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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

16
Dez19

Polaroid

Rita Pirolita
 
 

As fotos antigas, de chapa, Polaroid ou rolo guardavam-se em álbuns pesados e gordos. 

Se a fotografia no passado era a captação de um momento agora é a preparação de uma pose.

Não havia selfies mas sim pedido a quem passasse que tirasse a foto e rezar para que não desatasse a correr de máquina na mão, mais tarde com temporizador, ou tirar fotos em que um ficava atrás da máquina mas aparecia na foto a seguir porque trocava com outro.

Exceptuando algum foto-jornalismo e fotos artísticas, as fotos antigas eram familiares, espontâneas, únicas, os rolos eram caros, não dava para apagar e repetir ou tirar 500 mil fotos. O que estava ficava, não se repetia e só por isso eram captados sempre os melhores momentos.

Eu sei que pareço uma saudosista velha do Restelo mas sinceramente já viram as fotos que partilhamos hoje?
Bocas de pato, poses de Barbie, narcisos solitários, rabos, mamas, pernas e pélvis ao sol...
Onde estão os miúdos a fazer castelos de areia com pás e baldinhos coloridos, os homens barrigudos e as mulheres com rufegos nas costas, os piqueniques no pinhal, os aniversários com bolo caseiro e amigos verdadeiros de longa data, os casamentos com os mais divertidos e bêbedos???
Onde estão as Polaroid, a fast-food da revelação, com o seu tom amarelado e moldura branca?

Já agora, sem recurso ao photoshop, se inventassem fotografias que fizessem de nós melhores pessoas?...Agradecida!  

08
Mai19

All-inclusive

Rita Pirolita
Veraneantes labregos que devoram o all-inclusive com gana de fim de mundo e sofreguidão de sem-abrigo.
Exorbitantes montanhas de camarão, puré de batata, hambúrgueres e douradinhos, que terminam num cocuruto de três e mais molhos em verde fluorescente, vermelho sangue pisado e branco deslavado. 
Pratos de somente amarelas frituras, batatas em palito, às rodelas douradas e azeitadas, panados de tudo e mais algo, ovos estrelados, mexidos ou cozidos. 
Pequenos-almoços de bacon, salsicha, ovo, feijão, pizza, frango, panquecas, queijo, ketchup e outras mais coisas de vómito, salpicados de frutas tropicais numa amalgama de nojo. 
Pais que deixam os petizes entupir-se de parvoíce, devaneios de azeitonas e pepino, rematados com cereais e iogurte. 
 
Ninguém sobrevive muito tempo a comer tudo isto, todos os dias, a entupir-se de colesterol e diabetes, aqui se apanham os que vieram da pobreza e gozam agora das férias popularuchas em sítios que já foram paradisíacos e passaram a brejeiros de brega...
Entrego-me à inquietação do wasabé, ao salgado cortante das alcaparras, à acidez da lima e ao desinfecto coentro.
Mulheres com mamas à frente e outro par nas costas, barrigas dilatadas, descaídas e gelatinosas. 
Mastodontes que se sentam à mesa com maneiras de princesa bela e magra que nem pena cálida, pretensa delicadeza de um peso pluma e abertura frugal de boca de passarinho, como se aquela grandeza de banha, dos excessos de 1º mundo, não fosse fruto de insistência diária de alarvice, que vai do mais processado às desculpabilizantes incongruências de uma tiróide baralhada e um pâncreas à deriva, porque até comem pouco e acompanham tudo com lighteza e pickles como o verde do dia. 
Gente que só se entende aos urros no meio de música gritada e bebedeira debaixo de sol escaldante, de cachaço empolado, de molho, no mijo do bar da piscina. 
Benditos empregados que sabem da profissão e amansam os estridentes bêbedos com shots da pior surrapa que guardam na garrafa que bem sabem, preparada para deitar abaixo titãns de férias em grupo e oferecer-lhes uma boa dor de mona na manhã seguinte.
Velhos das sete da manhã a marcar cadeiras com chinelos e toalhas presas por molas em feitio de golfinho ou estrela-do-mar, para passarem o dia no laró e só porem os cotos na praia ao pôr-do-sol, a recolher o aparato que não usaram.
Senhorecas que se aperaltam para se irem servir num buffet, e terem o baixo prazer de um empregado sem pescoço e suado, lhes servir um vinho frisante de má qualidade nada duvidosa e as tratar por ladys ou madames.
Ouvir falar alemão logo pela manhã, arranha-me o cérebro como cães raivosos de boca espumosa. 
Ingleses expressamente mal-educados de bairros sociais. 
Casais russos que parecem em acesa discussão a toda a hora e a cada olhar, a qualquer momento espera-se uma carga de porrada do quadrado marido na loira esposa.
Seres de olhos em bico, sem expressão, sem respeito, invadem, falam alto, passam à frente como se não houvesse amanhã...se não saíssem da terra deles, não lhes sentiríamos a falta.
Por estes sítios todos fazem de reis, que por pechincha querem coisa fina.
Quem complica o simples merece castigo e desenterias.
E assim descubro mais vezes do que queria e precisava, que a minha salvação e de muitos em meu redor...é não ter uma arma nas mãos!
Obrigado aos participantes deste circo, turistazecos borgessos que deram origem a este texto de escárnio e mal-dizer e dos quais passei os dias a fugir sem não antes, apreciar de relance a decadência dos feios bichos que somos.
 
Boas férias até ao fim do mundo!

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