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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

21
Mar20

Millennials, centennials e snow flakes

Rita Pirolita
Mais um jantar de amigos de conquilha coberta de coentros e acidosa laranja amarela, tarte de côco em bocadas tropicais, vinho tinto mostoso e verde picante, cerveja luposa no goto e ao gosto de cada um e de todos! 
Noites quentes de calafrio tardio, cão satisfeito a rondar a mesa em tentadas infrustradas de petisco fácil. 
Por cada olhar canino tão convincente, que parte corações, iriamos até ao fim do mundo buscar um osso de roer, mesmo que não precisasse e estivesse a rebentar de obesidade, não é o caso ainda mas com tanta insistência não demorará a chegar ao estado de intumescida salsicha com pernas!
Ar feliz em casa de mar, cheiro a fumeiro e cacimba de lua, as conversas saem parvas com ruidosas gargalhadas sem vizinhos para queixa, as falas tornam-se sérias por breves segundos, a minha tentativa forçada de tirar nabos da pucara para escrever este texto sai frustrada com perguntas tão corriqueiras que nem as reconheço como minhas, armada em psicóloga da fava bruxosa ou terapeuta de banha cobreira que recorre a métodos brumosos para obter respostas. Ainda bem que a tentativa não tem resposta que a alimente, em pouco tempo percebo que nem a noite nem o convívio são de forças medidas, nunca serão, shame on me!...
As ideias e deduções seguintes são imaginação despretenciosa de como se foi confirmando ao que hoje se chegou!
O tema que desse fruto, esperava eu, seria a desgastada caixa de Pandora que revive como Fénix, homens e mulheres que de tão reprodutiva coelhice, nunca se extinguirão a não ser por força maior catastrófica de natureza desalmada e impiedosa com a pequenez sexual.
As mulheres são mais inteligentes? 
Para mim que o sou, não... 
Os homens que planam na pragmância levam a vida com mais esperteza e contemplativo esforço! 
As mulheres são difíceis de aturar e não se aturam a elas! Engalfinham problemas para inventarem soluções, baralham-se e voltam a dar-se!
São primorosas picuinhas de introspecção dilatada, porque uterinam as crias? 
Os homens acomodam-se em atitude de vida que está bem assim na constança do ócio, as mulheres esbracejam e sangram energia em gritos de protesto, não foram à guerra mas querem arranjar uma sua!
Dos primórdios os homens não engravidam, um só espalha crias em úteros abertos e receptivos que depois de fecundados, se a cepa pegar e o enxerto não desmaiar, tão depressa não estarão disponíveis para nova aventura. 
Os olhos fêmeos brilham de atracção ao melhor exemplar testeróneo que garanta cria forte e sobrevivente, não uma semente definhosa, que não desponte da terra, nem lhes cresça para dentro bem fundo e arreganhe em orla de gordura sangrenta.  
Degladiam a procriação pelo macho mais dotado que lhes dê varão, usam dos métodos mais escabrosos e escondidos de traição às restantes fêmeas pela primazia da escolha, a evitarem a segunda-mão no leito que cabe às mais ousadas e tratadas com menos requinte e respeito. 
Fémea usada e engravidada não é surpreendida na virgindade nem tem novidade, macho experiente tem procura para envolver, dominar e sustentar.
Abespinham-se com piropos e criam leis que os condenam, quando os machos querem é espalhar semente ao vento, debaixo de humidade moliqueira ou apenas dar música de acasalamento em competição garbosa e marialva.
O choque é de vontades e aumenta o fosso, quando os seres que se julgam civilizados ainda lutam para serem instintosos, como se vestíssemos um macaco com fato Hermenegildo Zegna e o largássemos a engatar macacas numa discoteca, cheias de perfume a lixiviar as feromonas, o símio fica baralhado e acaba por se lenganhar no fácil sem consequência, engancha o esporádico de prazer fugidio, sem prolongamento genético! 
Ela pensa da altivez da eleita e escolhida mas ele é que se entrega à escolha, em torpor e libertino desleixo.
Elas já não são domésticas nem falsas submissas, apaixonam-se por cartões de crédito não podem por isso reclamar muito crédito, vivem e largam o momento.
A estabilidade dos millennials e centennials está na mudança supersónica, snow flakes que morrem ao focinhar chão! 
Nos jantares que nunca chegam ao fim, forçamos o cansaço a fazer despedidas, de barriga cheia e alma regada, o cão adoptado de rua e lixo espraia-se nas pernas de um macho rendido a sofá fundo e morno de lareira!        
02
Dez19

Contos da estrelinha Serigaita - Fogo!

Rita Pirolita
Certa hora precedente ao jantar, a rua estava tão calma e deserta, que até o feijão verde nas hortas se ouvia crescer, as donas de casa cozinhavam e os patrões de família viam televisão, a fumar a sua cigarrada com os miúdos logo ali a brincar no chão da sala ou na varanda.

Ouvem-se gritos e quase ao mesmo tempo, um fumo negro sobe pelas escadas, embrulham-me num cobertor a tapar a cabeça também, pegam em mim, não sem antes pegarem no dinheiro e documentos importantes e rolamos escada abaixo, em passo apressado, lá ficamos todos na rua de terra batida, uns a olhar impotentes outros a tentar salvar a família e a apagar o fogo, que tinha começado numa cave do meu prédio, na cozinha.

Felizmente ninguém se magoou mas ficaram com paredes pretas e um cheiro pestilento a óleo queimado, cortinas de nylon ardidas e tinta derretida. 

Ficamos todos cá fora até os bombeiros irem embora e já a noite tinha entrado naquela rua, quando nos recolhemos nas casas a terminar o jantar, com aquele cheiro que teimou em se agarrar às paredes do prédio durante uma semana mas que nunca mais me saiu da memória e sempre que chega ao meu nariz semelhante olfato, revivo esse incêndio e acalmo a memória, ao recordar que tudo acabou em bem!  
30
Nov19

Sr. António

Rita Pirolita
Um dia estava eu sentada com o moço num passeio, à beira de uma estrada, à saída de um qualquer supermercado, a comer sushi embalado, num pedaço de paraíso plantado no meio do Pacífico, estávamos esfomeados mas alegres que nem viajantes de pé descalço, entre gargalhadas e engasgos com bagos de arroz e wasabi, passa um homem de meia idade que nos olha por breves instantes e pergunta em jeito de afirmação convicta, 'São mesmo felizes os dois, não são?
Sem ficar à espera de confirmação, porque já tinha a resposta nos nossos olhares, acenamos que sim com a cabeça, só para o confortar e dizer que não era preciso ser bruxo para ver isso, mas é preciso ser especial para sentir felicidade pela felicidade de estranhos e ainda mais verbalizar. 
Este foi o comentário mais honesto, curto e expontâneo que recebi na vida e não vou esquecer nunca.
 
Um dia, continuava eu sentada com o moço ao lado mas desta vez no meio da Oceânia, dentro de uma carrinha alugada a cair de podre, a comer uma sandocha ao lusco-fusco de um belo sunset, quando sintonizo na rádio a língua portuguesa, que já não ouvíamos há pelo menos mais de um mês, demos um salto porque quem botava discurso nessa emissão era a voz vomitada de Anibal Cavaco Silva, nem demos hipótese e fizemos logo ali o funeral, desligamos o rádio, não sem antes lançarmos umas gargalhadas e o jantar acabou em silêncio introspectivo até o sol desaparecer e a noite acordar. 
Este foi o momento mais assustador da minha vida que devia ser esquecido mas a personagem em questão continua a ser uma traumatizante assombração mumificada.
 
Um dia estávamos numa rua de Innsbruck no meio da Áustria a falar um com o outro e passa um português, que por ouvir a língua materna parou ao cruzar-se connosco e nos perguntou se precisávamos de ajuda.
Passados 10 minutos de matar saudade com recordações da comida, do idioma e conterrâneos, este simpático cozinheiro convidou-nos para jantar num restaurante ali perto com um casal amigo, ao que dissemos logo que sim e preparados para pagar a conta de muito boa vontade a gente tão simpática. 
Pagou ele o jantar, por ser cliente habitual e ter vantagem nestas combinações com os empregados, atitude que todos nós bem conhecemos e também praticamos ao bom jeito tuga, com um simples piscar de olho ao patrão, no bar da nossa rua ou no local onde crescemos e onde de vez em quando fazemos uma visita, para pagar umas jolas aos amigos de infância. 

Pensávamos nós que a noite ficava por tão gentil gesto e boa conversa bem regada com cerveja, quando somos levados a um bar enorme, transformado em salão de baile, que em noite de 4a feira os ritmos latinos atiravam para o meio da pista, corpos suados e desajeitados, uns mais que outros. 
Saímos já era noite cerrada, para ruas calmas com gente pacifica em fim de festa, a caminho do hotel trocamos contactos e dicas, pois ainda continuávamos viagem e o Sr. António já andava por aquelas paragens há muitos anos, com família deixada em Portugal. 
Este contacto manteve-se até hoje, sem obrigação, com emails curtos mas personalizados, pelo Natal e Páscoa

Esta foi a atitude mais desinteressada e bondosa, de um desconhecido mas extraordinário anfitrião, que guardei na minha mochila de viagem. 
É esta a primeira pessoa em que penso se ganhasse o Euromilhões e mesmo assim não pagaria o impagável.
Se isso não acontecer, prometo aqui ao Sr. António, pelo menos uma visita com umas boas garrafas de vinho e um abraço cheio de Portugal, para isso ainda tenho algum dinheiro e ânimo não me falta.
Um brinde ao Sr. António!!!

 

18
Out19

Encontros gourmet

Rita Pirolita
 


Hoje em dia já não sei como se processam os primeiros encontros de pessoas adultasnem sempre maduras e responsáveis…isso não interessa!
Vou arriscar imaginar um primeiro jantar nos dias de hoje de um casal que pode ser hetero, homo…isso também não interessa!

Para impressionar, combina-se jantar num restaurante gourmet com Chef de nome francês, se não tiver estrelas Michelin tanto melhor, tem a mesma qualidade ou até é melhor e poupas 5 euros na conta final, sempre dá para o pequeno almoço!

Tens pratos do tamanho de folhas de nenúfar e talheres que não vais usar
Prepara-te para usar a visão e o olfato durante 5 segundos e o paladar durante 3.

O Chef vem à mesa quando vais a meio da refeição, ou seja passado um segundo, dizer que tudo é feito com produtos frescos e muito amor, mentira! 
A comida é enlatada ou já está preparada desde o dia anterior, metida no frigorífico à espera de pacóvios como vocês para jantar. Digo isto com conhecimento de causa, há alguns anos atrás, um amigo meu trabalhava numa das pizzerias mais caras de Lisboa, o estranho é que ele não percebia nada de cozinha e era precisamente onde estava... tinha que tirar as lasagnas do Lidl do congelador e parti-las ao meio para fazer 2 doses!  Assim também eu!

A equipa maravilha está ali para os servir e proporcionar experiências inesquecíveis, quando os únicos no restaurante são o empregado e o Chef.

Além de pouca comida não podes rapar o prato, parece mal, por isso conta comer dois terços do que foi servido, se tiveres azar a única ervilha do prato que tentas apanhar com o garfo sai disparada e aterra na mesa ao lado porque está crua!...

Com pouco no estômago fica-se bêbedo com dois copos de vinho comprado no Aldi e que no restaurante custam tanto como 30 garrafas.

Estes jantares demoram pouco tempo, não mancham a roupa e deixam o estômago e a carteira vazios.

 

Pagas, não arrotas porque é má educação e não acabaste de comer como gente.  
Podes esquecer o nome do restaurante sem sentimentos de culpa, não é daqueles sítios que se recomendem ao melhor amigo, para inimigos.

Na saída, sorriso 33 de quem foi enganado uma vez e não volta a cair na esparrela.

Como não se vai repetir esta experiência inolvidável, não vais sofrer de má nutrição, alguma fraqueza é certo mas animaditos pelo vinho, não risco de flatulência que interfira com o sexo e que parece sempre mal num primeiro encontro, passam assim por seres que não se peidam em situação alguma até ao fim da vida.

Confesso que a refeição que mais me encheu a alma até hoje foi um pão alentejano e uma lata de atum a dividir com o moço, dentro do carro, a ver o pôr-do-sol algures na costa alentejana.  

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