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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Jul20

Investimento no futuro

Rita Pirolita
Passamos a vida a matar o prazer do presente e a agourar e precaver catástrofes no futuro. 
Usamos cremes para evitar rugas antes que elas apareçam, porque já temos a certeza que vão aparecer ou porque queremos retardá-las ou até eliminá-las? 
Como saber se não teremos uma pele melhor sem a sufocar com make-up, ou desgastá-la com limpezas e peelings?
Não teremos curiosidade em saber como seremos naturalmente daqui a uns anos? 
Cada vez mais quero saber, é um desafio ver e até ir aprendendo a ficar satisfeita com o avanço, mais que desiludida ou irritada, treino assim a boa disposição, aceitação e positivismo e é sinal que estou viva!
Esfalfamo-nos a trabalhar, obrigam-nos a entregar rendimento do presente para assegurar o futuro na velhice, perdemos os melhores anos a juntar para gastar nos piores.
E se não chegarmos lá ou chegarmos em tão mau estado que só nos reste esperar ou desejar a morte?
Apostamos nos homens e mulheres de amanhã, lutando por  lhes dar a melhor educação quando os putos chegarem a adultos com a velocidade que isto leva, tudo o que se ensinou estará desactualizado, mas fizemos  o nosso melhor a pensar num futuro cristalizado, num presente que nem sabemos processar na sua causa e consequência.
Fazemos dietas para o próximo verão, para parecer bem aos outros, mais que para nos sentirmos melhor e mais saudáveis desde o presente dia que as iniciamos!
Deixa-se crescer o cabelo para se cortar no ano seguinte, porque a moda assim o manda e até sempre nos ficou bem, tirando anos de cima, num visual renovado! 
Fazer a guerra agora para alcançar a paz depois, quando a paz é que deveria ter presente e manter-se para evitar a guerra e não ser só futuro prometido.
Aprisionamos animais em cativeiro a prever a total extinção, tão evitável se agirssemos agora e já!
Fazemos seguros a puxar desgraça para acidentes que podem ou não acontecer, quem anda à chuva molha-se e se tiver guarda-chuva...também se molha!
Na próxima relação é que vou viver, descontrair, ter prazer e nunca traição!
Vamos adiando fazer e dizer em jeito desajeitado, à espera que tudo melhore! 
Se investimos no futuro, desinvestimos no presente e o futuro será tudo o que fizermos agora! 
A escolha é livre e não pode ser possuída mas pelas mãos nos passa a órfã responsabilidade!
22
Set19

A reforma reformulada

Rita Pirolita
 
Os que ainda não chegaram à reforma andam muito preocupados em reformular o sentido dessa fase, a terceira idade.
Não querem passar por preguiçosos desanimados e planeiam fazer tudo o que não tiveram tempo para fazer.
Não se esqueçam que isso inclui as doenças todas que não tiveram por serem mais novos e não terem tempo para ficar de cama nem com uma gripe. 

Fazer muito exercício, baixar o colesterol e os triglicerídos. Depois de andarem mais de 50 anos a comer mal querem corrigir tudo no primeiro ano de aposento, quando o metabolismo contraria tudo e todos. 

Os reformados pelo contrário não os vejo tão preocupados com o seu estado, até porque estão entretidos a fazer o melhor bolo com a pouca farinha que têm.
 
Os 'activos desempregados' estão na idade de poder trabalhar mas ninguém os quer porque já são 'velhos', ficam no limbo à espera de nada e sem ordenado, a fazerem da sua principal actividade, o envio de currículos em frente a um computador. 
Já não acreditam que vão conseguir emprego e já não têm idade para jogar como o Ronaldo, trabalhar nas obras ou carregar móveis porque as hérnias já se instalaram, os ossos doem com a ameaça de chuva e a paciência está esgotada com um subsidio que não dá para nada e não dura para sempre.  
 
Além de tudo isto têm que se mostrar activos, não deprimidos e confiantes no futuro.
Se a vossa realidade é esta, imaginem o ânimo quando chegarem à idade de fazer népia, com mais maleitas ainda...
 
Por essa altura já não têm que fingir, podem dormir até tarde, ter diabetes, demência, esquecimento, mandar vir com os mais chatos ou não lhes ligar nenhuma, só ouvir o que convém, comer e beber o que apetecer, estar à beira das passadeiras uma manhã inteira a ameaçar atravessar e fazer parar todos os carros, andar desdentado com a placa no bolso embrulhada em papel higiênico, beber um bagaço de manhã e viajar ao passado, sentado num banco de jardim, porque têm tempo de sobra...

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