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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

02
Mai21

O dia da mãe e seus filhos...

Rita Pirolita


Vou falar dos rebentos resultantes de alguns tipos de progenitoras.
 
Cuidado gays, andam por aí uns que são bichonas, fruto de mães solteiras ou divorciadas que têm imensos ciúmes das outras mulheres
Satisfazem-se em ter filhos que andam com homens, género de quem elas adoravam levar uns amassos de vez em quando mas ninguém as quer aturar faz muito tempo.
 
Os tímidos:
Filhos de beatas, não paciência para fazer de professora o tempo todo, de vez em quando também gostamos de um professor que nos castigue por não fazermos os TPC. 
Também podem virar taradões e violadores. É fugir destes!!!
 
Os desenrascados:
São todo-o-terreno, ainda poucos modelos mas têm boa performance
Infelizmente para eles, felizmente para nós resultam quase sempre da ausência da mãe.
 
Os machistas:
Ainda que demais são cada vez menos. 
Resultado da típica família em que o homem é que manda, mulheres só na cozinha a fazerem bifinhos do lombo para o maridinho e o filhote que está sempre a crescer até morrer.  
Hoje em dia se batem numa mulher o resultado pode ser pouco simpático para eles.
Mulher que se preze não gosta desse ar de pimp de camisa aberta até ao umbigo a mostrar figas de ouro em emaranhado de lo! 
 
Os que querem salvar o mundo:
Filhos de pais vegan, são fofinhos, nos primeiros anos de vida crescem sem saber que o McDonalds existe, pensam que o arroz ou as amêndoas têm tetas e dão leite, e que produtos 100% biológicos...vá lá amiguinhos, não existem,  em Vénus porque estão protegidos da poluição por camisas!
 
As filhas podem ser:  
Esgrouviadas, complicadas, independentes, Drama Queen ou loiras filhas de cabeleireiras!!!  
18
Jul20

O pai

Rita Pirolita
Vai parecer estranho e inventado, surreal macarrónico.
Quem me dera fosse, acreditem!
mãe arrancou a vida de si faz uns anos, vem agora o pai dizer-me de terras lusas que também pensa fazê-lo. 
De lágrima máscula contida confessa nas entrelinhas que o tempo de sobra lhe atenta a vida reformada.
Sente agora o que a mãe sem dar sinal sentiu nos antecedentes momentos de entrega aos seus fantasmas, sente a fraqueza a dominar, a força a abrandar e decide-se por comprimidos que lhe tiram pensamento, sonolento e de boca seca fica sem saber se sim ou sopas, por agora é muito melhor assim que não saiba o que sente de revolta atentatória.
Não será melhor tirar eu senha para ir à frente, abrir caminho nos céus e não levar com tamanha desgraça que parece pespegar a vida à traição?
Claro que não, ao pai caiu-lhe agora a moeda da vida que levou e fez outros levar, sem razão de revolta aparente é espontânea a luta contra moinhos de D. Quixote, tenho que montar o burrico e rumar para amparo.
Não consigo negar ajuda, cai-me tão mal naquele canto da alma que não reconheço em mim.
Tudo vai passar e não acabar como acabou da última vez, em que tudo acabou de vez!
14
Jul20

Se assim fosse...

Rita Pirolita

Morava na casa onde minha mãe nasceu, os pais foram-me deixando ficar, por protecção e ajuda em início de vida, mudei-me para a rua abaixo, ao pé dos avós maternos. 

O primeiro namorado foi do largo do mercado, ao cimo da rua, depois de coordenadas quezílias e amuos, acabamos por ficar juntos com forte aval da família. 

A mãe avisava para a vida com alguns espinhos mas nada que não se ultrapassasse com muito carinho e dedicação! 
Assim o fiz a quem vi fazer!
Íamos jantar a casa dos avós todos os dias, aos fins de semana ficávamos em casa dos pais a vegetar, a ouvir os canários e periquitos a palrear, o cão deitado de barriga ao sol a giboiar em cima de nós, tinhamos ovos e galinhas caseiras até não poder mais, bolos doces como a família, cheirava a comida de forno, cobertores em sofás de afundar, TV a reunir todos em frente aos Jogos sem Fronteiras, Festival da Canção ou Miss Portugal, tapetes em soalho para não arrefecer os pés, casacos para todos para o resto do corpo, música para a alma, clássica ou portuguesa, luz cálida de abundância remediada, névoa de sonho à hora das refeições.
Os avós adoravam-me e faziam qualquer coisa por mim, os pais desdobravam-se em sacrifícios para me darem todos os mimos possíveis, sem medo de me estragarem, nunca sem desrespeitar ou abusar do amor, aproveitei toda a união familiar, era eu o seu orgulho.
Fazíamos praia combinada com demorados piqueniques, visitávamos e eramos visitados pelos primos e tios, sempre de cesta plantada de iguarias da terra, cobertas com panos alvos de linho a serem levados de volta para a próxima visita, repleta de chouriças, azeite luminoso, couves doces, nabiças amargas e fruta picada, castanhas já livres de ouriço, nozes e avelãs sem ranço.
As festas populares eram de presença obrigatória e combinado convívio, os feriados religiosos com passagem pela igreja mas sem grande aparato, em nome da tradição.
Um dia o avô morreu de ataque fulminante, o coração explodiu, a avó disse que foi de tanta bondade, chorou o amor de uma vida de forma tão bonita e doce em homenagem de lágrimas e cerimónia simples.
Continuamos a viver todos juntos, perto em ruas, casa e coração, os Natais e aniversários eram celebrados com alegre parcimónia e saudade recordada e contida. 
Casei, depois de estudos concluídos e trabalho arranjado por conhecimentos do pai, lá nas finanças, o avô já não estava nem viu netos, dois lindos gémeos que romperam para a vida, um casalinho sonhado por todos de feições suaves e calma beleza, meninos de sua mãe, dóceis, sem sobressaltos ou traumas, mimados pelos avós e bisavó, mostrados a babar elogios no bairro onde todos respeitavam a família pela antiguidade e nada a apontar! Perfeita!
A avó foi deixando de andar, tratamos dela em casa, recusamos o lar de idosos, recorremos ao médico em domicílio, fizemos tudo para seu conforto, morreu feliz rodeada por todos, com dor minimizada pelo aconchego e amor verdadeiro e inocente. 
Os pais foram envelhecendo, os doces gémeos botaram corpo, orgulho meu e do pai que tanto os protegia, homem caseiro, ganhador, dócil de gestos contidos, não se bebia nem fumava em casa limpa e arejada todos os dias, não se levantava a voz, não se discutia com gritos de mãos agarradas à cabeça, tudo exemplar, sem trauma ou segredos.
Os pais partiram, deixaram a casinha de suas alegrias, naturalmente a mim, filha única, genro e netos adorados, ficamos algum tempo em desabafo de luto, os gémeos mostraram-se à altura da séria morte, choraram o que deviam, controlaram a dor e a vida continuou sem extravaso, sem sobressaltos de outro planeta. 
Fui sempre feliz, não dei desgosto aos pais, mereço os filhos que tenho, fui talhada para ser abençoada!
 
Se assim fosse...eu era outra que não esta, tão imperfeita pela mágoa, tão avessa a que me agarrassem para me destruir, sempre atraí sentimentos de desprezo, sempre fui cavalo para espicaçar e besta a abater, a culpar pela minha força, para domar, porque a liberdade natural é invejada, quase tanto como a riqueza ou a beleza!
06
Jul20

MORANGOS

Rita Pirolita
Os meus favoritos, simples, sem nada a fantasiar, tatuados que estão numa perna, a outra poderia levar com cerejas em homenagem à mãe que tanto as adorava.  

Esta fruta pantone-luso, cor-paixão com verde em cocuruto, flor branca delicada, pés ramificados que se espalham e invadem gentilmente a terra num tapete verde de folha recortadinha, salpicado por pequenos corações vermelhuscos, brilhantes, apanhados no minuto antes de estarem muito bons para que não corram o risco de devoração por bicharada. 

Não percebo o chantilly, açucar, chocolate negro ou branco ou champagne...Para disfarçar o quê? Para enriquecer o já ouro?

Exige-se que se desfaçam na boca num doce-amargo de emagrecer e limpeza de toxinas, restam depois pequenas grainhas que nos vêm entre dentes num esmagar de semente de papoila.

Esta é a minha homenagem, a vós MORANGOS, gostava tanto que soubessem ler, talvez consigam ouvir...PARA MIM SÃO OS MELHORES DO MUNDO!
31
Mar20

Já que estou aqui a envelhecer

Rita Pirolita
Cada vez mais me vou apercebendo que no envelhecer se perde muito mais do que aquilo que se ganha e o pouco que se ganha já não faz tanta falta e falta força para gozar.
A sabedoria já vem tarde, só não queremos ter dores e chatices, queremos estar e comer como bem nos apetecer com a porra dos muitos limites, porque o corpo já não é o que era.
Podemos ser tão mais livres e deixar de trabalhar mas depois não temos onde gozar a liberdade, com dependências emocionais, se forem monetárias, pior e se forem somente monetárias, muitíssimo pior, de filhos e netos que nos rodeiam, por quem nos sentimos responsáveis e por quem sofremos e nos alegramos em amiúde ansiedade de bem estar. 
Neste momento em que ainda não sou velha nem nova, já amaldiçoo a sabedoria da experiência, cada vez menos me serve ou até sobra para uma vida de quem não teve filhos, de quem já superou o choque da violenta morte de uma mãe, que prepara e amacia o pêlo para a do pai mas que ainda me pesa e apoquenta que tenha de passar por ela ou por cuidado e amofinação na doença, por ser a filha única que tem que cuidar se assim for necessário, por obrigação e não por dedicação, a um pai apenas de concepção e não de presença ou educação! 
É um misto de desejo que a morte venha e não venha para quem ainda nos prende ou em último caso que nos leve antes para evitar o sofrimento de ver outras! 
Sinto-me mais simples até que um dia a morte já só leve um corpo, porque toda a vida já foi gozada mas se a sabedoria me trouxesse mais liberdade, menos amarras a gente que vou chutando para canto, menos chatices de que me vou esgueirando e cobranças que vou evitando, não pedindo favores a ninguém para não ter que retribuir...ah se a sabedoria me trouxesse essa liberdade já me tinha empanturrado e morrido de overdose vital! 
04
Dez19

Contos da Estrelinha Serigaita - Ciganos

Rita Pirolita
Depois da mercearia, no caminho para casa, dois ciganos adolescentes que ainda permanecem na escola primária onde ando, perseguem-me, lançando olhares peganhentos e palavras melosas. 'Aiiiiiiii, fazia-te isto e aquilooooo, porque estamos fora da escola e no recreio só atrás dos pavilhões te podemos apanhariiiiiiii....' 
Acelero o passo e penso em porto de abrigo assim que entro no meu prédio e eles, travando o fecho da porta, pressentem local onde ninguém vê. 
Atiram-se a mim de mãos ávidas em má imitação adulta, à procura de curvas que ainda não estão lá, beijos de línguas salivadas e mau cheiro de quem não toma banho faz meses ou talvez nunca tenha tomado desde que nasceu, consigo gritar mesmo de mão na boca que me abafa, sem ninguém aparecer, assustam-se só com a ideia de vizinhos em meu socorro a enxotar a pouca vergonhice e desistem de continuar a invasão. 
Subo as escadas em relâmpago, entro em casa, largo as compras, nervosa na impotência digo à mãe, a mãe não dá muita importância e atalha os meus soluços de raiva... 
- A culpa é tua, para a próxima defende-te e não deixes que te toquem! 
30
Nov19

Contos da Estrelinha Serigaita - Nascimento

Rita Pirolita

se·ri·gai·ta 
(origem duvidosa)

substantivo feminino
1. [Informal]  Mulher ou rapariga ladinaespevitada ou respondona.
2. [Informal, Depreciativo]  Mulher magrageralmente pretensiosa ou irrequieta.
3. [Ornitologia]  Ave trepadora.
  
O nascimento da serigaita estrelada deu-se em espaço de repasto aberto ao público, pertença de avós maternos que viviam por cima do negócio que atraia do Porto gente para o arroz de lampreia, cobra pintalgada de ventosa de rocha em água doce. 

Por trás dos montes, nasceu em Outubro/Outono, noite dentro, tumultos de parteira, esperanto de dias, que o feto feito não queria sair e já veio com horas somadas em dias de atraso, em altura de máquinas que não olhavam entranhas, sabia-se do sexo pelo nariz da mãe, luminosidade da pele ou forma da barriga e pouco mais, as mais bonitas, as dos rapazes. 
Mãe prenhe de 6 meses, parecia que sofria de ervilha plantada no ventre, aos nove e mais, parecia não grávida completa ainda. 
Mesmo em atraso, a saída forçada com ferros fez estragos em couro cabeludo molinho, cheia de sangue placento e sangue seu que jorrava da cabeça, tenazes que lhe arrancaram cabelo com raiz, deixando cicatriz com feitio de América do Sul de pernas para o ar, uma pêra ainda pendurada na árvore, pele macia que expandiu com o crescimento, ainda que farta cabeleira nunca deixasse perceber a violenta marca da saída por entre pernas para o mundo.
 
Gritos de dor de parto e aflição de morte à nascença, calma imposta pela parteira, que é muito experiente e conhece as profundezas do mistério fêmeo sem surpresa. 
A ferida mostra-se inofensiva, sem ameaça de a mandar para o outro mundo sem antes dar o primeiro choro. 
A magreza e feieza da menina não saiem com o banho, virá a beleza para lá dos 18.

Composta, já sem choro regressa à capital, onde pela primeira vez o pai a vê, não queria ele rapariga, queria rapaz para a bola...

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