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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Ago20

Nunca se sabe como acaba

Rita Pirolita
 
Sais só para ir tomar café com os amigos e regressar cedo para a caminha que o dia seguinte é de trabalho, quando dás conta estás numa espécie de armazém dos bombeiros, algures na Margem Sul e 4a é noite de strip.
Era a minha primeira vez naquele barracão, juro, não sabia de nada até se começarem a despir e ainda bem que fiquei até fechar!
Dás de caras com pessoas que não vês algum tempo e nem queres imaginar que estão sempre lá caídas em noites de programa escaldante, mas gostarias de certeza que não te vissem ali nunca. Bebes umas vodkas, o constrangimento passa e começa o strip 
Os machos vocalizam pouco e olham muito, mas não despir com os olhos que a menina é paga para fazer isso sozinha, sim senhor, calmeirona, mexe que nem cobra e eles babam que nem cães, chama para a sua dança libidinosa um primo afastado de anão que desaparece do mapa quando ela fecha as pernas em redor do seu pescoço. Eu sabia que faziam isto com bolas de pingue-pongue mas com um gajo inteiro mesmo baixote, na Margem Sul.
Termina a actuação e para alivio meu vejo que o nordestino sobreviveu às grossas pernas da brazuca, aquilo foi ilusão de óptica.
Mais uma invasão do dance floor e o pessoal pensa que o climax da noite foi, nem pensar, de repente a música muda e estas noites mostram-se muito democráticas
Entra um pedaço que mais parece que fugiu da exposição do corpo humano, vê-se cada tendão, foi ali bem azeitado fazer uma perninha para aquecer os músculos.
Passei o tempo todo por trás de uma amiga minha a esbracejar vigorosamente ao Adónis para que a escolhesse para a sua performance, que o amigo que foi connosco era gay e eu não sabia se o bailarino era veado, melhor não arriscar que se podiam entusiasmar
Ao menos a minha amiga tinha corpo que se visse, não corria o risco de desaparecer debaixo de um sovaco.
Encheu as mãos de carne bombada, tirou as medidas à tanga e veio-se sentar a acabar o gin. Eu não fui porque sou muito alta e ia tirar protagonismo ao brasileirão
Para acabar em grande o casal de stripers faz a sua última aparição da noite, a poposuda tira tudo, nem marcas de biquíni mas ele não, estaria com vergonha ou não teria feito a depilação naquele dia? Já sei, os homens nem sempre desnudam as pendurezas neste tipo de mostra. 
A verdade é que andamos um mês a rir à pala daquela inusitada noite!
24
Jul20

Gira mesmo sem make-up

Rita Pirolita
Sou uma rapariga engraçada e jeitosinha, com alguma maquilhagem fico mais arranjada, com excesso pareço um palhaço como toda a mulher mas algumas não têm noção. 

No fundo o que eu quero saber com esta introdução é, e dirijo-me às senhoras modernas que percebem destas modas:

Digam-me como aguentam base na tromba sem sentir que enfiaram um fato de mergulho na cabeça e não conseguem respirar, como põem pó para tirar os brilhos sem sujar golas, como usam rímel sem sentir que têm um hipopótamo deitado em cada olho, como usam lip-gloss sem sentir que fizeram um bobó e não tiveram tempo de limpar a boca, como dão mais corpo às sobrancelhas sem que pareçam duas lagartas do pinheiro, como conseguem usar lentes de contacto sem parecer que têm pedregulhos nos olhos, como aguentam laca, por mais leve que seja, sem ficar com uma comichão no couro cabeludo que mais parece piolhos com epilépsia, como aguentam tratamentos que incluem choques elétricos, arrancar pêlos com cera a queimar (acho que esta já não se usa), lasers, unhas feitas num oito, escavacadas por brocas e gel que não as deixam respirar, manicure e pedicure com fungos à espreita prontos a atacar, como conseguem usar aparelhos nos dentes sem indicação ou para lá do tempo recomendado, com a idade que muitos têm não lhes dá um ar mais jovem, apenas parecem sapos com ar de parvos, descolorações que queimam o escalpe, secadores que queimam ainda mais, puxões de cabelo com escovas usadas noutras cabeças e finalmente porque é que as cabeleireiras são quase todas loiras e têm aquele ar de?...Desculpem esta última dúvida não pertence aqui.

Usamos maquilhagem e submeto-nos a tantas outras torturas para encobrir imperfeições e realçar qualidades, quando a beleza se encontra mais em coisas imperfeitas e assimétricas, carismáticas e únicas!

Sendo assim até me sinto gira sem make-up mesmo ao acordar, não assusto ninguém e mais importante, não me assusto ao espelho mas há dúvidas que me assolam minimamente mas se não forem desfeitas...também não morro por isso! 
18
Jul20

Do casamento ao divórcio vai um almoço

Rita Pirolita
Dias atrás almocei em local popularucho, sitiozinho de famílias de fim-de-semana, restaurante de peixe típico de praia, sardinha assada a pingar no pão, choco frito lambuzado de gordura, mosca quase a pousar no pão, cheiro a entre-folhos mal lavados de berbigão e outros cascudos mariscos, vinho à casa, garrafas de azeite escorregadias, alface, tomate, pimento e cebola, salada que mais parece criada numa salina, haja sal na vida e nas artérias, travessas de alumínio barulhentas-inquebráveis, talheres de nações diferentes, pratos nicados ao bom estilo pesado e resistente da fábrica de Sacavém, copos a cheirar a fesquio, sobremesas de babas de animais e doces da mãe, da tia e da avó, ananás de bordas secas e salada de fruta com cereja cristalizada...  
A primeira servidora que abordou a mesa tinha ar de modelo rejeitado, que não queria estar ali a trabalhar porque achava que merecia mais, mas era aquilo ou casa de alterne que talvez estivesse na calha, pelo menos às sextas e sábados à noitinha! O moço observou que também tinha ar de designer de jóias, mais propriamente na especialidade de broches! Ora bem, o que salvou a moça de nos levantarmos e darmos lugar a outros, foi ter ido brochar para outra sala do restaurante, veio em sua substituição um puto com a palermice típica da idade do acne, de barba semeada em dias de vento e de penteado híbrido, entre o jogador da bola do clube do Arranha a Picha à Pescador e empregado de mesa durante a semana no restaurante onde estava. 
Até agora tudo a bater certo. 
A única miúda gira e de ar decente que tanto poderia estar ali a servir como estava a fazer e muito bem, como podia ser gerente da ZARA, discreta, desempertigada e vestidinha com classe, se é que as há, foi a que não nos calhou, por acaso era a filha do dono e tinha um ar normal o que nos dias que correm é o mínimo que já desejo encontrar, gente simples e normal com os cornos minimamente alinhados para se fazerem entender e saberem ao menos uma pontinha do que andam por cá a fazer sem se armarem em pindéricas!
O almoço começou com anúncio de festejo por parte do meu pai, celebramos o divórcio de segundo casamento de três anos, decidido o nó em três dias, decidiu-se a desfeita do atilho em três dias também. 
Alvitrou ele - 'Festejamos porque mereço e porque já fiz quase tudo o que queria na vida, passando pelos estados civis de solteiro, casado, viúvo e divorciado, nada mais resta senão continuar a viver como quero e me vão deixando.'
Confesso que foi um momento de riso para mim, quase a tocar o hilário de um progenitor que sempre fez o que lhe deu na bolha, sem pedir conselhos ou cair em lamúrias, tal como eu casou mas não disse nada a ninguém, só o par tem que saber e ser para se dar o casório de assento A4 ranhoso, de uma penada em menos de uma hora. 
Foi o único momento em que achei que o pai era da sua filha em algum ponto, com o acréscimo de ter tomates para ficar mais uma vez sozinho para lá dos 70, sem mostrar arrependimento, porque o orgulho o impede e porque aos outros tal como a ele, já falha a paciência para lidar com arrufos de amor.
Nestas idades, já sinto eu um cheirinho, seremos mais crus, rijos na emoção, flexíveis no futuro que já não tem muito a perder nem dar a ganhar, o tempo que sobrar, aproveita-se como fim-de-semana prolongado de feriado à quinta ou terça!
Serei eu assim, sem medo do estigma do lar, do abandono de quem não tive nem mantive, porque não cultivei e reguei amigos de longa data, porque não rebentei outros seres afilharados, porque a família me pariu de sangue em sangue sem afinidade ou cuidado próximo, porque os sobrinhos e primos têm outros padrinhos e tios para cuidar, a mim ninguém me tocará por herança ou dedicação, apenas o dinheiro, se o poupar, garantirá tratamento por alguém frio e distante, que não sofrerá com o meu degredo nem eu olharei nos olhos de quem me cuida, com humilhante vergonha de me ser querido, a quem poderia provocar sofrimento por ligação, porque o apego é uma merda de liberdade envenenada pela fraqueza de morrer, seja em amor, comiseração ou compaixão!
31
Mar20

O sexo sem hu(a)mor não tem tanta piada!

Rita Pirolita
Vou falar de sexo com o pudor que merece da minha parte ou seja, nenhum!
Não precisam de comentar ou expor o vosso comportamento mas vejam lá se não sentem também um pouco do que eu sinto. 
Sempre me intrigou o seguinte, filmes românticos, eróticos, de suspense, policiais, de zombies, vampiros ou até canibais, parece que agora não há género que não tenha que enfiar no guião como condição sine quo non, uma cena lá pelo meio de pirueta em vale de lençóis, no elevador, nas escadas, é onde calhar, nunca se pensa em DST's, preservativos ou mesmo tirar as collants e calças, tudo é penetrável, até a roupa. 
Ora bem, estão a ver aqueles filmes em que na cena quente ela é filmada em slow motion com os cabelos ao vento em posições sem refegos, celulite ou mama descaída, tudo é perfeito e rápido que nem coelhos, elas surgem na cena seguinte de roupão ou com a camisa dele enfiada à porcalhona desleixada mas maquilhada que nem Bela Adormecida e com o cabelo sem pintelho a despontar fora do sítio, tudo arrumadinho mas com um olhar de badalhoca, que só Deus sabe e o gajo que esteve com ela na cama!?
Estão por outro lado a ver os filmes que são uma sátira a estes? Em que ela na cena sensualona cai da cama, parte um pé, entala os dedos na mesinha de cabeceira ou aparece o cão dele com um olhar que a intimida e envergonha e junta-se à cena, não, corta, isto já sou eu a delirar! 
Pois, eu sou mais inclinada para estes lados, para este tipo de tragicomédia, não que já não tenha tentado fazer de boazuda, sempre me foram dizendo que sou gira e devia explorar mais a minha faceta sexy, que segundo todos os homens, todas temos. 
Sinceramente nunca me senti assim, prefiro pensar em mim como alguém com graça e piada, de ar divertido de quem está bem com a vida, a nível fisico a imagem que penso transmitir é de alguém com uma postura pragmática, porte mais para o atlético, calço o 41 e sendo alta posso dormir de pé como as galinhas, é sempre o que me dizem para serem simpáticos e não desagradáveis ao confirmar que de facto sou patuda, tenho umas mãos enormes, embora seja proporcional, isto não é de todo o cumulo da feminilidade e delicadeza, por mais que tente não parecer um elefante dentro de uma loja de cristais! 
Ora bem na senda de tentar descobrir alguma coisa em mim que os outros viam mas eu não queria admitir, tentei em algumas alturas forçar-me a ser sensual, em câmera lenta e tudo, confesso, não deu o resultado esperado, saiu mal, deu merda mas fartei-me de rir, não sendo a única a ser contagiada pela cena, quem estava comigo também confirmou, que estávamos lá para foder e rir se assim fosse o caso e houvesse oportunidade e não para andarmos a brincar aos cowboys, a esconder-me do Índio que me quer dar com a pena na moleirinha para castigo ou fazer-me cócegas nos mamilos como tortura. 
Por falar em personagens de filmes, nem me queiram imaginar vestida de enfermeira put@ e ele com arreios de cavalo, porque se não aí é que morro de riso e não fodemos! 
Ainda mais, detesto lingerie com fitinhas, botões, lacinhos, rendinhas e outro tipo de tirinhas, em vermelho e preto ainda pior, não vai com a cor dos meus olhos. 
Detesto que tentem impor celebrações como o dia dos Namorados, lembrar o dia em que o conhecemos, celebrar a primeira queca, a primeira semana, mês, trimestre, meio ano ou ano...arre, não!
Detesto flores empinocadas, então aqueles arranjos de florista não têm piada nenhuma, nunca consigo distinguir um ramo de festa de um para funerais.
Não gosto que arranquem flores em geral, deixem ficá-las no jardim que são mais bonitas e mantêm-se vivas por mais tempo. 
Pétalas de rosa e velas, suporto numa massagem, se for oferecida tanto melhor e como estou de olhos fechados também não vejo as paneleirices da decoração.
Por outro lado sempre achei que as minhas colegas de escola na altura das descobertas e não era do caminho marítimo para a Índia, romanceavam e mentiam muito sobre a cena, quando descobriam que para engravidar não é preciso saber foder, é só preciso foder...já era tarde e que além disso para foder não é preciso amar ou andar em busca do amor nas cavalgadas, também só é preciso foder! 
É óbvio que se uma pessoa encontra alguém com quem se dá bem, que existe aquela química, como costumam dizer os entendidos desses subterfúgios da fod@, tem mais tempo de descontraidamente ir descobrindo as teias do prazer e explorar afectos, não os beijoqueiros do Marcelo, valha-me Nossa Senhora da Espuma aos Cantos da Boca, kanoije!
Pronto, já perceberam por esta altura qual é a minha visão e verdadeiro comportamento incontornável que tenho e tanto me caracteriza, de me rir de tudo e ter prazer ao mesmo tempo. 
Não se resumirá também o amor a um animalesco desejo, bastante humor à mistura e algumas dores de corpo pela ilusão e boa vontade, de em determinada idade insistir em fazer posições de há 20 anos atrás, dentro do carro já nem se fala, ou inventar novas posições que não dão em nada, a não ser em torcicolos e quedas mais ou menos aparatosas?!...Mas nada nos pára! 

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