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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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17
Jul20

Contos da Estrelinha Serigaita - A primeira e única anestesia da minha vida!

Rita Pirolita
Espero mesmo que seja a última porque não gostei nada da sensação.
Querido médico...até podia começar assim a minha carta mas já não se enviam missivas, além de que o meu pediatra já era um homem antigo na altura que eu era um rebento de repolho, por isso já deve andar a brincar com os anjos-enfermeiros faz muito tempo. 
Era este homem que exerceu também na minha década de nascimento nos 70's da Revolução que corria todos os bebés gordos a dieta-limão, contra todas as reclamações, indignação e desobediência das mães que tinham trabalhado tanto e tido tantas dores para ter um rebento de 4 quilos ou mais, careca e intumescido, bebé de anúncio de papas Cerelac ou Pensal, admirado por todos e que pensavam transpirava saúde, na época da gordura é formosura.
Eu já naquela altura era o seu modelo de referência a manter, comprida e magrinha mas a dever muito à beleza, depois melhorou!
Este pediatra também tinha outras pancadas típicas da época e uma delas era curar os sintomas de sinusite por mais leves que fossem, com uma operação às amígdalas e adenóides, devia ser mais barato aos pares e já que estávamos ali de boca aberta o nariz fica logo acima, eu apenas andava com ele entupido de vez em quando, agora olhando para trás devia ser uma coisa normalíssima na altura, tanto como agora, mesmo assim não me livrei da porra da corriqueira operação! 
A prevenção grassava e desgraçava por aqueles tempos e antes que se morresse disto ou daquilo, livravam-se logo das peças potencialmente problemáticas. 
Se vai ser obeso, tiramos-lhe já o estômago ou cozemos a boca, ou fazemos as duas coisas pelo preço de uma e meia, se vai ficar perneta tiramos-lhe já as duas pernas, assim em vez de muletas anda sentadinho na cadeira de rodas. 
Era assim a vida naquele tempo com tristeza de chorar a rir!
Lá levei com a dose dupla de me arrancarem coisas do corpo que até parece tinham crescido por excesso. 
Não deixo de recordar que uns anos mais tarde esta operação caiu em desuso e por mais dores, inflamações e amigdalites que um puto tivesse já não operavam, o moço já não foi portanto vitima da mundana obsessão cirúrgica e como nasceu 4 anos depois já não lhe tiraram os tintins da garganta. 
Vá lá que nos deixaram a todos o badalo central, vulga campainha.
Ora bem, o dia da minha única operação até hoje ficou marcado na memória, da baixeza dos meus 7 anitos lembro-me de uma sala com cadeiras de dentista em redor onde vários miúdos como eu estavam sentados ansiosamente à espera do talhante, uns choravam porque não sabiam o que ia acontecer e eu também não sabia mas não chorei, feita mula que era nunca dava parte de fraca. 
Só me lembro de uma enfermeira se aproximar de máscara em riste, um cheiro a borracha de lápis e depois apaguei! 
Acordei na mesma sala mas já deitada com uma choradeira à minha volta de todos os que tinham ido à faca e quando tentei falar com a minha mãe que estava mesmo ali à espera que eu acordasse da anestesia a única coisa que me saiu da boca foi um litro de sangue e depois fiquei caladinha sem ir à escola, enfiada em casa a comer gelados, iogurtes e a tomar leite gelado por uma eternidade massacrante e digo isto porque na altura eu odiava coisas doces e os gelados então eram uma verdadeira tortura de enjoo, tanto que a minha mãe nunca me conseguiu dar leite porque punha sempre açúcar, modas daquele tempo, vá lá que não levei com a aguardente na chupeta, um dia distraiu-se não pôs nada no leite e desde aí bebi sempre tudo até ao fim! Não foi no entanto por causa daqueles dias que passei a apreciar assim tanto coisas lambareiras!
Depois da operação as coisas voltaram ao normal mas nas férias de verão levava com doses de uma semana nas termas de água enxofrada que cheirava a ovos podres, no meio dos velhos com reumático e salas de 'descompressão' para evitar choques de temperatura.
Tudo isto recomendado pelo senhor doutor que me tentou curar de uma sinusite que nunca vi mais gorda na minha vida!
30
Jan20

País de pobres

Rita Pirolita
Filhos de pobres que habitam um país pobre!

Somos assim, vindos de gerações pobres que trabalhavam a terra e pagavam ao médico da aldeia filho de famílias ricas com porcos ou galinhas.
Tinha-se uma ligação aos filhos que não morriam ao nascer, de lucro e não de despesa, dois braços por cada boca.

Passamos a filhos que não trabalham mas comem à custa dos pais, fruto da ânsia de classes baixas, que se esfolaram para ascender, que se envergonham da dureza e pobreza da terra humilde, fazendo do curso de universidade dos filhos o baluarte da sua conquista mas esqueceram-se que doutores e engenheiros encabeçam uma empresa ou indústria mas não a movem sozinha, os patrões serão sempre em menor número. 

Estes pais, no seu egoísmo de novo rico, esqueceram-se que as elites continuam a dominar as profissões nobres e rentáveis, onde pouco se faz e muito se ganha na gestão do império, que os patos bravos tentaram atingir a muito custo, numa desesperada afirmação pela qualidade e acesso às mesmas oportunidades, quando apenas queriam parecer mais nobres e ricos.

A resposta à humilhação de ser pobre é usar a cunha, a corrupção e pontapear outros para que não impeçam o caminho da subida. 

Mas será sempre uma questão de riqueza? 
Os pobres não podiam pagar escola aos filhos, agora que podem dar cursos superiores, os filhos não têm emprego, apenas as elites se continuam a mover à vontade e a explorar, não só os mais pobres mas ainda por cima e mais humilhante, os pobres com cursos, o ensino superior não lhes permitiu mesmo assim, usar as ferramentas para combater a desigualdade sempre assente no poder. 

A ascensão social faz-se por casamento ou profissões pornograficamente bem pagas, como jogadores da bola, idolatrados por darem pontapés na bola ou por influentes cargos políticos, sempre nos meandros da corrupção mas nunca condenados.

Só nos países pobres se deixam passar os grandes desfalques e se rouba uma maçã, ou foge aos impostos, pensando que grão a grão enche a galinha o papo!

Era tão bom que a riqueza não se bastasse a ela própria e não fosse tão adorada e cobiçada! 
Mas a riqueza sabe que cala e compra o conhecimento e este será sempre escravizado em nome da hipocrisia!

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