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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

21
Set19

Wonder Woman and Superman

Rita Pirolita
 
 
Passam a vida a pedir-me netos como se os fossem sustentar no caso de eu não ter possibilidades. Para mim negócio fechado, seria na altura do pedido, passarem-me logo um cheque de pelo menos 100 mil euros. Estão sempre a dizer que ajudam se precisarmos...quem tem filhos precisa sempre e logo, desde o primeiro dia de gravidez.

Com a minha sogra não me posso dar mal, estou do outro lado do Atlântico e lhe disse que tem o melhor de dois mundos, apesar da esperança de ter netos ainda não se ter desvanecido, penso eu, me encarreguei de espalhar aos quatro ventos que iniciei a menopausa e não quero arriscar a ter um filho atrasado mental. A sogra pode ter netos, não vão é ser meus!

A mãe moço  tem que aproveitar os melhores momentos com os netos das amigas e deixar a muda de fraldas, o leite bolsado e as noites em claro para as verdadeiras mães e avós. Além de que o estado de graça passa rápido e a julgar pelos pais, a maioria dos putos quando crescerem vão ser peludos, barrigudos e orelhudos e as miúdas vão ser umas dentuças com rufegos nas costas  e ancas de parideira.

Mas pode aproveitar a graça dos petizes, até pelo menos aos 6 anos, que foi quando eu senti que perdi a piada
Por essa altura as minhas colegas de brincadeira diziam que eu parecia a Mulher Maravilha, nessa semana andei toda contente a rodopiar que nem uma bailarina a ver se me nascia uma bandolete dourada na testa, um corpete justo, uns calções a tapar as nádegas mesmo no limite do respeito e umas botas brancas bicudas, sem respeito nenhum. 

O meu único sonho era ser linda e poderosa como a Wonder Woman e ter um carro como o Kit, que era carro de chulo mas nessa altura eu não sabia o que eram essas coisas.

Nem quero imaginar se fosse parecida ao Super Homem, tinha que mudar de sexo e para mudar de roupa, tinha que ir até Lisboa para encontrar uma cabine telefónica decente.
15
Mai19

Jantares de amigos

Rita Pirolita
 
Começo já por informar que nunca organizei nem fui a nenhum jantar de amigos da escola mas tenho relatos que acredito serem muito fidedignos e tenho amigos que encontro de vez em quando, passado muito tempo, é quase o mesmo que os jantares mas sem comida pelo meio, um café talvez e é o suficiente para confirmar a decadência do brilho da juventude, aquisição de gestos lentos, olhos desiludidos e húmidos de tanto abrir a boca, corpo cansado e pernas inchadas, mãos desleixadas e queda de cabelo, mamas grandes e ancas largas, manchas na roupa e cheiro a alcool ou leite bolsado, cabelo oleoso, camisa por engomar ou t-shirt com buraquinhos de fim-de-semana, que o pessoal gosta de andar à vontade...
 
Nos jantares parecem hologramas, projectam o que não dá para esconder.
Eles põem o melhor e único fato que têm, como se trabalhassem num escritório, embora estejam desempregados desde que terminaram o curso, é o fato das entrevistas, elas lá se equilibram num salto alto que não usam desde 10 quilos e 10 anos atrás, disfarçam a dor de pés com um sentar rápido de quem está esfomeada, é maior que a dor de pernas quando passam a ferro durante 2 horas em pleno verão
O espanto e curiosidade começam logo na entrada do restaurante enquanto esperam uns pelos outros. Reconhecer algumas pessoas torna-se tarefa árdua de memória e perguntas ao colega do lado...'Quem é aquela? Nunca a vi tão gorda!' ou 'Grande avião, era a mais feia da turma!...'ou ainda, 'Ele ganhou barriga mas aqueles brancos dão-lhe charme.'
Quando já fizeram o reconhecimento de ADN uns dos outros, sentam-se e começam o jantar de menu e preço pré-combinado.  
Começam a vir para a mesa as histórias dos casamentos falhados, dos divórcios litigiosos, de saídas do vicio da droga e entrada no vicio do alcool, de quem morreu de acidente, overdose ou apanhou SIDA, de quem emigrou, quantos filhos tiveram ou deixaram de ter...
Os divorciados saem do jantar com contactos trocados para combinar encontros, na esperança de saltarem para a espinha de quem lhes escapou na secundária, outros voltam à vidinha tuga e eu nunca porei os pés num evento deste género, tenho desgraça que chegue na minha vida.

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