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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

28
Jan20

Cocho - colher de cortiça para beber água

Rita Pirolita
O que é tipicamente português?
Mesmo que estejamos nas Galápagos e passe uma tartaruga a nadar ao pôr a venta de fora vê logo, ora ali está um fumador de SG Ventil, boa companhia para beber jolas e ver uma partida de futebol no sofá, a tirar macacos do nariz e a ajeitar os tomates durante 95 minutos de tensão desportiva.
O tipo de respostas a esta questão são inesgotáveis, podem ser pessoais ou generalizadas mas estarão sempre ligadas a uma imagem de foleirada e brejeirice...e disse!
Os fervorosos adeptos de futebol sofrem de amor incondicional ao seu clube que amam mais que mulher e filhos, passam o tempo na tasca lá do bairro, então desempregados ou reformados, falam encostados ao balcão enquanto comem tremoços em beijos chupados, deitam abaixo a mini, copo de três, traçado, imperial ou lambreta, com o dedo mindinho esticado para exibir a unhaca da cera, a outra mão enfiada na algibeira chocalha o molho de chaves, acompanhada de um abanar de perna que mais parece ansiedade para o tiro de partida, a ver quem chega mais tarde a casa e faz mais curvas pelo caminho.
Camisa sempre aberta com fio de ouro repleto de penduricalhos, crucifixo, figa e corno, foi daqui que a Pandora tirou a ideia para vender caríssimo, pechisbeque de qualidade achinesada duvidosa.
As esposas destes senhores estão em casa, gordurosas e  gorduchas a fazer crochet, à janela a coscuvilhar e a competir com as vizinhas nas doenças inventadas, a acreditar nas noticias da TV ou a chorar com o último episódio da novela e a gritar para a desgraçada que vai levar um balázio - 'Foge, chama a polícia ou dá-lhe com um tacho na cabeça, que essa mula falsa que está atrás de ti é amante do teu marido!'
Os filhos destas senhoras mantêm o gosto ferrenho pelo clube e sede pela cerveja, trazem CDs ou esqueletos pendurados no retrovisor do carro, os pais põem um cocho e na parte de trás uma sevilhana de renda para pôr o rolo de papel higiénico ou um cão pelo de pêssego de olhar vidrado a abanar a cabeça, deitado em manta de crochet. 
As filhas destas senhoras são divas suburbanas de salto de agulha e calça justa que trabalham na Berska, num call center ou têm um cantinho de unhas. 
Estas famílias ainda conservam o guarda sol dos anos 70 com manchas de ferrugem, rebordo de franjinhas branco amarelecido e padrão de florões LSD peace and love.
O que não é tipicamente português mas muito kitsch, são as Nossas Senhoras de Fátima fluorescentes, galos de Barcelos que mudam de côr conforme o tempo e o Gato da Sorte de pata levantada, que por acaso tem algumas semelhanças com o 'Toma' do Povinho, de bigodes e tudo!   
 
16
Mai19

Portugueses pelo Mundo e Hora dos Portugueses

Rita Pirolita

 

 
Sempre gostei muito de ver estes programas, fazem-me sonhar e acreditar que os portugueses são pessoas de sucesso para qualquer lado que se virem. 

Incrível, o nosso sangue lusitano de descobridores corajosos e fofinhos, que não mataram, não roubaram o ouro nem violaram a liberdade dos povos que colonizaram, ao contrário dos espanhóis, ingleses, alemães, franceses e holandeses, esses malandros, impetuosose chacinadores!
Lá levamos doenças que ceifaram a vida de muitos nativos, mas disso não tivemos culpa, já nos estava no sangue. 

Realmente os portugueses são únicos e esta singularidade manteve-se até aos nossos dias, ora vejamos.
 
Portugueses Pelo Mundo:
Esta crónica lusa vai aos mais variados locais, desde Paris ao longínquo oriente, com quem sempre tivemos uma relação fresca, até oferecermos literalmente de bandeja, Macau aos chineses, mas isso é outra história! 

Este programa televisivo faz uma breve resenha de como os portugueses trabalham e aproveitam as poucas horas de lazer que têm, em locais tão diferentes como Londres ou o Butão.

Em cada episódio temos pelo menos três histórias sofridas de vida, as equipas de filmagem saltitam de Paris para o Bangladesh, no segundo a seguir já estão no Japão, passam as reportagens a fazer isto, a um ritmo alucinante, como se estivessem numa máquina supersónica. 
Não está mal feito o alinhamento, não senhor, muito radical, fresco e jovem.

Mas eu 'tô' aqui é para falar da vida sofrida destes bravos portugueses. 
A idade dos visados anda sempre entre os 20 e os 40 anos, época mais produtiva das nossas vidas, a parte que mais me fascina é que toda a minha gente faz o que gosta, pessoas realizadas nas suas profissões que não emigraram por necessidade e desempenham cargos tão importantes para o avanço da humanidade, como DJ na Índia, leitora em voz alta de textos de Camões no Egípto, chef gourmet de asas de libelinha roxa às riscas no Liechtenstein...

Enfim, uma parafernália de profissões impressionantes, prometedoras e às vezes até de alto risco. 
Em Portugal nem existem cursos nestas áreas, por isso ainda deve ter sido mais difícil para esta gente, serem estudantes-trabalhadores fora da sua pátria. 
Na Índia deve ser difícil, com aquele calor e humidade!...

Os nomes de família desta gente, que acredito não serão fictícios, por não ser jornalismo de investigação, são bonitos e sonantes mas não me diziam nada ao início, até que, num raro momento de actividade cerebral, pareceu-me que os portuguesinhos seriam talvez filhos de banqueiros, embaixadores, donos de redes de hotéis...
Sou sincera, não me parece que estes portugueses tenham tido a vida facilitada por serem filhos de quem são, não tem nada a ver de certeza!
 
Este programa é tão isento que deixa sempre a ideia de um retrato fidedigno de vidas reais e a coragem de viver além e sem fronteiras!!!
 

Hora dos Portugueses:
Pelo que tenho visto, o magazine não é tão Maria vai com todos como o anterior, mais na onda conservadora, anda por países de origem anglo-saxónica, Canadá, Estados Unidos, Austrália...a perpetuar o apego a Salazar, o continuar da tradição e admiração a Fátima, ao fado e futebol. 

A vida no campo continua a ser uma referência que mantêm, trazida de um país pobre, principalmente os Açorianos que são mais que as mães para esses lados. Deixaram as vacas nos socalcos e agora dedicam-se aos bois que correm em liberdade por herdades planas a perder de vista. 

São todos ricos ao estiloTexano. 
Elas são de um loiro tipicamente português e aparecem maquilhadas ao estilo novela Mexicana. 
Toda esta mescla de estilos só mostra que são 'open mind' e se adaptaram bem demais às tradições do país que os recebeu de braços abertos.
 
Meus amigos, eu sei que todos estes personagens existem, mas não representam a maioria. 
Eu também conheço outra realidade menos feliz, a dos portugueses que chegam a estes países sem nada e os primeiros a acolhê-los e explorá-los são os compatriotas que já lá estão de peito inchado e barriga cheia.
Muita gente chega, desilude-se e volta, ganham tanto como gastam. 

Se querem ter uma casa maior do que precisam, um carro que gasta tanto como um avião e estão dispostos a ser escravos destes bens materiais?…Emigrem. 

Se querem ter uma casa à medida da família, um carro à medida do país e do preço do combustível, usufruir de boa comida, sol, praia e amigos sem gastar muito dinheiro, que o sol ainda é de graça, fiquem.

Se tiverem o curso de engraxador e forem filhos de algum diplomata, podem ir para onde vos apetecer e até podem levar um balde para apanhar mais seja do que for!

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