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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

13
Fev21

Um para a troca

Rita Pirolita
 
Foliões do Mardi Gras e outras festas carnudas, saiam à rua a ser o que quiserem, apalpem as mamas falsas das matrafonas, belisquem as nádegas dos marafados camafeus.  
Quer dancem em Ovar, Torres Vedras, Loulé ou Sesimbra, não insistam em mexer pé de samba que não é vosso, veio do outro lado do mundo e não trouxe calor tropical agarrado. 
Aqueçam-se do frio com o alcool, agarrem os bem agasalhados Caretos pelos cornos, agitem os guizos, bebam e dancem mas lembrem-se, queca de Carnaval logo se esquece ou resultado se vê no Natal! 
Tirem as máscaras ou escondam-se atrás delas, em três dias de vida, o Entrudo rouba um e deixa outro para a troca!
09
Ago20

Já sou canadiana também...e depois?

Rita Pirolita
A cidadania neste país dos ursos, neve e desolação, que o Deus dos esquimós conserve tudo isto no devido sítio de origem, para que não se espalhe, custou-me cinco miseráveis anos da minha vida, de frio ou muito calor, que eu vivo para o interior das pradarias da agricultura, com explorações imensas, acres de canola a perder de vista e campos de um dos maiores desastres ambientais, a exploração de petróleo, as famosas oil sands de que ninguém fala, por ser um país próspero e de primeiríssimo mundo para onde todos pensam que querem vir...até um dia baterem cá com os costados! 
Eu sei que tenho que ter em consideração que a maior parte da emigração é forçada na origem e não desejada no destino, pessoas que abandonam autênticos paraísos de beleza mas que são infernos de fome e pobreza. 
Eu sou uma privilegiada vim de um país lindíssimo, para mim o mais lindo do mundo e para os lados dos Açores não poupo elogios, ainda relativamente seguro, quase nunca assolado por catástrofes naturais de monta, aliás, os únicos que provocam a maior desgraça e morte lenta do meu povo são mesmo os ladrões dos políticos e dos banqueiros!
Não deixo no entanto de me pôr na pele de muita gente menos bafejada pela sorte. 
A minha cerimónia de entrega da cidadania foi feita numa sala com mais 84 pessoas de quase todos os cantos do mundo, todos mais escurinhos, aliás, na sala haviam mais 2 brancos além de nós, uns de turbante que não são obrigados a tirar por alegarem razões religiosas, imensos miúdos, muita desta gente vem de famílias tradicionais e conservadoras e ter filhos no Canadá dá para ficar em casa um ano com um bom rendimento. 
Os próprios que conduziram a cerimónia eram emigrantes...
O Canadá teve originalmente Índios, os canadianos são todos emigrantes mas alguns consideram-se mais canadianos que outros, vá-se lá saber porquê, se é pelo tempo que já levam aqui ou pelas gerações?...Por esse prisma os Índios deviam ser mais respeitados!
A senhora que fez o discurso, que fomos avisados previamente para ouvir com atenção e nos levantarmos à sua chegada, deu-nos uma lição de moral, sobre a aceitação deste grande país que acolhe gente de todo o mundo, blá, blá, blá...muitas vezes altamente qualificada, para fazer o trabalho que os que já emigraram há mais tempo não querem fazer. 
Só esta última parte é que a senhora se esqueceu propositadamente de dizer! 
No final a palradora palestrante, indignou-se com a falta geral de jubileu na sala na obtenção de tal mérito, advertindo que tínhamos que festejar e agradecer muito esta etapa.
Agradecer a quem? Apesar de estarmos em época natalícia, ninguém nos deu nada de graça! 
Muitas pessoas que lá estavam tinham feito duas ou mais horas de caminho, porque vinham de fora da cidade para obter um papel A4 que fará deles cidadãos de plenos direitos e deveres, que dará acesso a assistência ou tratamento médico quase gratuito, que dá direito a votar mas também a ir preso se puserem a pata na poça.  
Via-se que era gente de trabalho, muitos deles engenheiros ou professores que andam a recolher lixo ou a fazer limpezas.
Pela cor da pele habituados a climas mais quentes, vê-se que passam muito mal com o frio extremo por estes lados do mundo. 
Gente que passou cinco anos de sofrimento para obter este papel e pensar que muitos entram directo com estatuto de refugiado, difícil de provar, aproveitando-se assim de regalias sociais. 
Eu sei que o mundo é injusto para os justos mas eu também não fiz mal a ninguém para estar no meio disto.  
21
Mai19

Os ursos também hibernam!

Rita Pirolita
Das coisas que tenho mais pena de deixar quando morrer, são o Sol e o Mar, adoro calor, o cheiro da praia, os dias longos, as noites quentes. É um sacrifício desumano viver num país frio, o convívio não é espontâneo, dão apertos de mão de lampreia morta. Quem não é convicto nem nos pequenos gestos da vida, merece viver no país dos ursos, eu é que não mereço viver aqui, tenho a certeza do tipo de sítio a que pertenço e nunca desistirei de lá assentar costados e ficar para sempre. Entre ursos, coiotes, montanhas e cães de marca, prefiro caracóis, cães rafeiros e planícies amarelas, num pais pequeno que chega para quem lá está. Igrejas frescas, refúgio perfeito em dias quentes, areia, mar, açorianos que têm vergonha do seu sotaque deste lado do Atlântico. Neste sítio frio, estou sempre na plateia, nunca no palco! Sou música de fundo num bar de bêbedos! É difícil fazer amigos, no máximo tens conhecidos delambidos, que marcam encontro com uma semana de antecedência e sujeito a confirmação no dia anterior, para beber um café no Tim Hortons, uma coisa intragável, não há cá expresso bom e cheiroso, ora eu sei lá se daqui a uma semana me apetece beber um café com aquela pessoa, isto tira a tesão a qualquer latino. Não há cá jantares de 5 horas com os amigos, daí a duas horas a mesa já tem outro dono. As eficientes empregadas parecem deficientes a debitar sem emoção e quase sem respirar, os pratos mais caros do menu, como sendo as melhores sugestões e escolhas que algum dia possas fazer nas redondezas. Informam das promoções e "happy hours" do dia e rematam com um "here, everything is made from scratch", o que me soa sempre a "vais comer raspas e sobras de outros pratos". Para estes amantes de fast-food, basta abrir uma lata de feijão, misturar ketchup, aquecer no micro-ondas e servir, como se o mais natural fosse o feijão nascer enlatado, no máximo, emborcas duas bebidas, engoles a refeição, pagas e bye bye, pontapé no cu, assim que terminas a refeição, sem pedir, já tens a conta em cima da mesa, se deixares gorjeta abaixo de 10 ou 15% do total, pelo pobre serviço, tens tromba à despedida, se não deixas nada pelo mísero serviço, se pudessem, cospiam-te na comida e mijavam-te no vinho na próxima reserva...Mas nem coragem para isso têm! Fraquinhos! Nem pensar ir a um bar ou dar um pezinho de dança, até pelo menos à meia noite, a malta está sempre de rastos, trabalha muito e tem filhos. Tenho cá a impressão que nem fazem filhos da mesma forma que nós! Nunca vi esta merda de atitude em Portugal ou outros países com salero! Também se trabalha, tem-se filhos, os putos vão à tasca com os pais comer caracóis, podes beber uma cerveja em local público, podes fumar na praia, na Califórnia levas multa, por lá, ou deixas de fumar ou deixas de ir à praia. Queridos países a norte do hemisfério norte, vocês são conhecidos por trabalhar muito e gozar pouco, no inverno até os ursos hibernam e vocês, desculpem que vos diga, é que fazem figura de ursos. Canadianos, um conselho, não gastem tanto tempo a mostrar que são completamente diferentes dos americanos. Não têm comida nem boa nem típica e são quase todos obesos e cor-de-rosa. Os canadianos esforçam-se por ser mais educados e mostrar um pouco mais de literacia e cultura, de resto já se questionaram porque ambos falam a mesma língua? Porque os colonizadores foram os mesmos, que vão carregar o karma de ter sacrificado tantos nativos à sua chegada e até hoje não os respeitarem. Dito isto, num dia cinzento, a descoberta deste vídeo foi um raio de sol que fez a minha alma rir a bandeiras despregadas. Enjoy it!

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