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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

01
Mar20

Pó e mais pó

Rita Pirolita

Já por aqui muito falei de limpeza e do meu vício mais a tocar o doentio, da comichice que me faz a falta dela, facilitada se tiver apenas o essencial, sem psichés supérfluos criados apenas para encher recantos e dar joelhadas.

Sou obcecada com limpeza ao ponto de começar a ressacar se não tiver tempo para limpar a mais pequena sujidade que este meu olho clínico prescrutar. 

Relaxem, por enquanto só amofino o meu ser sem prejudicar mais ninguém que não esta palerma que sou!

Sempre fui muito organizada em espaços meus, com os dos outros só se me pagarem muito bem para limpar merda alheia e mesmo assim se for aquele tipo de merda que seja tão grande que me desagrada, típica de gente porca, desleixada e preguiçosa, nem lhe toco e viro logo a cara, quem a deixou acumular que morra enterrado nela!

Existe num entanto uma sujidade a que chamo limpa!

Lembro-me por exemplo de estar na casa dos meus avós quando era miúda e apesar de a minha avó andar sempre a limpar e nós próprios termos cuidado, havia um pó que insistia em fazer parte dos móveis rústicos, não aquelas imitações enfiadas em apartamentos de cidade, na senda da foleirada pegada, típica de mau gosto novo rico que pensa honrar as origens, misturado com douradas patas de leão Luis XV, nada disso, eram móveis escuros, robustos que não vergavam mas rangiam no silêncio, a contorcerem-se com o frio da noite, feitos para levar coisas pesadas lá dentro, toalhas de linho ou renda, centenas de pratos desirmanados, terrinas...onde se passássemos um dedo que fosse, se notavam logo as sete camadas de pó que se tinham instalado, mesmo que se tivesse limpo há 5 minutos! 

Este pó sempre me pareceu e continua a parecer, o único tipo de sujeira que não me põe os cabelos em pó...pé.
Uma camada saudável de poeira, é sinal que estamos no campo, longe da fuligem peganhenta dos carros e do pó doentio e fino das persianas.  

No campo o pó é denso e flutuante, tem alma de fada e espessura de alquimista, quase conta histórias, dá para desenhar corações e flores, faz-se notar, tem presença e vem sempre para ficar como se fosse o fantasma bom da casa que nem alergias consegue provocar, quanto mais sustos.

Quando passamos a correr e ele se alvoraça, levanta e volta a pousar como se cada partícula soubesse o lugar onde se acomodar, para bem se distribuir e espraiar, fazendo o seu trabalho de não deixar nada a descoberto, nu e sem protecção. 

Nunca ouviram dizer que limpar demais às vezes estraga? Este pó prazeroso dá vida e conserva, não deixa que as coisas se esvaziem da sua identidade.

O pó dos quartos é de colchões de palha, uma espécie de fuligem sem fogo, libertada quando os ajeitamos, faz cócegas no nariz, tudo passa assim que nos atiramos para o fofo restolho dos pauzinhos macerados!

O pó da cozinha está assente em chão de terra batida, já vidrado em alguns sítios de tanto uso e rega diária, para domar o pó que acumulado, vai fazendo um chão calcado, quase verdadeiro, terra batida impedida de dar flores, da mesma espécie da horta, mas amaciada todos os dias sem sementes a germinar e sim pés a pisar, em correria, sangue de cabidela derramado, compota, manteiga, pingos de azeite, gordura de sardinha, e assim vai sorvendo tudo o que lhe deixamos cair em cima, ficando alisado e cor de burro quando foge. 

Nos vidros das janelas pontilhados de pequenas bolhas, imperfeição de século passado, o pó deixa-se ficar agarrado em forma de lágrimas escorridas, gotas de chuva secas, quando o sol beija, um pó de ouro envaidece o vidro tosco! 

A lareira negra na impossibilidade de ser limpa em alvura, é varrida, deixando emanar o cheiro do fumeiro, ramos de louro e presunto assente no beiral, cabemos todos lá dentro, junto aos potes de ferro de três patas que cheiram a sopa, escuros como piche, encerram em si a protecção de gordura, sem ela vai-se o gosto mais gourmet do mundo, o sabor a vida, comida de gente que trabalha, que come por fome, prazer e necessidade, para se saciar e repor energias da estucha da vinha, do pomar e da eira. 

Panelas de alumínio gastas de tão areadas, com fundo quase a romper em rendilhado, tachos de ferro, pesados que nem chumbo, pratos, canecas e cafeteiras de esmalte, leves que nem penas, picotados de ferrugem, copos de fundo grosso, tingidos de cor vinho...  

Os candeeiros altos não se limpam, também se resumem a lâmpadas bojudas, penduradas em fio preto descarnado, nem nas teias se mexe que de tão finas passam pelos intervalos do pó, além de augurarem dinheiro.
Os gatos borralheiros saltitam e aninham-se ora no quente da fuligem, ora no 'pó-de-arroz' espanta aranha da batata.
As parras e uvas parecem peludas de pó branco e macio.

Os cães, as galinhas, os coelhos e o nosso cabelo, trazem fina película de cheiro a pó, agarradinho como um casaco invisível.  

Nunca deram pelo cheiro do pó? Aquele que não é forte mas também não se deixa ignorar, que faz comichão e espirros mas não mata alérgicos nem asmáticos e muito menos se levanta se ninguém o alvoraçar?!...

Além de nós, só o vento o remexe e os nossos olhos o consideram!

10
Ago19

No reino do campismo

Rita Pirolita
Como já perceberam por anteriores encontros literários marcados aqui mesmo, sem hora ou dia, sou ferrenha adepta e praticante de campismo de tenda à medida.  
 
Embora com o avançar da idade esteja seriamente a pensar em comprar uma tenda grande, onde possa andar de pé sem parecer um caracol com reumático ou mesmo em comprar uma autocaravana ou em último caso e quando o esqueleto pedir, um alvéolo num parque de campismo, com uma requintada casa de madeira, com a entrada forrada a oleado, pedaços de mármore, ou tijolos de cimento a fazer canteiros e caminhos de jardim encantado com cogumelos e gnomos em barro, em 2 metros quadrados de cubículo, que ainda leva com um churrasco de tijolo a um canto e mesa e bancos de cimento para esfoliar joelhos, rabo e pernas, bem no centro. 
Não resta assim espaço para circular, ou estás sentado e comes ou desandas para o bar ou para a praia que dentro do pré-fabricado, se não houver ar condicionado, morres abafado que nem peixe fora de água.
 
O campismo de tenda, é considerado na sua maioria a versão pobre de férias, de quem não tem dinheiro para ter casa à beira-mar ou usufruir do pretensioso turismo rural, com pequeno almoço e arzinho condicionado. 
No meu caso, não tenho casa no Alentejo mas gosto de barraquice e até já gostei mais, não fossem as costas ficarem todas encarquilhadas e já não conseguir dormir em colchões de 3 mm, porque já não consigo apanhar bebedeiras de festival que me anestesiem a dor. 
 
O moço já começou a levar cadeiras de praia, porque já lhe custa comer sentado à japonês, num simples oleado estendido no chão, cheio de formigas, resina e caruma. 
Começou também a levar redes mosquiteiras, porque está cada vez mais convencido que o seu sangue atrai mais picadas que o meu, já lhe disse que passe a vegetariano mas ele está-se a borrifar e continua a dar-lhe nas feveras, no piano e no belo chouriço assado. 
 
Cada vez menos me preocupo com as pendurezas na hora de me ver livre da lycra, na minha praia de nudismo preferida, que não vou dizer qual, para não me incomodarem com pedidos de autógrafos e fotos indiscretas. Este corpo não vai para melhor mas também não está mal quase nos 50. 

Casqueiro alentejano que embaça e o vinho para empurrar já não pode ser aquele de pacote para temperar. 
Nunca deixarei de gostar de montar a barraca, o meu corpo é que já não acompanha muito esses gostos libertinos e esgrouviados. 
 
Chegou o momento de começar a pensar na casa com rodas, com WC e duche e uma cama virada para o mundo com vista para as estrelas!
 
Este será o passo que antecede a reforma no alvéolo, ao bom estilo retornado, que faz de cada Verão um encontro da grande família, que são os veraneantes deste tipo de casota. 

Irei passar a primeira semana da primavera, a lavar as cortinas com folhos, super inflamáveis, que se encheram de humidade durante o Inverno, a ajeitar as flores de plástico nos canteiros da entrada, mijadas pelos gatos que se reproduzem aos magotes sempre que há abrigo e comida. 
O moço passará as tardes no churrasco, já que um dos seus prazeres é comer e mexer no fogo. 
Eu passarei algum tempo no meu pequeno-enorme jardim virado ao pôr-do-sol, a limpar a relva de plástico de baixa manutenção e a dar banho ao cão. 
Vamos arrastando os ossos até ao bar ou à piscina, porque a praia já cansa muito...
Assim passarão os dias, num qualquer parque da costa alentejana.
06
Ago19

Por falar em papel fino...

Rita Pirolita
 

Embora nunca tenha vivido no norte todo o meu sangue é de lá. Os meus avós tinham uma quinta, que para mim e para os meus primos era um universo infinito de exploração e experiências. 

Ora, quando chegava a altura de ir à casinha soltar o prisioneiro, sentados no trono, entretínhamo-nos a amachucar folhas amarelas da lista telefónica e isto não era nenhum segredo para combater a prisão de ventre, quanto mais amachucadas mais macias e perguntam vocês para quê esse ritual? Para limpar o CU!

Já havia papel higiénico mas era muito caro, só uma lista de páginas amarelas dava bem para 6 meses, se não andássemos de diarreia durava mais tempo. 
'Páginas Amarelas, vá pelos seus dedos!'

Ao lado do trono tínhamos uma banheira que na aldeia já era um luxo mas onde nunca tomei banho, só as aranhas tinham ordem para passear nas paredes esmaltadas. 
Tomava banho num alguidar de chapa, uma vez por semana para poupar a pele e despejava a água na horta, couves e alfaces andavam sempre lavadinhas.

Alumiávamos a noite com um candeeiro a petróleo ou velas, tudo cheirava a fumeiro, a sopa tinha o sabor de todas as sopas do mundo juntas, num pote de ferro de três pés, tudo era cozinhado a lenha numa cozinha de terra batida. Não havia frigorífico, tudo se guardava num "mosqueiro", uma caixa de madeira com uma porta de rede para impedir as moscas de entrar, mas se era para afastar as moscas não se devia chamar mosqueiro, que parece uma coisa com uma data de moscas lá dentro, enfim, nem tudo na vida tem uma explicação lógica. 
Ora esta pequena peça de mobiliário tinha que estar num local da casa fresco e seco e lá guardavam-se desde leite a manteiga, queijo e marmelada. 
Comíamos batatas com sardinhas contadas mas o azeite era divinal, as fatias de presunto eram tão finas que até o sol se via através delas e isto não era para poupar...só assim é que sabia bem!

Nesta visita guiada falei da casa de banho, da cozinha, a sala de jantar estava lá mas ninguém lhe ligava nenhuma, já que passávamos o tempo todo a brincar lá fora ou na cozinha a comer, sendo assim, só falta falar dos quartos. Dormíamos em camas de ferro com colchões feitos de palha, de manhã quando acordava estava metida num buraco que nem me mexia, saltava da cama, ajeitava a palha e deixava a arejar por causa da bicharada.

Um dia os meus pais resolveram dar um saltinho a Espanha para ir comprar caramelos e torrão de Alicante, eu não fui mas não se esqueceram de mim e trouxeram um recuerdo, como já sabiam que não gostava de bonecas, em vez de um chorão ofereceram-me uma bolsinha bordada a missangas, o meu primo recebeu um camião lindo, enorme e amarelo da Caterpillar, arranjei logo maneira de monopolizar as horas de serviço da viatura pesada, a bolsa ficou esquecida lá na quinta!

Os dias eram passados a correr, a brincar, a esfolar o corpinho...uma tarde bem me lixei, estavam todos a debulhar o milho quando me senti atraída por um monte fofinho de folhas e me esponjei durante uns bons minutos até que tudo no meu corpo começou a queimar, tinha a pele cheia de golpes finos mas que doíam como a porra, nunca mais!!!

Numa quinta não faltam animais, tínhamos desde cães, coelhos, galinhas, lobos a uivar à noite e carradas de gatos, são uma praga, os coelhos também mas esses acabam no tacho, os gatos bebés iam sabem para onde?...Para um balde cheio de água, coitados!!! Fiquei traumatizada.

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