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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

20
Jul20

Ocupas-rastafaris-contrafeitos

Rita Pirolita
Eu sou muito open mind, viajei muito, papei muito concerto e sempre que posso vou acampar à beira mar mas não me peçam para aturar ocupas-rastafaris-contrafeitos com a conversa dos retiros, nem pagam as ganzas que fumam nem tomam banho, não lavam os dentes e andam com roupa cheia de buracos e quinoa nos dreadlocks do jantar de há uma semana, só porque é cool e os pais pagam!
15
Jul20

All that jazz

Rita Pirolita
Fui a um festival de jazz, há que tempos não me rendia ao ritual de sair de casa para ir a um espectáculo destes. 
O género continua bom e recomenda-se, o público mostra-se apenas com pequenas alterações. 
Estava cheio, para ai metade com bilhetes oferecidos, não interessa, estavam lá e não era para ouvir Xutos ou U2, antes isso.
Um átrio de auditório cheio de gente magrinha que fuma ganzas ao fim da tarde, depois de jantar nos dias úteis e põe em dia o atraso aos fins-de-semana. Homens quarentões de cabelo branco, entre o estilo surfista de ondas baixas e eruditos de vinis, quarentonas entre o estilo freak comunista e nerd direitista. 
Lá entrei de forma o mais discreta que me foi possível, devido à minha altura não consigo passar despercebida, fico assim ridícula como o elefante atrás do poste, não me apetece andar a cumprimentar gente que não vejo faz tempo, para me darem más notícias já basta o que se passa no mundo, casem, tenham filhos, divorciem-se, sejam felizes mas não me chateiem com informação desnecessária das vossas normais vidas. Já sei, já sei que sou muito esquisitinha, mas porra já posso, conquistei idade para isso!
Entrada ordeira na boca do auditório, como pede um show deste gabarito, gente calma e intelectual da treta!
Sento-me à espera que baixem as luzes e me dêem o que vim ver, antes não me livro de ouvir os comentários de três estarolas que se sentam atrás de mim e da sogrinha, o moço não veio, estava com dor de cabeça. As graçolas dos cromos rebentam não em tom muito baixo, "olha o Presidente da Câmara e a Vice, olha o antigo presidente também veio, ele tem todo o direito a estar aqui, foi ele que trouxe o festival ao concelho, o novo não fez nada, mas são parecidos, devem ser família, isto é tudo cunhas e os lugares ali à frente são tudo bilhetes oferecidos, ninguém comprou nada." 
Eu não paguei bilhete mas estes tontos atrás de mim também deram espectáculo gratuito! 
Entram os artistas no seu conhecido estilo simples, de blusas sem gola e calça de ganga, tudo descontraído como a música sem pauta, improvisada que segue ao sabor do ambiente. 
Passado um pouco fecho os olhos e num momento mais melódico e compassado até acabo por adormecer, sabem que o jazz entranha-se, é tão orgânico que não incomoda nem invade, não magoa o ouvido e entra nas veias, estou eu nesta nuvem melódica quando de repente sou acordada pelo abanar do meu assento qual tremor de terra, a senhora ao meu lado numa de mostrar a excitação de quem aprecia muito jazz, bate a perninha em jeito de síndrome do baterista, olho para ela com insistência, mesmo no escurinho, percebeu que estava a incomodar uma fila inteira e não tive mais abanos até ao fim, não preciso que me embalem faz muito tempo. 
Sinto os instrumentos em cada solo de cada quatro do quarteto. O baterista com toque de samba treslouca-se em dada altura, o pianista tilinta as teclas como copos de cristal a ponto de partirem, o saxofone denuncia o sopro em notas muito baixas e pouco puxadas e por fim o violão, grave, gutural, redondo, quente e acolhedor, my favorite! 
Os músicos fecham os olhos em palco, abanam as cabeças em helicóptero e o baterista contorce-se como se o rabo entrasse em curto-circuito!
Embora aprecie jazz de elevador, estes não foram maus, tiveram um entusiasmo ordeiro, foram aplaudidos q.b. no final, sairam de cena e voltaram a entrar para tocar mais uma em forma de oferta mecânica. 
A sogrinha cheia de calor na confusão da saída e antes de se levantar para debanda caseira, aproveitou para tirar as mini-meias da sabrina e em gesto discreto e sorriso denunciador enfiou com elas dentro da mala. 
Hoje de manhã fomos ao café matinal e para pagar, em plena esplanada, saiu um par de meias da noite anterior! 
All that jazz, catchim pum!

 

18
Out19

Ensinamentos milenares

Rita Pirolita
Já escrevi várias vezes sobre os preços pornográficos praticados em seminários e retiros de bem estar, amor e espiritualidade elevada, como também escrevi que só vai quem quer e pode pagar. 
Cheguei à conclusão que não se deve dar dinheiro para alguém repetir ensinamentos milenares em jeito de propaganda comunista e lavagem cerebral, para depois ir gastar em ganzas para se inspirar para o próximo ajuntamento de papalvos.
Confesso que na altura que ia a estes encontros, andava na fase da descoberta mas não era por isso que me deixava enganar e ia a todas, em primeiro lugar ia a tudo que era gratuito, para ver se gostava. 
Nunca cheguei a gostar de nada ao ponto de pagar!
Durante este estado de graça que não durou muito, fui um dia convidada pelo namorado de uma amiga minha, para assistir a uma sessão budista e lá fui contente e maravilhosa ao fim do dia até à rua do Elefante Branco, onde me enfiei numas escadas estreitas de um prédio antigo até uma sala, que se tinha uma janela devia ser tão pequena que ou não a vi ou não me lembro, para esta memória contribuiu em muito a sensação de sufoco, de ar saturado e pesado num compartimento não muito grande, aliás, apertado para meia dúzia de gatos pingados, vestidos de rastafari festivaleiro, descalços e ajoelhados nos tapetes coloridos que cobriam o chão. 
Pareceu-me que tínhamos chegado mesmo em cima da hora e a sessão estava prestes a começar ao som de um sino que se fez ouvir das mãos do mestre. 
Para o meu amigo e eu, apenas restava um buraquinho onde nos enfiamos com trejeitos de 'Desculpa' e 'Namastê' para ti também, sim tu, vizinho da frente, ao qual quando me baixar em posição de saudação vou conseguir lamber os teus calcanhares e tu vizinho de trás, desculpa não ter caprichado na pedicure esta semana e se sentires algum bafo orgânico, possivelmente fui eu mas não te preocupes que vindo de mim são tudo frescos do dia e a vasilha está sempre lavadinha.
Lá levantei e baixei a moleirinha 500 vezes, ao som de um bongo miniatura e abandonei o local ao som do sino, de mãos juntas em agradecimento.
Disse adeus ao meu cicerone e que tinha gostado muito mas que não me convidasse para a próxima, porque vinha ai o Verão e ia estar muito ocupada...a levantar copos, com a regueifa sentada na esplanada.
Saí do prédio, enchi o peito de ar poluído mas fresco, já tinha caído a noite e as putas pululavam naquela rua.
Rumei a casa com uma certeza nessa noite: as putas não são as únicas que fazem fretes e rezam todos os dias de cu para o ar...para sair dali para fora!
30
Mai19

Vida bucólica

Rita Pirolita
 
A moda rastafari está muito disseminada pelos festivais e costa vicentina, local calmo de planícies e praias desertas onde apetece praticar o amor e não a guerra, ouvir reggae o dia todo, enrolar ganzas de meia em meia hora e fumá-las de quinze em quinze minutos.

Adultos jovens, vestem roupas largas e confortáveis de cores térreas e motivos da natureza, por mais que digam que lavam o cabelo e até acredito que o façam, não se penteiam, por isso sempre um grão de quinoa do almoço que resolve aninhar-se nos dreadlocks, look mais natural que este não nas redondezas.

Andam sempre em festivais, têm casa à beira mar, herança dos avós, onde passam a maioria do tempo em contemplação, ócio e tertúlias sobre chamon, não trabalham, não por falta de vontade mas porque todos sabemos que a taxa de desemprego no nosso país é muito elevada e no interior é um horror, campos abandonados e aldeias inteiras desertas!...
Quem paga isto tudo?

Estes meninos, muito crescidos para andarem de skate e a brincar aos pobrezinhos, não vivem de ganza, que até dá bué fome.

Ora bem, a casa para ser de graça alguém a teve que pagar e alguém a continua a manter, mais, quem paga a droga, a comida, o carro, a gasolina, os bilhetes dos festivais, a prancha e o fato de surf, o skate, as pulseiras de missangas, o didgeridoo original vindo da Austrália, os djembés do Brasil, a viola, o vinho, a cerveja, as bolsas e sandálias de couro de quem não come carne ou come às escondidas, mas lhe veste as peles...seus falsos vegans!, o cão de marca, o período que passam como ocupas com nuestros hermanos em Barcelona, a vida de quem clama por liberdade no contacto com a natureza enquando se agarram à ganza, ao vinho e à cerveja que nem lapas???

São os pais e as tias benzocas que vivem lá em Lisboa nas avenidas, que sustentam isto tudo e depois dizem às amigas que têm uns netos preciosos que estão a cuidar da casa de campo da família, fugiram do reboliço da cidade e foram à procura de uma vida mais calma e saudável, abdicaram dos bens materiais e dedicaram-se à permacultura...tudo por um mundo melhor!...A bem dizer, que seja deles e pago pelos outros.
02
Mai19

Campistas

Rita Pirolita
Os campistas são bizarros, normais ou anormais, previsíveis, excitados, prazerosos, descontraídos ou contraídos e vão sendo outras coisas mais...  
Os 'tios' que antes de jantar aparecem de banhinho tomado, com ar de donos do parque de campismo, com a madame a reboque de braço enganchado, para o moscatel ou whisky com muito gelo. 
Homens de porte de titans, agarram ao colo com ligeireza lulus franceses de 2 quilos, de orelhas borboleta, olhos esbugalhados e ladrar irritante. 
Avós babados ou pais chiques e betos, fazem-se acompanhar de cão de marca, de língua azul, com 50 camadas de pêlo, preparado para dormir no congelador. Se a raça sofre muito com o calor, porque não vivemos na Sibéria e se está preparada para puxar trenós mas não é muito amistosa com crianças, pessoas em geral e apartamentos ou varandas são autenticas prisões...nada disso interessa, o que interessa é que o preço do cão mostra a riqueza de bolso e a pobreza de espírito.
Tratam os filhos por você Martim 'práqui' ou você Matilde 'práli'.
 Gente da barraca que nunca conseguirá tirar a barraquice de dentro de si...estão no sítio certo para armar barraca. 
Os que abraçam o balcão do bar, debruçam o peito e encostam a barriga com delicadeza, como quem vai tomar balanço e saltar à barra, mas afinal só querem fazer figura de engraçadinhos, tudo isto para pedirem 2 cafés porque já jantaram na caravana, ela de pochete debaixo do braço, cabelo curto de baixa manutenção à camafeu, em pescoço de galinha marreca, ele de calção, sapato de vela e barriga descaida de grávida em fim de tempo. Depois do café levam as chávenas vazias até ao balcão, como a mostrar aos outros o bom comportamento a imitar, pagam o serviço mas até dão uma mãozinha e deixam a mesa limpa para o próximo casal maravilha de jarretas. 
Os que conhecem todos e mais alguns, os que conhecem alguns de muitos e os que não conhecem ninguém, nem sabem do que falo porque não fazem campismo, como os festivaleiros radicais de trazer por casa, que dizem que  aparecem no parque de tenda em riste mas depois não assumem a dependência do comodismo e não põem lá os cotos. 
Os que lavam roupa e estendem sem pudor as peças intimas, os que guardam tudo e depois logo lavam em casa. Os que lavam louça de alguidar, com detergente e esfregão e os que comem enlatados e sandes. 
Os que com mais de 50 anos ainda se aventuram a conhecer Portugal em bicicleta e pedalam debaixo da canícula pós almoço. 
Aqueles que já passam dos 40, ainda não tocaram os 50 e insistem em tendas à medida, onde se entra quase em voo e de onde se sai a rebolar como baleia encalhada em águas rasas...quanto mais pensar em pedalar, dar cabo dos glúteos, gémeos, nalgas e outros apêndices afins. 
Mulheres de meia idade que se passeiam desnudadas em praias naturistas como se tivessem 16 anos, a engatar surfistas de abdominais definidos, ombros largos, olhos verdes e cabelo queimado, a curtir música techno e a fumar ganzas como se não houvesse amanhã.
Sarrabecos que se vestem à noite como se tivessem chegado de uma importante partida de golfe, com a sua dama loira de voz grossa que fuma Marlboro, não Ventil, tabaco de pobre, pequeno e mirrado, que não fica elegante entre dedos o tempo suficiente para espalhar dondoquice.
Os que vêm o jogo da bola de fim-de-semana e barafustam como se o caso fosse grave e talvez situação de fim do mundo, com bitaites na fila da frente, sempre a virar a cabeça para trás, à procura de aprovação em adeptos desconhecidos.
Os dias acabam em tendas pequenas ou grandes, bungalows, caravanas, carrinhas pão-de-forma, abrigos, tipis ou ao relento, em noites quentes e bem regadas com cerveja ou bebidas fluorescentes de discoteca da aldeia! 
  

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