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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

20
Jul20

Nostalgia da memória

Rita Pirolita
Por vezes dou comigo envolvida em sensações e energia que tento recuperar ao visualizar determinado local e situações que me fizeram rebentar de alegria e bem estar. 

Quase sempre coisas tão simples como andar numa rua que gostei, ver um pôr-do-sol na costa alentejana ou a lua por trás do Pico, quase nunca na interacção com gente a não ser na infância com outros miúdos da mesma idade.

Infelizmente os relacionamentos adultos são sempre complicados, previsíveis a descambar para o péssimo, entediantes, enfadados, monótonos até estagnados, ao ponto da única mudança positiva ser o terminus das relações! 

Pessoas que vou deixando de contactar até que se esqueçam de mim, nem sempre se esquecem tão rápido como gostaria e irritam-me ao ponto de ter que ser drástica e me zangar, coisa que não gosto de fazer, já que consome energia e tempo para fazer outras coisas mais importantes na vida, não gosto de perder tempo com outras merdas...de pessoas que não percebem que o meu silêncio é um afastamento suave porque detesto discussões, gritaria e guerras descabeladas, onde nunca me controlo mas quando tem que ser não me acanho!

Voltando ao tema que gosto porque já todos estão carecas de saber que não simpatizo com gente, cada vez mais tenho recorrido a esta nostalgia alegre, se é que existe tal coisa, a esta memória de sensações que tenho a certeza ainda vou repetir a overdose again and again, como uma droga que me impede de ficar triste, me renova a capacidade de sentir e ser feliz com o mais simples da vida, que de tão grande não tem preço, que me enche a alma mais que os filhos que não tive ou a família que não me acolheu e amparou, que me faz sentir não precisar de comer para sobreviver, porque tudo está ali quase como se vivesse do ar, do orvalho, da luz do sol e da lua, das manhãs acordadas na tenda a ouvir a passarada, das noites a ver a raposa que já passa próximo demais, no perverso apetite de comida fácil que ofusca a sua selvagem condição!  

Brincar nas férias de Verão mais de 8 horas por dia, com interrupções atabalhoadas para rápidas refeições para voltar à adrenalina das caricas, da macaca, de esfolar joelhos e mãos, de cortar minhocas aos pedaços ou queimar formigas em agonia, debaixo de um pedaço de vidro ao sol.

Sentir-me em casa na Austrália, vá-se lá saber porquê e ainda bem que não sei até hoje, só senti!

Ter a certeza que a melhor refeição até hoje foi um pão alentejano com atum de lata, degustado num carro com mais de 20 anos a ver o pôr-do-sol alentejano com a melhor companhia do mundo, a que gostei até hoje!

Repetir a cena do outro lado do mundo mas a comer fast-food, o sol era o mesmo, a comida não foi a melhor mas a companhia continuou a ser a melhor de sempre!

Se calhar sou maluca, sei que não estou só mas sou única nas minhas recordações e sua nostalgia!
10
Ago19

No reino do campismo

Rita Pirolita
Como já perceberam por anteriores encontros literários marcados aqui mesmo, sem hora ou dia, sou ferrenha adepta e praticante de campismo de tenda à medida.  
 
Embora com o avançar da idade esteja seriamente a pensar em comprar uma tenda grande, onde possa andar de pé sem parecer um caracol com reumático ou mesmo em comprar uma autocaravana ou em último caso e quando o esqueleto pedir, um alvéolo num parque de campismo, com uma requintada casa de madeira, com a entrada forrada a oleado, pedaços de mármore, ou tijolos de cimento a fazer canteiros e caminhos de jardim encantado com cogumelos e gnomos em barro, em 2 metros quadrados de cubículo, que ainda leva com um churrasco de tijolo a um canto e mesa e bancos de cimento para esfoliar joelhos, rabo e pernas, bem no centro. 
Não resta assim espaço para circular, ou estás sentado e comes ou desandas para o bar ou para a praia que dentro do pré-fabricado, se não houver ar condicionado, morres abafado que nem peixe fora de água.
 
O campismo de tenda, é considerado na sua maioria a versão pobre de férias, de quem não tem dinheiro para ter casa à beira-mar ou usufruir do pretensioso turismo rural, com pequeno almoço e arzinho condicionado. 
No meu caso, não tenho casa no Alentejo mas gosto de barraquice e até já gostei mais, não fossem as costas ficarem todas encarquilhadas e já não conseguir dormir em colchões de 3 mm, porque já não consigo apanhar bebedeiras de festival que me anestesiem a dor. 
 
O moço já começou a levar cadeiras de praia, porque já lhe custa comer sentado à japonês, num simples oleado estendido no chão, cheio de formigas, resina e caruma. 
Começou também a levar redes mosquiteiras, porque está cada vez mais convencido que o seu sangue atrai mais picadas que o meu, já lhe disse que passe a vegetariano mas ele está-se a borrifar e continua a dar-lhe nas feveras, no piano e no belo chouriço assado. 
 
Cada vez menos me preocupo com as pendurezas na hora de me ver livre da lycra, na minha praia de nudismo preferida, que não vou dizer qual, para não me incomodarem com pedidos de autógrafos e fotos indiscretas. Este corpo não vai para melhor mas também não está mal quase nos 50. 

Casqueiro alentejano que embaça e o vinho para empurrar já não pode ser aquele de pacote para temperar. 
Nunca deixarei de gostar de montar a barraca, o meu corpo é que já não acompanha muito esses gostos libertinos e esgrouviados. 
 
Chegou o momento de começar a pensar na casa com rodas, com WC e duche e uma cama virada para o mundo com vista para as estrelas!
 
Este será o passo que antecede a reforma no alvéolo, ao bom estilo retornado, que faz de cada Verão um encontro da grande família, que são os veraneantes deste tipo de casota. 

Irei passar a primeira semana da primavera, a lavar as cortinas com folhos, super inflamáveis, que se encheram de humidade durante o Inverno, a ajeitar as flores de plástico nos canteiros da entrada, mijadas pelos gatos que se reproduzem aos magotes sempre que há abrigo e comida. 
O moço passará as tardes no churrasco, já que um dos seus prazeres é comer e mexer no fogo. 
Eu passarei algum tempo no meu pequeno-enorme jardim virado ao pôr-do-sol, a limpar a relva de plástico de baixa manutenção e a dar banho ao cão. 
Vamos arrastando os ossos até ao bar ou à piscina, porque a praia já cansa muito...
Assim passarão os dias, num qualquer parque da costa alentejana.

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