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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

09
Ago20

Já sou canadiana também...e depois?

Rita Pirolita
A cidadania neste país dos ursos, neve e desolação, que o Deus dos esquimós conserve tudo isto no devido sítio de origem, para que não se espalhe, custou-me cinco miseráveis anos da minha vida, de frio ou muito calor, que eu vivo para o interior das pradarias da agricultura, com explorações imensas, acres de canola a perder de vista e campos de um dos maiores desastres ambientais, a exploração de petróleo, as famosas oil sands de que ninguém fala, por ser um país próspero e de primeiríssimo mundo para onde todos pensam que querem vir...até um dia baterem cá com os costados! 
Eu sei que tenho que ter em consideração que a maior parte da emigração é forçada na origem e não desejada no destino, pessoas que abandonam autênticos paraísos de beleza mas que são infernos de fome e pobreza. 
Eu sou uma privilegiada vim de um país lindíssimo, para mim o mais lindo do mundo e para os lados dos Açores não poupo elogios, ainda relativamente seguro, quase nunca assolado por catástrofes naturais de monta, aliás, os únicos que provocam a maior desgraça e morte lenta do meu povo são mesmo os ladrões dos políticos e dos banqueiros!
Não deixo no entanto de me pôr na pele de muita gente menos bafejada pela sorte. 
A minha cerimónia de entrega da cidadania foi feita numa sala com mais 84 pessoas de quase todos os cantos do mundo, todos mais escurinhos, aliás, na sala haviam mais 2 brancos além de nós, uns de turbante que não são obrigados a tirar por alegarem razões religiosas, imensos miúdos, muita desta gente vem de famílias tradicionais e conservadoras e ter filhos no Canadá dá para ficar em casa um ano com um bom rendimento. 
Os próprios que conduziram a cerimónia eram emigrantes...
O Canadá teve originalmente Índios, os canadianos são todos emigrantes mas alguns consideram-se mais canadianos que outros, vá-se lá saber porquê, se é pelo tempo que já levam aqui ou pelas gerações?...Por esse prisma os Índios deviam ser mais respeitados!
A senhora que fez o discurso, que fomos avisados previamente para ouvir com atenção e nos levantarmos à sua chegada, deu-nos uma lição de moral, sobre a aceitação deste grande país que acolhe gente de todo o mundo, blá, blá, blá...muitas vezes altamente qualificada, para fazer o trabalho que os que já emigraram há mais tempo não querem fazer. 
Só esta última parte é que a senhora se esqueceu propositadamente de dizer! 
No final a palradora palestrante, indignou-se com a falta geral de jubileu na sala na obtenção de tal mérito, advertindo que tínhamos que festejar e agradecer muito esta etapa.
Agradecer a quem? Apesar de estarmos em época natalícia, ninguém nos deu nada de graça! 
Muitas pessoas que lá estavam tinham feito duas ou mais horas de caminho, porque vinham de fora da cidade para obter um papel A4 que fará deles cidadãos de plenos direitos e deveres, que dará acesso a assistência ou tratamento médico quase gratuito, que dá direito a votar mas também a ir preso se puserem a pata na poça.  
Via-se que era gente de trabalho, muitos deles engenheiros ou professores que andam a recolher lixo ou a fazer limpezas.
Pela cor da pele habituados a climas mais quentes, vê-se que passam muito mal com o frio extremo por estes lados do mundo. 
Gente que passou cinco anos de sofrimento para obter este papel e pensar que muitos entram directo com estatuto de refugiado, difícil de provar, aproveitando-se assim de regalias sociais. 
Eu sei que o mundo é injusto para os justos mas eu também não fiz mal a ninguém para estar no meio disto.  
09
Ago20

Trump fez um manguito

Rita Pirolita
 
Anda tudo indignado com o virar costas de Trump ao acordo de Paris... 
Os países ricos e civilizados contribuíram para o aumento da poluição à procura de lucro fácil e rápido ao produzirem em países pouco desenvolvidos, a explorar mão de obra quase escrava. Contribuem para a manutenção da guerra ao produzir armas para a combater. 
Quando a guerra e os efeitos da poluição estavam longe das vidas limpas e civilizadas, ninguém se preocupou, agora que todos sofremos os efeitos também ninguém faz nada e todos são indignados do sofá. 
Perguntem à França quanto armamento produz e a quem vende, à Alemanha o que se passou com os carros da Volkswagen, Espanha insiste na actividade da central nuclear de Almaraz que já devia ter encerrado há pouco menos de uma década, as fábricas da Coca-Cola na India dão trabalho às mesmas populações a quem roubam água potável, milhões na China trabalham horas a fio em troca de abrigo e uma tijela de arroz, em Africa e no Brasil terra fértil continua a ser destruída em busca de metais preciosos e a Arábia Saudita continua o seu domínio tentacular ao controlar a exploração do elemento mais poluidor à face da terra...
De que nos serve separar o lixo ou não deixar água a correr enquanto escovamos os dentes se depois as Câmaras Municipais reciclam muito pouco, porque sai caro e queimam quase tudo ou criam áreas enormes de relva que necessitam de quantidades astronómicas de água para a sua manutenção, quando podiam apostar em espécies autóctones em auto-gestão.
Eu sei que uma gota no oceano pode fazer a diferença e muitas ainda melhor mas Donald Trump apenas fez um manguito a uma coisa que não existe. 
Precisamos de acções e não de acordos de papel.
25
Jul20

Sabrina da Vileda

Rita Pirolita
Lembram-se da Sabrina da Vileda? Constituída por um sistema rudimentar de escovinhas que se movimentavam com a deslocação do engenho, para trás e para a frente? Aquilo resultava, não digo que não mas irritava-me o som das roldanas a chupar o lixo todinho e a posterior limpeza também não era agradável, já que tinha que se olhar para o compartimento de recolha do lixo quanto mais não fosse para conferir se estava suficientemente cheio para ser despejado...ele era migalhas, botões, berlindes, alfinetes...tudo envolvido numa rodilha de cabelos e pintelhos. Kanoije! 
Havia também uma versão mini que era usada sobretudo pelos empregados de mesa que serviam nos casamentos, um chupa-migalhas de mão que não deixava cair nada para o chão, poupando trabalho a quem fosse limpar a tijoleira ou alcatifa e para os convidados não irem para casa com migalhas ou grainhas enterradas na sola dos sapatos! 

24
Jul20

OCD - Obsessive Compulsive Disorder

Rita Pirolita
Como hei-de arranjar uma forma descontraída de começar a escrever sobre uma adição, descontrolo, vício, comportamento desviante, tudo meu que só a mim prejudica e muitas vezes é aproveitado por preguiçosos e outros que se encostam à sombra da bananeira!
Eu sou a chamada OCD - Obsessive Compulsive Disorder, com a limpeza, organização e cheiros no meu espaço e corpo, com os outros não me preocupo, desde que não tenha que lhes tocar por isso consegui viajar para verdadeiros paraísos cheios de lixo, mau cheiro e gente que não tomava banho, por falta de água ou porcalhice mesmo. 
Respeito todos os costumes e culturas, mesmo os que gostam de viver na merda, desde que seja longe de mim ou eu esteja só de passagem e tenha agilidade para quando vier a vontade me empoleirar e cagar de alto sem tocar em nada...
Vou ao ponto de mesmo que passe umas meras horas a dormir num hotel, antes de usar a cama desvio os lençóis e sacudo tudo para ter a certeza que não durmo com cabelos e pintelhos alheios, alguns fluídos já devem estar entranhados no colchão, não vejo mas sei que estão lá e mesmo isso me mete nojo mas não tendo alternativa, tenho que dormir em qualquer lado mais fofo que o chão.
As colchas dos hotéis nunca são lavadas, por isso nem o cu mesmo com cuecas sentem lá. 
Para mim é preferível acampar sempre que o tempo e local permitem e dormir na MINHA tenda, aconchegada no MEU saco-cama!
O WC...ora este compartimento sofre o meu olhar de escrutínio e leva com toalhitas húmidas quase até ao tecto, nunca me encosto à cortina ou paredes da banheira, tomo sempre banho de chinelos, não vá apanhar pé de atleta ou qualquer outro tipo de nojenta micose humanóide, na sanita faço logo duas descargas de autoclismo, para não correr o risco de respingos estagnados e conspurcados, limpo-a quase até por dentro, não gosto da ideia da minha merda tocar superfície onde outras tantas tocaram, a minha será sempre especial mas nunca deixará de ser merda claro, apesar de mais preciosa e acarinhada por vir das minhas entranhas já que me preocupo tanto com uma alimentação equilibrada! 
Costumam dizer os gurus das práticas saudáveis, 'que somos o que ingerimos' e eu acrescentaria, o que cagamos é o que metemos cá para dentro! 
Teorias tão antigas como o cagar. 
Comecei a falar de limpeza e quase acabo a falar só de merda, não tenho arranjo para este meu desarranjo mental que me ocupa tanto que nem tempo tenho para aturar maluqueira alheia.
Ora bem, ia eu nos hotéis que não são casa minha, gostava eu muito que fossem, fosse eu a Paris Hilton a ver se não vivia até morrer num hotel meu, na penthouse claro!
Se sou assim com sítios temporários imaginem com sítios alugados ou de caracter mais permanente como uma casita, tudo tem que estar impecável mas detesto o acto em si de limpar, eu explico. Gosto de viver em espaços imaculados mas detesto limpar, por isso não há cá biblots em casa, para apanhar pó e teias de aranha já basto eu que vou para velha, tal como adoro andar lavadinha mas detesto o acto de tomar banho, é uma trabalheira além de que com uma pele seca que nem jacaré como a minha, tenho sempre que hidratar ou seja depois de sair do banho sujo-me outra vez a barrar o corpinho com um creme viscoso.  
Não gosto desta minha condição paranóica mas estão a perceber porque me amofina tanto a vida e depois ainda tenho o desplante de marrar com o moço para que seja tão picuinhas com os pormenores como eu. 
A minha tese é que ele não deve só deitar uma mão, numa de macho que até ajuda lá em casa deve sim partilhar irmamente tarefas, porque suja e usa tanto como eu o mesmo espaço e pode deitar a mão mas é a outras coisas. 
Cada vez se tem encostado mais a reboque da minha genica e pouco se mexe, nem em nome de contrariar o sedentarismo natural do processo de envelhecimento, qualquer dia bebe e come deitado, como um cão que tivemos! Embora muitas vezes me acuse e com razão, de gastar o chão e a roupa com tanta esfrega que lhes dou!
Mesmo assim não consigo deixar de lhe achar piada, mesmo quando fico brava e ele se cala perante o meu fortíssimo poder de argumentação, tão bom que comigo como advogada o Pedro Dias saia em liberdade e ainda lhe faziam uma estátua no átrio da Igreja!
Mesmo assim o moço que se deixe da lanzeira de ter corpo de rico e carteira de pobre e largue a nota para pagar a uma empregada, deixa assim de explorar a minha força de trabalho de forma escravizante! 
Bem também não é tanto assim, as máquinas de lavar e secar, essas sim é que são esmifradas cá em casa até ao último parafuso, além de que se tivesse empregada ia-lhe moer tanto a cabeça que não aguentava nem meia hora por este doce lar, porque achando-me eu tão perfeita nestas lidas da casa, nunca vou sequer considerar que alguém faça tão bem o trabalho como eu e depois confesso, não sei mandar de todo em pessoas ou animais mas sei fazer, ai isso sei e nunca me enrasco com nada. 
O que não sei, se for necessário aprendo e morro a tentar. 
Eu sei que sou uma chata do caraças e que é muito difícil preencher os meus requisitos de limpeza e nível de exigência mas também tento sempre viver em espaços com tamanho ajustado ao uso que lhes dou, no fundo uma pessoa não precisa de um ringue de patinagem quando nem patins tem mas mesmo assim tem que lhe limpar o cotão, porque para ter portas fechadas numa casa que parece assombrada, antes prefiro viver no anexo do jardim, é mais saudável e também porque não sou nada cagona e o segredo está em ter uma boa vida mas não ostentar para não ser alvo de invejas, maldade, percalços e medo de ser roubado, rodeado de alarmes, grades, portões até ao céu que nem consigo ver o mundo lá fora, arame farpado, cães ferozes... 
Enfim nem quero pensar quando for rica, se me vou preocupar tanto em defender aquilo que é meu ao ponto de nem gozar a vida?...Prefiro ter pouco guito e morrer consolada de papo cheio de felicidade!
Mas se alguém me quiser fazer milionária eu não digo que não e compro uma ilha só para mim!
Também já tive muita gente a pedir-me ajuda para limpezas e mudanças mas como sabia eu que eram uns tesos da merda e ia dar cabo das minhas ricas costas de graça, dei sempre desculpas esfarrapadas para que os estúpidos não tivessem dúvida nenhuma que eu não era pacóvia e que sabia os interesseiros que eles eram. 
Porque não usam a amizade que lhes sai da boca para outros convites? Oferecer uma massagem nem que seja na esteticista lá do bairro, fazer um jantarzinho vegan de vez em quando...cuidar dos filhos é que não me peçam, já disse por aqui que não sei mandar em putos nem me dou ao respeito, além de que quem os tem que os ature e carregue, que o meu corpinho é um templo!
15
Jul20

A vida humana selvagem

Rita Pirolita
A evolução humana é mais vergonhosa que encantadora e a tentativa de regresso às origens é apesar de tudo desastrosa e destrambelhada, os parques de campismo são o laboratório perfeito para comprovar teses e constatar factos, a muito custo credíveis mas que no entanto nos poupam da exigente necessidade de recorrer a experiências trabalhosas ou bombásticas, basta estar e olhar e todo um mundo de primatas desfila em competições de estupidez, má educação, barulho à capela e lixo até ao céu.

Para começar parece que todos os campistas jovens fugiram de casa dos pais ou se forem mais velhos mais se assemelham a um bando de divorciados que não quiseram trazer nem um garfo a menos na divisão dos haveres.

Trazem carros cheios até mais não caber, malas de viagem com rodinhas de um tamanho que muitos agradeciam ter para fugir de um qualquer ditador, da pobreza ou da miséria e perseguição. 

Querem dormir ao ar livre com o colchão de casa, a almofada e respectiva fronha também fazem parte do pacote e até dá jeito na praia, querem fazer comida no fogo mas já não caçam nem pescam e não sobrevivem sem um assador em tijolo ou cimento, acendalhas, carvão, fósforos ou isqueiro, abanador, uma grelha para o peixe e outra para a carne, para não misturar sabores, frigoríficos e arcas, talheres e pratos de casa, detergente e esfregão da loiça, aspirador portátil para tenda e carro...e para mim já tudo tinha perdido a piada e mais valia ficar em casa!

Todos se esquecem que mesmo uma grande tenda não tem paredes duplas, depois de uma boa discussão quase a puxar pancada segue-se a sinfonia do ressono e do peido. 

Eles fazem a barba como se fossem trabalhar, põem gel, perfume e desodorizante, elas vão de depilação feita que garante virilhas, sovaco e buço em ardência no primeiro banho de mar, unhas de gel feitas há 1 dia atrás para durarem mais em tempo de lazer, se não partirem logo uma ou duas no início das férias, raizes pintadas ou descoloradas na tentativa de passarem por loiras ou ruivas naturais negligé, agora está muito na moda o rosa, azul ou cinza, tudo tons naturais de nascença! Levam maquilhagem, secadores e placas de alisar a trunfa, lavam roupa à mão mas fica uma bela merda, mais valia ficarem quietas. 

Todos precisam de gente por perto para existir, afirmam-se pelo incómodo que causam, exibem os chatos drones que qualquer pé rapado agora tem, passeiam o bikini mais reduzido, o corpo mais jovem e fit, se fossem todos largados num ermo não tinham razão de ser na vida, não faziam tanto estardalhaço nem andavam com tanta cagança. 

Enquanto eles cagam no poliban, elas deixam pensos higiénicos pelo chão com a cabidela virada para cima e quando a fila para o duche dos primatas machos iguala a das fêmeas, não quer dizer que o mundo aceitou de vez a igualdade sexual mas sim que está cada vez mais à deriva. 

Dependem de sopas instantâneas para não gastar dinheiro mas depois vão comprar sacos de gelo para pôr na "coola" para refrescar a cerveja e os iogurtes da criançada. 

Apanham bebedeiras e fazem barulho ao despique, ouvem-se urros de guerra, antes fossem vozes de burro ao céu, parecem animais enjaulados há decadas com ordem de soltura, não sabem o que fazer a tanta libertinagem condicionada por cabeças que não dão mais.  

Vomitam à entrada das próprias tendas e deixam ficar a fermentar até ao fim da estadia, a única erva que conhecem é a que fumam porque a outra que pisam é primitiva demais e por isso encarregam-se de atapetar tudo com copos de plástico de uma vulgar marca de cerveja. 

Deixam um rasto de destruição e lixo e quando chegam a casa não se lembram do que não souberam gozar e por isso todos os anos há mais do mesmo, numa constante ausência de evolução que talvez quiçá represente regressão!
15
Jul20

Tribo

Rita Pirolita
Numa volta pela Cova do Vapor passei pelos parques de campismo da Costa de Caparica, uns mais finos, o do Inatel, outros mais tipo trailer park, pejados de retornados e emigrantes sem família de acolhimento. Encontram aqui o calor de uma comunidade onde vivem como sardinha enlatada de forma provisória-permanente, à beira de caminhos poeirentos, esgotos mal fechados, fossas mal abertas, restaurantes de vão de estrada, tudo à beira-praia nos locais mais cobiçados pelos patos bravos das vias-rápidas e hotéis, que assim que começarem a mexer entulho e refinar bagulho, vai tudo corrido por tuta e meia com a coisa da mãe às costas, porque a voz dos pobres não se levanta mais alto que o dinheiro dos ricos!

Eu sei que a maioria, os cagões da classe média, que viveram em prédios nos subúrbios mais baratos, anseiam por vivendas em condomínio privado com as fuças o mais possivel na aguinha salgada mas eu sou sincera, não me abandonou a sensação de conforto e protecção da tribo, da família estendida aos vizinhos, ao revisitar locais que ainda mantêm o espirito de clã, senti-me com toda a sinceridade mais em casa e mais gaiata de vida vivida, que ao passar por locais de mansões fechadas, por ruas e becos vazios, jardins impecáveis, árvores aparadas, piscinas tapadas e carros arrumadinhos na garagem! 

Sentir o sangue de gente pirosa, o bairrismo, não aquele cliché de Alfama, o café central, o mini-mercado da esquina, os pescadores encostados de mini na mão, os recentes turistas que deambulam, baralhados talvez com imberbes sinais de protecção de dunas naturais, com vestígios de entulho despejado noutros tempos, à mistura com lixo que vem do ar e do mar e cagalhões que vêm do cu dos cães, são do bairro, ficam no bairro.

Gente feia e escura como breu, desdentada, com piercings e tattoos, muito cool, campo da bola e parque infantil ao lado do muro onde giranda a ganza, cabelos ainda oxigenados, calças e blusões de ganga ainda debotados, botas de trabalho, berros de chamamento de vogal aberta e prolongada! 

Se bem me lembro e lembro muito bem, vivi mais feliz num local parecido, de pó e terra batida, de vizinhos feios com hortas, alguns não tomavam banho, outros praguejavam mas aos nossos olhos éramos todos normais, nem feios nem bonitos, nem ricos nem pobres, nem simpáticos nem intratáveis, cada um sabia lidar com cada qual! 

Éramos de sangue distante mas próximos nas veias e suor, nas rixas e discussões! Não gostávamos que alguém deitasse abaixo o nosso clube, a nossa rua, as nossas crianças, a nossa escola ou igreja, o nosso café era a segunda casa, a mercearia a terceira que fiava, na rua tudo se sabia, ao jantar tudo se fechava e silenciava, só se ouvia o barulho dos talheres a bater nos pratos e a telefonia de fundo, sintonizada numa estação portuguesa com certeza!

Era aqui que me sentia bem e recordo toda a familiaridade quando visito estes bairros, com alma e carisma, com lixo e cheiro humano, cães rafeiros e poeirentos, mercedes e audis escafiados mas a rolar.

Os bairros dos ricos têm cheiro a mofo, dinheiro estagnado, riqueza estável, não sobe nem desce, a mão da empregada limpa o limpo e morto até ao fim-de-semana em que os gordurosos donos se arrastam para a piscina, de musgo morto e relva aparada!

Tenho tempo para não sentir a vida, se ficar uma rica normal, for uma pobre anormal ou com toda a certeza quando morrer!
02
Abr20

Fim do Mundo

Rita Pirolita
Disseram alguns nos últimos tempos com ares de ciência/bruxaria, o fim do mundo está aí, com grande ajuda nossa mas nunca em nosso nome ou honra!
O que nos confere tanto convencimento em acreditarmos que conseguimos destruir o mundo? 
Conseguimos baralhar as ideias e voltar a dar mas andamos a apostar nas estrelas erradas!
Fala-se no domínio de uma elite, que quer reduzir a população mundial impondo medidas e impostos às alterações climáticas para redimir os pecados da poluição humana, assinando tratados atrás de tratados que não tratam de nada nem beneficiam ninguém principalmente se não sairem do papel. 
Uns dizem que as alterações do clima, nomeadamente aumento das temperaturas, degelo dos glaciares e subida do nível da água do mar, são cíclicas, outros que a poluição vai ser a grande responsável pela nossa extinção, já andamos há milhares de anos a viver em sucessivas camadas de lixo e cadáveres e isso nunca destruiu nações, pelo contrário, alimenta a terra e recicla, se ficássemos cá todos já não havia espaço para tanta porcaria, por isso tem que ser bem calcadinha em camadas sedimentares ou dissolvida em CO2, outros ainda dizem que o Trump tem razão em se estar a cagar para isso, que tudo não passa de uma falácia inventada por quem quer destruir e controlar um líder que veio marcar a diferença.
Outros ainda dizem que tudo está incontrolavelmente destinado nas sagradas escrituras ou o poder está nas nossas mãos, na mudança de consciências e educação para uma vida melhor e um planeta mais sustentável.
Assim se criam teorias da conspiração sobre invenções que queriam passar por verdades. 
Eu até posso tentar encontrar lógica na maioria das especulações sobre o fim do mundo mas nenhuma ultrapassa nem se compadece, com o meteorito que vai f@der isto tudo sem termos tempo de dizer ui ou no aquecimento global que vai queimar a crosta terrestre que nem ferro incandescente em leite creme ou que vamos ficar sem água potável e morrer sequinhos que nem carapaus! 
 Acreditem ou não, pouco me importa quando isto acabar, desde que até lá tenha tempo de ganhar o euromilhões e não ter preocupações de pobre com impostos e reciclagens para um mundo melhorzinho e paradisíaco para as nossas criancinhas. Não tenho cria nenhuma a quem deixar herança e tal como todos os seres humanos, não me preocupo com o vizinho do lado e não lhe desejo a morte, desde que ele não me chateie os cornos. 
O meu mundo será muito melhor, sem balelas hipócritas e discussões de oradores palermas que só atafulham o silêncio sem dizer népia e muito menos fazer nada de jeito!   
29
Mar20

Correr, correr, correr...

Rita Pirolita
Correr, correr, correr...
Que cansaço mas aqui deixo considerações sobre a nova moda de correr e quem não pode caminha e quem não pode ainda menos, fica em casa! 
As seniores lá se juntam, divorciadas, amigas, amigadas ou aquelas que apenas querem deixar os maridos em casa ou no café.
Mas o grupo de que vou falar é o meu, melhor dizendo, que anda próximo da minha faixa etária, as antas dos entas, porque de resto não me meto nestas coisas, não sou adepta de grandes esforços, rotinas ou obrigações. 
Eu vejo barrigudos, coxas com celulite, gémeos que parecem filhos únicos ou então uma anaconda que engoliu um ovo de avestruz, barrigudas, mamalhudas e cuzudas, com banha firme ou a abanar, a correr com os bofes de fora, parece que começaram há uma maratona atrás mas acabaram de sair de casa e já estão pesarosos, a suar por todos os lados e a arrastar os ténis. 
Não tenho nada contra correr, CrossFit, bicicleta e outros, desde que não me esfalfe e veja os outros a fazerem-no, por mim está tudo bem mas o que mais me intriga e este é o propósito do meu texto, são as pessoas que observo numa quantidade considerável, quando passo de carro com a peida sentada a caminho de qualquer sitio do meu interesse, a correr em horas de maior calor e depois de almoço ou de jantar, de careca ao léu e camisa manga-cava a apanhar o bronze de trolha, elas de rosa Benetton ou verde ervilha, para que nenhum carro abalroe os camafeus que compraram o equipamento em promoção na Decathlon, antes de saberem se vão aguentar correr muitos dias ou desistir logo nos primeiros 10 metros. 
Não interessa, a roupinha de lycra também é confortável para trazer por casa ou dar um saltinho ao café a beber a biquinha depois de almoço e rematar com o Português Suave!  
O que anda esta gente a fazer à beira de estradas, que muitas vezes nem berma têm para correr, quanto mais para a largura de algumas nalgas, gente de bicicleta que à mínima passagem do camião do lixo são atirados para  cama de caruma...quando muitas vezes existe um caminho mesmo ali ao lado, com mais clorofila, com nenhum trânsito, um arzinho um pouco menos poluído e sem o risco de ser atropelado!
Esta gente de beira de estrada anda à procura de indemnizações por atropelamento, será que os seguros de acidentes pessoais acrescentaram alguma cláusula nova? Têm medo de ir para o meio da mata e aparecer um urso que lhes vá ao cu? Em Portugal a pior espécie de ursos anda fora das matas! Querem mostrar aos que passam que são saudáveis e fazem muito exercício? Querem respirar toxinas de cano de escape porque algum maluco publicou na Wikipédia a teoria que versa sobre maior abertura de pulmões e aumento da capacidade respiratória, isso de fumar está fora de moda?
Querem inspirar os automobilistas e mostrar que aquilo faz melhor do que aparenta, espelhado nas suas caras de babuíno, torcidas de esforço desumano?... 
Não sei o que se passa, já faltou mais para parar na berma de uma qualquer estrada e perguntar a razão de tamanha estupidez mas arrisco um convite de ajuntamento à trupe, para experimentar os prazeres de um bom dióxido de carbono em 2ª ou 3ª mão e isso eu não quero.
Estou farta de gente endoidada, longe deles, enquanto andarem entretidos não atentam a minha paciência e inteligência nem andam a fazer coisas igualmente estúpidas mas muito piores!        
20
Fev20

Balde do lixo

Rita Pirolita
Vou falar de um balde do lixo doméstico que caiu dentro de um contentor do lixo por minha culpa mas tudo acabou bem, apesar do mau cheiro!
Desde que me lembro de ter desenvolvido as minhas capacidades motoras em pleno que usava mais para correr, saltar e brincar, lá em casa já me incutiam a responsabilidade de tarefas, como limpar o pó todos os dias, sim, todos os santos dias, menos ao domingo, o que não custava muito num andar minúsculo de 2 assoalhadas.
Um quarto para os progenitores e uma sala que acumulava as funções de estar, jantar e à noite virava o meu quarto, com um sofá-cama forrado a bombazina verde-musgo, muito na moda, que abriu e fechou durante muitos anos, as vezes que foi preciso, no sono e na doença, cumprindo a sua função perfeitamente até ao fim do seu uso, que se deu com a mudança de casa e um quarto só para mim, mas só lá para a adolescência! 
Numa casa onde imperava a discórdia, destruição, gritos e violência ninguém se preocupava com educação ou compreensão, impunham-se regras para diluir a falta de respeito e iludir uma normalidade que nunca existiu. 
A obrigação de ajudar era uma forma de marcar autoridade por imposição maternal, quase como uma vingança e transferência de raiva, vinda de alguém que era tratada como gata borralheira e se queria sentir como a irrepreensível fada do lar, com poder no seu pequeno reino doméstico, já que a sua existência era todos os dias assombrada por discussões humilhantes e uma incompatibilidade visceral mantida à força, um amor doentio, obsessivo e destruidor, com resultados nefastos no futuro...para mim também! 
Os meus dias decorriam embuídos de uma inocência que de alguma forma me protegia do caos à minha volta e cujas memórias apenas mais tarde vieram a ser processadas, por uma cabeça que foi obrigada prematuramente a deixar de ser pueril. 
Nunca éramos desgraçados de quem alguém tivesse pena, não tínhamos onde nos queixar ou recolher, vínhamos ao mundo numa família que nos dava comida e nos punha na escola e só tínhamos que cumprir com o mínimo de obrigações, não fazer birras e se fosse caso disso levávamos dois tabefes que nos acertavam o passo, até à próxima choradeira típica de miúdos, por tudo ou por nada. 
A vizinha do prédio da frente batia na filha com colher de pau todos os dias, partia colheres a toda a hora no lombo da miúda e fartava-se de gritar com ela, eu como não levava tanto, encolhia-me como se as colheradas me estivessem a cair em cima do pêlo, como a dividir as dores em solidariedade para com a minha colega de escola que não esperava ver inteira no dia a seguir, mas lá aparecia ela sem ponta de queixa ou perda de peças, embora tivesse de certeza aquele rabo todo negro!  
Além da limpeza do pó e dos vidros, com vinagre e jornal amachucado que me deixava as mãos pretas mas os vidros imaculados também tinha a tarefa de ir despejar o balde do lixo, o que até gostava, visto que qualquer pretexto para andar com o cu na rua era bem vindo. 
Certa vez ao fim de um dia longo de verão lá fui despejar o lixo no contentor que ficava nem a 100 metros do meu prédio, era uma hora calma de fim de jantar, não se via vivalma e nem os pássaros se ouviam, derretidos na molenga dos ramos. 
Ao virar o balde para despejar aliviei demais as mãos e aquela porra escapuliu-se e foi parar ao fundo do contentor que ainda por cima estava vazio. 
Olhei incrédula para dentro daquele buraco mal cheiroso com paredes incrustadas de camadas de gordura e humidade fétida e não me dando por vencida nem ir a correr chamar a mãezinha que não era nada o meu género, investi em me desenrascar sozinha. 
Tentei esticar um braço ao máximo, depois os dois, depois aos saltinhos e depois de tanta tentativa infrutífera e a enxutar moscas com chapadas de raiva no ar, bichos da merda, que tinham tirado o fim do dia para me chatear e não tinham qualquer sentido de oportunidade ou condescendência com a minha difícil tarefa de salvar o balde do lixo de ficar no lixo, decidi empoleirar-me nas pegas laterais, qual mangusto chafurdeiro e com cuidado para não ir parar lá dentro e fazer companhia ao balde, empenhei-me no equilíbrio e de uma penada lá consegui alcançar o balde. 
Cheguei a casa como se nada fosse, calada que nem um rato, mas com os sovacos doridos e a tresandar a lixo. 
Não tive a pior infância do mundo, nem por lá perto, mas podia ter seguido caminhos piores e mesmo assim ainda bati em algumas portas erradas que me prontifiquei a fechar assim que desse com o erro e a retomar caminho que me parecia menos mau. 
Não tive muito tempo para brincar, a responsabilidade chamou-me logo a alinhar na vida muito cedo e agora olhando para trás, a minha sorte seria outra se me tivessem recolhido sem pena, qual cão de rua abandonado que amassem porque tinham para dar, sem se importarem com o meu curto mas já dolorido passado, traumas e medos e eu iria agradecer que para meu bem me dessem educação com um propósito e não o vazio imposto do "vais fazer porque sim, porque eu digo, posso e mando em ti!"
02
Mai19

Samouco

Rita Pirolita
Com o pretexto de almoçarada na zona ribeirinha, ali para os lados do Samouco, restou a inclinação para fazer asneira da grossa, dificuldade em dar com os sítios, em acertar com um local de jeito, nem que fosse para tomar um café e dificuldade novamente em sair dos mesmos sítios, que depois de revistos me deixaram...

Um amargo de boca, um cheiro distinto por zonas, a porco, vaca, cavalo e lixo que não se podia, poluição que baste de Famel Zundapp, cartazes de tourada a cair de tanta cola sobreposta, desgraça, abandono e desleixo, prédios inacabados da crise, gente velha a atravessar estradas a passo de caracol, lojas fechadas, casas caídas, desordem continuada na construção, entremeada por bairros sociais, os mais organizados e habitados, ruas cortadas, armazéns abandonados, uma praça de touros digna da mais perigosa fronteira mexicana, um terminal de barcos onde nem Judas perderia as botas!

Estes locais quase de uma só rua, calmos e saloios, depressa se transformaram num fim de mundo poeirento, sem gosto, apagado e sem carisma.

Enfim, naquela manhã nada profícua e muito assaloiada, vi coisas que cheguem para mais um ano de vistas lavadas noutros sítios.

Fiquei triste por esta gente abandonada e definhenta por arrabaldes e baldios.

Cheguei à conclusão que há dias que mais vale não sair de casa e não há melhor lugar para almoçar que no conforto do nosso doce lar!... 

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