Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

19
Dez19

Miúdas coquetes

Rita Pirolita

Nunca gostei de miúdas coquetes e rapazes mariquinhas, desde a infância até agora, mas olhando para trás só me posso rir e nunca chorar. 
 
Nunca alguém me conseguiu manter uns collants vestidos, davam uma comichão desgraçada nas nádegas ou mesmo uma Thermotebe, estalava tanto da electricidade estática que até deixava os cabelos em pé.

As miúdas picuinhas...tinha que as aturar no horário de aulas, depois metiam-se em casa a brincar com as Barbies e a estudar, enquanto eu cá fora andava entretida à porrada com os ciganos, a jogar ao espeta, ao pião, à carica, a saltar à macaca... 
Dentro do recinto da escola portavamo-nos todos bem e ninguém olhava a etnias, piolhos ou ranho. 
 
Só parava em casa uma tarde inteira, ao terceiro trambolhão que arrancasse mais uma vez a crosta dos joelhos.
18
Mai19

Não tiveram culpa

Rita Pirolita



 
Os nossos pais não tinham culpa!...

De nos barrarem com Nivea que não tinha nenhum factor de protecção, era o que havia e aquela camada branca alguma coisa tapava, quanto mais não fosse os poros.
Passávamos o dia inteiro na praia, ainda não sabíamos que a camada de ozono estava esburacada.

Usaram kilos de sulfamidas e pó-de-talco e pararam depois de serem divulgadas as suas propriedades cancerígenas.

Descobri que as bolinhas de mercúrio não se conseguem apanhar, eu queria confirmar que era um metal pesado, sempre que partíamos um termómetro levávamos raspanete porque eram caros como a porra. 

Empanturravam-nos de comida até não podermos mais nem com um grão de arroz, bebé que nascesse com 4 kilos é que era saudável, gordura era formosura e não havia bullying de roupa ou ténis de marca. 
Eramos todos brancos, pretos e ciganos metidos numa escola pública à porrada no recreio ou na rua. Era o salve-se quem puder, não haviam privilegiados nem coitadinhos.

Atascavam-nos de Sugus, Tulicreme, pão e massa, a desafiar a diabetes e concorrer a celíacos do ano, bebíamos leite gordo e comíamos manteiga pura para estimular a figadeira.

Não bebíamos leite achocolatado mas sim chocolate com leite, Milo, Toddy, Ovomaltine ou Suchard Express mais quatro colherinhas de açúcar em cima.


Até muito tarde, só conheci um tipo de queijo, o flamengo, com a típica casca de cera vermelha que tantas vezes comi e nunca caguei velas daquela cor.

Se nos batiam, era porque merecíamos e se nos queixávamos da professora ainda levávamos mais.

Se acne havia, esperávamos que passasse com a idade, a mesma coisa para as botas ortopédicas, os óculos com pala ou aparelhos nos dentes.

Partir cabeças e ossos, levar pontos e esfolar joelhos...Gente com mais de 40 anos que não tenha mazelas e cicatrizes que doem com a mudança de tempo, não foram crianças felizes.  

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub