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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

09
Ago20

Dominatrix virtual

Rita Pirolita

Sou uma Dominatrix virtual, gosto de torcer palavras, espremer conteúdos, subverter sentidos, brincar com o fogo, chicotear ideias, deixar-me estimular por quem responde com alfinetadas de gozo, num crescente prazer intelectual que me vire do avesso e me ponha num êxtase tal que as palavras passam a gritos de dor e deleite. 

01
Abr20

Velhos jarretas

Rita Pirolita

 

Agora todos são solidários com a luta pelos direitos dos animais, antes andava tudo a falar das crianças e noutras alturas dos velhos. 
Vai de modas, na verdade são tudo boas causas e devemos proteger ou pelo menos não prejudicar, os que não se conseguem defender. 
Mas será que alguns são mesmo frágeis ou aproveitam-se da condição? 
Já vi muitos cães passarem-se da bola e desatarem à dentada.
Já vi putos atirarem-se para o chão do centro comercial a esbracejar e a rodar sobre as costas como um escaravelho de pernas para o ar, aos gritos, a chorar baba e ranho por não lhes fazerem a vontade de comprar tudo o que querem.
 vi velhos a correr todos à bengalada, a queixarem-se que ninguém lhes liga ou que são diabéticos e não se podem irritar. Que eu saiba, a diabetes não dá dores de cabeça, dentes ou ouvidos, que são as mais massacrantes. 
Aliás, hoje em dia, velho que não tenha diabetes, gota, osteoporose, colesterol elevado e joanetes, não é idoso que se preze e tem a garantia que ainda vai andar cá muito tempo, a consumir o dinheiro da reforma e a arrastar-se no queixume, dando cabo do juízo aos que o rodeiam.   
Eu bem os vejo no aeroporto quando vou viajar. 
Antes de levantar voo todos requisitam cadeiras de rodas até à porta de embarque, vão de cu sentado e passam à frente de todos, quando a viagem termina o mesmo número de cadeiras que foram requisitadas na origem do voo estarão no destino à espera dos mesmos velhos, é vê-los com a tesão do mijo a tentar sair à frente de todos, comigo não têm sorte que eu não lhes dou abébias. 
Se nem andavam na hora da partida ficam cá com uma energia de atleta à saída? Deve ser da mistura do RedBull com a despressurização, aquilo dá cabo de cabeçinhas com Alzheimer e Parkinson! 
Assim que põem um pé fora do avião metem a bengala debaixo do braço, saem disparados que nem foguetes e deixam os gajos da groundforce a arejar a cadeira de rodas e a lançar a cada velho que passa um olhar de comiseração e esperança frustrada, sem lhes darem oportunidade de praticar o bem e mostrar excelente serviço.
Nem todos os velhos são fofinhos, há-os jarretas ou velhacos e alguns até dá vontade de os matar antes de morrerem!
 
 
16
Dez19

Mula do cigano

Rita Pirolita

Está na moda gritar pela defesa das minorias que tanto foram massacradas no passado ou denunciar a subsidio-dependência dos que não querem sofrer dessas maleitas chamadas trabalho escravizante ou esforço descomunal para sobreviver, pagar impostos e ter uma vida de merda à mesma.

Ciganos...agora todos os defendem e deram conta da sua existência, fazem exposições alusivas aos seus costumes e cultura itinerante, até a Catarina Furtado já entrevista putos ciganos que querem ser veterinários e advogados sem irem à escola, assim também eu gostava.

Fazem campanhas de domesticação, a desincentivar os casamentos entre menores tal como o abandono escolar.

A verdadeira cultura cigana assenta numa recusa de grilhões, na liberdade de apenas obedecer às suas regras sociais e hierárquicas e tradições familiares, com as crianças e os anciães no topo da lista, brindados com conforto e a serem protegidos da fome e da doença, típico de sociedades ancestrais e pobres com sobrevivência dificultada, que sabem que as crianças garantem a continuação da família e comunidade e os velhos são o garante de passagem das tradições e ensinamentos que permitem a coesão da etnia.

Viviam descaradamente, antes mais que hoje, do roubo, pilhagem e aproveitamento da propriedade privada da qual não têm noção nem respeitam, porque os seus hábitos nomadas ancestrais não se compadecem com a posse de bens materiais, com criação de raizes e acomodação num só local.

Na verdadeira alma cigana o mundo é uma casa gratuíta, a natureza dá alimento sem trabalho de cultivo ou criação de animais, sendo um dos seus pitéus favoritos, o indefeso e fofinho, ouriço cacheiro.

Os cavalos são o seu transporte de eleição, um bem fácil de manter, desde que haja pasto selvagem ou alheio para os alimentar.

Com o negócio ilícito de ouro e drogas, disfarçado com a venda de roupa e calçado em feiras, não pagam impostos, não cumprem nenhumas regras comerciais, vendem marcas contrafeitas tal como os chineses seus concorrentes, não apresentam rendimento, candidatam-se a todos os subsídios possíveis, vivem em casas em vez de tendas e substituíram os cavalos por Mercedes roubados.

Assim se transformam em seres aparentemente domesticados ao aproveitar os direitos da sociedade e continuando ariscos ao cumprimento de deveres.

Os conflitos são resolvidos de forma primitiva, os choros e gritos das mulheres são acompanhados por homens de peito levantado, que tiram armas das malas dos carros para defender coisas tão importantes nesta etnia, como a honradez do nome de família ou da donzela prometida em casamento que dura 3 dias pelo menos, com tudo de bom e luxuoso que a tradição manda.  

Identifico-me muito com o espirito livre destes piratas de terra, mas não gostaria de ser mulher no seu grupo, ter pretendente marcado à nascença, casar cedo, rapar o cabelo e vestir preto até ao fim da vida em caso de viuvez, no verão, o calor que faz a roupa escura!

Por outro lado gostava de viver relativamente bem, sem trabalhar a vida toda, não ir à escola, já que nada se aprende, nem há empregos para gente instruída, não pagar casa, o Mercedes dispensava, porque não é marca que me atraia.

Todos terem medo, a ponto de dizer que não têm queixas dos vizinhos ciganos, que não são racistas, até se dão bem com eles e apreciam as suas festas e convivência estrondosas, à parte os tiros! Quando a coisa dá para o torto, aí é de fugir e eles que se entendam, matem e esfolem, que nem a policia os quer aturar.  

Uma das minhas amigas de infância era cigana mas não se notava nada porque já era domesticada, andava na escola e vivia num andar, qual gaiola dourada da civilização, tinha mais bonecas que eu, porque os familiares espanhóis lhe mandavam tudo de outras bandas e ventos mais evoluídos, eu orientava-me com duas bonecas e brincava uma vez por semana só com uma delas.

Todos sabemos que Espanha sempre foi forte em maus casamentos, caramelitos, torrão de Alicante, Toblerone, ciganada e bonecada.

Libertina e maluca sou eu e não recebo nenhum subsídio e pago impostos que me lixo.

Sou a verdadeira mula do cigano!

02
Dez19

Contos da estrelinha Serigaita - Fogo!

Rita Pirolita
Certa hora precedente ao jantar, a rua estava tão calma e deserta, que até o feijão verde nas hortas se ouvia crescer, as donas de casa cozinhavam e os patrões de família viam televisão, a fumar a sua cigarrada com os miúdos logo ali a brincar no chão da sala ou na varanda.

Ouvem-se gritos e quase ao mesmo tempo, um fumo negro sobe pelas escadas, embrulham-me num cobertor a tapar a cabeça também, pegam em mim, não sem antes pegarem no dinheiro e documentos importantes e rolamos escada abaixo, em passo apressado, lá ficamos todos na rua de terra batida, uns a olhar impotentes outros a tentar salvar a família e a apagar o fogo, que tinha começado numa cave do meu prédio, na cozinha.

Felizmente ninguém se magoou mas ficaram com paredes pretas e um cheiro pestilento a óleo queimado, cortinas de nylon ardidas e tinta derretida. 

Ficamos todos cá fora até os bombeiros irem embora e já a noite tinha entrado naquela rua, quando nos recolhemos nas casas a terminar o jantar, com aquele cheiro que teimou em se agarrar às paredes do prédio durante uma semana mas que nunca mais me saiu da memória e sempre que chega ao meu nariz semelhante olfato, revivo esse incêndio e acalmo a memória, ao recordar que tudo acabou em bem!  
30
Abr19

Vazio sem silêncio

Rita Pirolita
Em dias quentes de verão é bom passar por escolas em férias e gozar o silêncio de recreios com gritos mortos do ano que terminou, chão fértil para gritos vivos do ano que se segue. 

Motéis que passam a nada no meio do nada por falência ou rotas abandonadas, palco de assassinatos, dealers, prostitutas, escapam pelas paredes caídas, gritos de prazer, gemidos de choro e deboche.

Esqueletos de fábricas, estaleiros e centrais nucleares, contorcem-se em ferrugem e suor cancerígeno.  

O deserto deixado pelos sacrifícios da guerra, o choro de experiências em hospícios, os gritos incómodos e desesperados de almas sofridas, perdidas no limbo da loucura que se agarram aos nossos braços em jeito de boleia, nos dão a mão a pedir carinho e compaixão e nos deixam um nó na garganta de impotência para mudar o passado.

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