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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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09
Ago20

Pretos Benetton e brancos Hip-Hop

Rita Pirolita
 
 

Nem sempre vivi no mesmo sítio, mas fiquei sempre pela margem sul. Tinhamos a Torre da Marinha e o soweto do Fogueteiro, o famoso JAMAICA, mesmo coladinho à escola dos betos. Se entrasses neste sítio por engano rezavas para que o carro não avariasse, a pé nem pensar saías de lá deitado e pálido, nem a Polícia lá punha os cotos com miáufas, mas tinha andares à venda sem janelas e portas, é claro que compravam uns aos outros ou eram ocupados por gabirus corridos a tiro de outros bairros semelhantes. 

Como já deduziram, eu é que vivi numa zona de enclave, qual Médio Oriente, pff.

Nunca foi fino viver na margem sul.
Retornados, pessoal do Alfeite, putas e marinheiros nunca faltaram naquele lado do rio bem como pessoal que vinha da térrinha com uma mão à frente e outra atrás, viver na capital era muito caro. 
Ficamos no entanto com o melhor daquele lado da ponte além do Cristo Rei, as praias! 
Na altura pouca gente tinha carro, não havia filas, demorava-se menos de 10 minutos até à Fonte da Telha e 20 minutos até à Costa de Caparica. 
Agora a Fonte da Telha tem mais gabirus que retornados e pescadores e a Costa de Caparica tem brasileiros a dar com um pau, estão à beira mar para não se esquecerem da terra deles.
Os lisboetas estão sempre a dizer mal da margem sul mas no verão são os responsáveis pelos engarrafamentos no acesso às praias. Se a capital é assim tão boa vão para Carcavelos para a praia do cagalhão se não gostarem sigam sempre para norte. 

Passou a ser 'finesse' viver na margem sul quando os jogadores da bola se mudaram para a Aroeira e o PCP comprou a Quinta da Atalaia. 
Os da Quinta da Princesa além de poderem vender mais droga por altura da festa do Avante, passaram a sentir que viviam na Quinta da Rainha em condomínios de luxo. Se ciganos já haviam em barda a esses juntaram-se os pretos, estes grupos viviam mas não conviviam claro, eu como branca tinha o melhor de dois mundos, amigos de um lado e de outro.
Lembram-se da altura em que os pretos vestiam Benetton como os brancos? Por acaso ficavam bem o raio dos miúdos, o preto contrastava com o rosa, verde alface, amarelo e... sapatinho de vela à surfista para rematar, mais tarde fartaram-se e mudaram o estilo, então os brancos imitadores passaram ao estilo hip-hop, botas Timberland e calças ao fundo do cu a mostrar a cueca comprada no cigano marca Gregório Armando. 
Só uma coisa amiguitos conguitos não façam tatuagens, não se vê nada na vossa pele a não ser que sejam galão clarinho. 
Já nada é como dantes, agora os pretos e ciganos ganham o ordenado mínimo e tiram cursos no Centro de Formação Profissional, no pouco tempo livre que têm entre entradas e saídas da prisão, uma coisa é certa, passaram a ter casas de jeito para assaltar na margem sul, as dos futebolistas.

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