que não está nem errada é.

As melgas teimam na bicada de alguns e livram outros de tão pequeno ferimento que tanto incómodo causa.

A noite termina mas não acaba, não desce na temperatura, o convívio esmorece com o torpor da digestão, à sonolência da adiantada hora junta-se a moleza do mar como de dia trabalhoso no campo se tratasse, terminado em felicidade cansada e estômago recomposto por comida de fogo ancestral. 

Terminamos em abraços de despedida, dizeres de até amanhã e caloroso amor de alimento.

Destes momentos não guardo nada tal como guardo tudo sem ocupar espaço no tempo ou na alma.    
09
Set19

Viagens

Rita Pirolita
Hoje é dos dias que escrevo sobre nada mas escrevo mesmo assim, não consigo conter o desejo de o fazer!
As malas de viagem são mais mochilas maneirinhas, que esticam e encolhem com a simplicidade e boa vontade, o tamanho da bagagem diz muito sobre o viajante e o que vai ou não lá dentro, diz mais ainda!
Prefiro levar pouco e poupar espaço para trazer, nem que seja brisas de mar e grãos de areia...há quem leve o que nunca usou, só use menos de metade e traga mais que não vai usar.
As viagens são para descansar braços e atafulhar a alma. 
Há quem compre a madeira, a concha, o osso, a escama, o marfim, a pele e o couro, a carapaça, o iman Made in China...tudo seco e ressequido que nem carapau, lambido e revendido. 
Há quem compre porque não levou e precisa, há quem não compre porque não precisa de precisar ou porque não lhe apetece precisar e as viagens são o cruzamento com locais, vidas e cheiros, alimento para repor a energia ou para fazer salivar os sentidos em hora de descanso.
Para uns a corrida contra o tempo, para outros o tempo que houver ajustado ao ritmo que se tiver. 
Uns reclamam a mordomia que nunca tiveram, outros aproveitam a benção da liberdade de não ter rotinas e contar apenas com a roupa que se veste e a alegria do imprevisto, de se perder por não ter mapa e acabar em paraísos.
Há quem programe tudo e faça lista, há quem deixe o acaso calhar e a intuição ditar. 
21
Mai19

Os ursos também hibernam!

Rita Pirolita
Das coisas que tenho mais pena de deixar quando morrer, são o Sol e o Mar, adoro calor, o cheiro da praia, os dias longos, as noites quentes. É um sacrifício desumano viver num país frio, o convívio não é espontâneo, dão apertos de mão de lampreia morta. Quem não é convicto nem nos pequenos gestos da vida, merece viver no país dos ursos, eu é que não mereço viver aqui, tenho a certeza do tipo de sítio a que pertenço e nunca desistirei de lá assentar costados e ficar para sempre. Entre ursos, coiotes, montanhas e cães de marca, prefiro caracóis, cães rafeiros e planícies amarelas, num pais pequeno que chega para quem lá está. Igrejas frescas, refúgio perfeito em dias quentes, areia, mar, açorianos que têm vergonha do seu sotaque deste lado do Atlântico. Neste sítio frio, estou sempre na plateia, nunca no palco! Sou música de fundo num bar de bêbedos! É difícil fazer amigos, no máximo tens conhecidos delambidos, que marcam encontro com uma semana de antecedência e sujeito a confirmação no dia anterior, para beber um café no Tim Hortons, uma coisa intragável, não há cá expresso bom e cheiroso, ora eu sei lá se daqui a uma semana me apetece beber um café com aquela pessoa, isto tira a tesão a qualquer latino. Não há cá jantares de 5 horas com os amigos, daí a duas horas a mesa já tem outro dono. As eficientes empregadas parecem deficientes a debitar sem emoção e quase sem respirar, os pratos mais caros do menu, como sendo as melhores sugestões e escolhas que algum dia possas fazer nas redondezas. Informam das promoções e "happy hours" do dia e rematam com um "here, everything is made from scratch", o que me soa sempre a "vais comer raspas e sobras de outros pratos". Para estes amantes de fast-food, basta abrir uma lata de feijão, misturar ketchup, aquecer no micro-ondas e servir, como se o mais natural fosse o feijão nascer enlatado, no máximo, emborcas duas bebidas, engoles a refeição, pagas e bye bye, pontapé no cu, assim que terminas a refeição, sem pedir, já tens a conta em cima da mesa, se deixares gorjeta abaixo de 10 ou 15% do total, pelo pobre serviço, tens tromba à despedida, se não deixas nada pelo mísero serviço, se pudessem, cospiam-te na comida e mijavam-te no vinho na próxima reserva...Mas nem coragem para isso têm! Fraquinhos! Nem pensar ir a um bar ou dar um pezinho de dança, até pelo menos à meia noite, a malta está sempre de rastos, trabalha muito e tem filhos. Tenho cá a impressão que nem fazem filhos da mesma forma que nós! Nunca vi esta merda de atitude em Portugal ou outros países com salero! Também se trabalha, tem-se filhos, os putos vão à tasca com os pais comer caracóis, podes beber uma cerveja em local público, podes fumar na praia, na Califórnia levas multa, por lá, ou deixas de fumar ou deixas de ir à praia. Queridos países a norte do hemisfério norte, vocês são conhecidos por trabalhar muito e gozar pouco, no inverno até os ursos hibernam e vocês, desculpem que vos diga, é que fazem figura de ursos. Canadianos, um conselho, não gastem tanto tempo a mostrar que são completamente diferentes dos americanos. Não têm comida nem boa nem típica e são quase todos obesos e cor-de-rosa. Os canadianos esforçam-se por ser mais educados e mostrar um pouco mais de literacia e cultura, de resto já se questionaram porque ambos falam a mesma língua? Porque os colonizadores foram os mesmos, que vão carregar o karma de ter sacrificado tantos nativos à sua chegada e até hoje não os respeitarem. Dito isto, num dia cinzento, a descoberta deste vídeo foi um raio de sol que fez a minha alma rir a bandeiras despregadas. Enjoy it!

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub