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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Ago20

Emigrados

Rita Pirolita
Aos poucos vou arranjando espaço em mim para organizar ideias e aceitar memórias das tormentas, deitá-las cá para fora sem arrependimento e com bom senso.
A minha saída do país para começar vida noutro sítio coincidiu não por acaso com uma fuga de lugares comuns que já me cansavam de uma pobreza remediada, da morte de quem me pôs no mundo, porque ficar nos locais muitas vezes não resolve nada e na dúvida a mudança é sempre a melhor aposta.
Deixei para trás uma familia que se resumiria a 2 elementos, tudo o resto desde primos a tios ou avós não se falavam desde a altura da minha adolescência por zangas de partilhas, nada de novo, o mais comum deste mundo em países de famílias pobres como o nosso, que mais tarde podem descambar em novos ricos medíocres mas que não passam de remediados, uma raça pouco humilde e chata que está sempre a queixar-se que não tem dinheiro se calhar para ninguém lhes pedir emprestado?...Não tenho nada para discutir com este tipo de gente nem tenho paciência para aturá-los a falar sempre do mesmo!
Amigos? Deixei muito poucos, uns já tinham emigrado, o contacto era feito por email ou Skype muito esporadicamente até se resumir a enviar mensagens por cortesia pelo Natal e Fim de Ano, quando calhasse pela Páscoa também e tão somente se ficaria por aí.
Isto com pessoas que conhecíamos desde o tempo da escola.
Naturalmente a maioria casa-se e tem filhos, a disponibilidade para estar com os amigos que não constituíram família e que ainda vão tendo tempo para gozar a vida não é nenhuma, muitos mudam de terra de cidade e os laços perdem-se. 
Restam assim muito poucas pessoas com quem estamos regularmente.
Quando te vais embora ainda manténs à distância alguma frequência no contacto na ilusão de acalmar a saudade e a lágrima de pena de já não poder ir à praia, de estar mais isolada sem amigos ou família. 
Passado uns tempos começamos a espaçar os contactos e chegamos ao ponto de só falar no Natal e alguns aniversários. 
Cais na frustração de estar sempre a telefonar como se devesses explicações ou para aliviar a culpa que te fazem sentir de teres decidido ir embora, porque os outros ficaram no mesmo sítio, não mudaram, não abandonaram nada nem ninguém, continuam na vida de queixume mas lá vão andando, dizem eles, rodeados de amigos mais ou menos sinceros, de relações familiares mais ou menos dependentes e tóxicas, enganosas e enganadas, da dor e consolo nos funerais de quem vai partindo, enfim...   
Notamos em quem ficou um desprezo, uma mágoa por os termos abandonado que nos querem fazer pagar com mais distanciamento ainda, além da intransponível distância fisica que já nos separa. 
Alguns sentem que já não os veremos vivos e chateiam-se com a dureza das decisões que separam e magoam! 
Não ficamos para o bem nem para o mal, não nos podem pedir ajuda ou apoio, não têm lata para pedir dinheiro emprestado, nem um beijo ou abraço podemos dar por isso descomprometemo-nos com quem ficou e nota-se zanga em respostas cada vez mais esporádicas e frias.  
Não se lembram que também nós, ainda mais nós, estamos mais sós e desamparados, a começar tudo de novo e tudo é diferente, casa, carro, trabalho, clima, comida, pessoas, hábitos, culturas, horários...e não podemos gritar a pedir ajuda porque do outro lado do mundo não nos vão ouvir nem compreender, acomodamo-nos por isso ao silêncio dos que estão lá longe sem cobrar e a tentar compreender e aceitar que coração que não vê não sente, o que só é verdade para quem quer que assim seja.  
Quem acho que merece continua a ter carinho da minha parte, pessoas que gosto ou a quem não quero mal apenas me basta saber que estão bem e fico descansada.
Curiosamente algumas pessoas que não da família revelaram uma preocupação fora do normal e verdadeiro desejo que tudo corresse bem mas se não estivesse feliz que voltasse que haveria lugar.
Não preciso de tocar ou ver para acreditar, basta sentir uma voz, uma lágrima ou uma gargalhada com verdade que já me sinto mais perto de quem quer que seja que me queira bem também. 
04
Dez19

Blade Runner 2049 vs 1982

Rita Pirolita
 

O Harrison Ford mais velho, já não precisa de negar tanto a sua natureza andróide. 

De 1982 conservo a memória de cenários orientais, frios e ultra-modernosécrans gigantes de publicidade 24/7, seres com pressa para lado nenhum, de cabeça baixa a evitar o contacto visual, pululam por ruas húmidas e peganhentas de dejectos e suor humanos, comida de rua de cheiros e vapores intensos, gabardinas intemporais que protegem de uma chuva miúda que teima em ser constante. 

Queremos tirar a dúvida da emoção da lágrima de uma replicant, sem defeitos, de rigida postura de cabide e encontrar num homem, a perfeição e inabalável poder da máquina.  

Tenho receio de desilusão com a versão actual, a sinopse parece mais impessoal, distante e lunar, talvez os efeitos especiais abundem e a dúvida existêncial do protagonista não se coloque e não faça lastro suficiente para a narrativa, talvez já não se possa fumar?... 

É melhor ficar pela versão original, onde os replicants procuravam os seus criadores como um órfão procura progenitores e onde tinham o melhor dos humanos, a lágrima e os humanos o pior das máquinas, a repetição...

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