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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

20
Jul20

As mulheres que não querem

Rita Pirolita
As mulheres que não querem ter carreiras, que querem ficar em casa a cuidar dos filhos a organizar o seu tempo, a não ir à guerra fora de casa, a procurarem no supermercado as únicas promoções que fazem parte do seu dia-a-dia...
Embora não discordem e até apoiem, não faz parte do seu quotidiano andarem metidas em confusões de liderança e representação empresarial mais activa, atribuindo a desigualdade salarial à simples existência dos homens.
Se forem trabalhar têm que pôr os filhos na creche e lá se vai o dinheiro, mais vale ficar em casa, não se ganha mas também não se gasta e mais importante, cansa na mesma mas não desgasta tanto. 
Eu tenho costela de doninha de casa mas sem filhos e muito menos sem um gajo chato de quem não dependa.
Embora não faltassem pretendentes, quando era mais nova não ligava a essas coisas nem tinha paciência para submissões em troca de dinheiro, agora que estou mais velha a visão mudou mas também já não vou a tempo de nada e a pouca paciência que tinha...esqueci-me onde a pus.
Nunca tive o sonho de me armar em empreendedora ou mulher lutadora para mostrar orgulhosamente que era independente, também ainda não casei com um gajo rico que tivesse dinheiro suficiente para me sustentar sem andar a contar tostões à pobre. 
Sou rapariga sossegada, vegan, não uso peles, não gosto de caviar, ostras ou alcool, sou boa dona-de-casa, sei coser meias, embora isso não acrescente nada ao currículo porque nos dias que correm, meias com buracos deitam-se fora e agora a moda até é andar sem elas. 
Só preciso de um cão para ir passear e conhecer Sugar Daddys. Mesmo em idade avançada ainda me considero em bom estado e disponível para adopção.  
Nunca fez sentido dar o meu melhor, quanto mais armada ao pingarelho do profissionalismo, quanto mais e melhor fazes mais trabalho te dão e não te pagam mais por isso, com a grande desvantagem de só atraíres inveja das cabras do trabalho.
Nunca tive jeito para mandar em cães e crianças, quanto mais domar gente e lucrar com o seu suor.
Tive oportunidade de subir na horizontal porque tenho atributos que atraem esse tipo de promoção como néons, não o fiz mas se o fizesse, quase de certeza hoje não estaria arrependida e as únicas a insurgirem-se pelos corredores seriam as gordas do trabalho. 
Eu sei que não é justo mas também não venham com  a conversa da ressabiada, têm a opção e liberdade de fazer dieta, podem é não ir a tempo de ficar com o lugar.
12
Fev20

Quem não?

Rita Pirolita
Quem não? 

Sentiu desprezo portas dentro, viu compaixão cega e ajuda oferecida a quem não merecia, abuso de laços de sangue, desrespeito, humilhação e domínio em troca da comida que vai à mesa.
A qualquer movimento dizem que não fazes mais que a tua obrigação que não precisam de saber se simplesmente estás bem, se precisas de alguma coisa mas apesar de não prestares para nada e não mereceres, até te dão os Parabéns todos os anos e telefonam pelo Natal em jeito de missão cumprida. 
Os filhos têm a obrigação de se preocupar com os pais, de lhes obedecer e nunca pôr em causa os seus infalíveis métodos de educação, uma chapada nunca fez mal a ninguém e a violência preenche o dia-a-dia à falta de melhor, num lar sombrio que baste. 
Quando sais de casa não há olhar para trás, não há lugar a lágrimas de saudade que te enfraqueçam.
Ao mínimo pedido de ajuda em passageira dificuldade, vão-te fazer amargar cada palavra de apoio e cada tostão será cobrado, não socumbes por orgulho e segues sem amparo. 
Podia ser eu, a continuar o mesmo tipo de vida mas não, sou eu a contrariar, a evitar percurso tão errante e vicioso. 
Se tivesse rodeada de simples cuidado e bondade seria hoje mais assertiva, livre e menos defensiva.  
Neste caminho que vou correndo, a fugir de gente que me atinja com malvadez e desamor, quem me fez nascer desistiu de viver por cansaço de tanto desleixo e frieza miserável...
Quem ficou tem no meu olhar a acusação e o julgamento da culpa que não sente, com quem tenho que conviver por pena e que pensava eu me fizesse mais forte e melhor, mas apenas me aumenta o nojo.  Não sinto previlégio no sofrimento, não quero ver pena nos olhares, não me é permitida saudade ou luto nem queixa por injustiça, apenas aceitação de uma vontade doente que se cumpriu e me venceu.

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